Cinco poemas de Bruno Molinero

 

Bruno Molinero

nathalia, 22, bdsm

tirou minha coleira
e disse que eu estava livre

foi a única vez que machucou

 

marcela, 43, casada

matei, sim senhor
porque quis
não, até que era bonzinho
na gaveta da cozinha. uma daquelas grandes, sabe?
isso, ele estava no sofá
de costas
não, não me viu
dei dois passos e a lâmina escorregou para a cabeça dele
não tirei porque mancharia ainda mais o tapete
ora, se sabe, por que pergunta?
desculpe. sim, o corpo ficou lá
depois saí
mansão. era muito rico
não. deixou tudo para as meninas
eu sabia, sim senhor
porque quis, já disse
cansei de subir em pau de sebo. deslizar fácil não tem graça
sim. mas vou ficar muito tempo?
é que deixei a panela no fogo

 

lúcia, 51, canhota

a morte do meu pai
é minha lembrança mais bonita

estávamos nós quatro na cozinha
eu
mamãe
vó marta
e meu irmão
quando veio a bomba

– papai morreu

vestida de rosa e bolinhas amarelas até o tornozelo
vovó se levantou
subiu no banquinho em frente à pia
esticou-se para alcançar o pó de café guardado no armário
e disse lentamente
enquanto colocava a água para esquentar

– calma, lucinha. nós já vamos vê-lo

entramos no landau azul
chumbo
e logo imaginei meu pai da mesma cor do carro
algodãozinho no nariz
terno preto
gravata fina

mas quando chegamos ao porão
em que meu velho tinha dormido para sempre
quase caí para trás

meu pai estava enforcado
mas não era um morto qualquer
caído
frouxo
flácido

ele morreu enforcado
em um quarto colorido
cheio de brinquedos
vestido de palhaço
e com milhões de bexigas amarradas no pé esquerdo
tantas
mas tantas
um exército de bolinhas cintilantes
que puxava o corpanzil de 120 quilos pelo tornozelo
em direção ao céu
e só não o levava para a lua
porque a corda amarrada ao pescoço
insistia em fazê-lo flutuar de ponta cabeça

meu pai morreu enforcado
espelhado
ao contrário
invertido

ele sempre me surpreendia
aquele bandido
até na morte tinha que fazer palhaçada

deitei no carpete cinza
olhei os cabelos feito morcegos ao meio-dia
e adormeci com o cheiro forte de café que inundava o ar

 

sete minutos

o moço chegou
atrasado e já foi
entrando sem dar
bom dia nem pedir
licença com a maleta
suja de graxa que
encardiu o tapete

vou precisar lavar
depois ela pensou
um pouco impaciente
com a sujeira e o atraso
pra que serve marcar horário
se eles sempre chegam
na hora que bem entendem?

onde vai ser
o serviço senhora?
perguntou o moço já
arregaçando a manga
do macacão de funileiro
e abrindo a maleta
sem perder um segundo

completamente muda
ela abriu o robe de seda
já sem calcinha e
deitou de pernas abertas
no sofá da sala mesmo
imitando a pose que costuma
fazer no ginecologista

mal olhando lábios
clitóris virilhas e
demais peles molengas
com uma luva cirúrgica
ele separou ferramentas
a serem utilizadas
naquele caso específico

chave de fenda lima
cinzel bico de pato
lâmpada de prova
teste de tensão
iam entrando
rapidamente
vagina a dentro

monte de vênus
cheio de eletrodos
e luzinhas conectadas
a fios do vestíbulo
vulvar ao ânus e
claro o sistema
nervoso central

pronto senhora
agora assine essas
três vias e qualquer
problema ou dormência
é só ligar para o nosso sac
que funciona diariamente
das oito às dez

como está escrito
no termo de garantia
a senhora precisa
baixar o nosso aplicativo
e colocar a senha que
acabamos de te enviar
por e-mail e pelo celular

uma vez acionado o
botão e o app devidamente
configurado e sincronizado
ao sistema adquirido
é só ficar em uma posição
confortável relaxar e

gozar

são sete minutos
ininterruptos
de orgamos múltiplos
ou seu dinheiro de volta
e não precisa de parceiro
parceira nem qualquer
estímulo externo

quando o moço saiu
sem se despedir
atrasado para a próxima
cliente daquela tarde
ela abriu o aplicativo
e telefonou para o
irmão do marido

sete
minutos
de uma
conversa
besta
entre
cunhados

 

 

rota

com a boca
sem dentes
lambuzada
de gelatina

avista a vítima
calma em seu voo

olhos amarelos
perfeitas viseiras
não deixam
focar
ouvir
pensar

só seguir
capturar

e tinge de vermelho
um destino

próximo

 

Poemas extraídos dos livros Alarido (Patuá), Hiperconexões (antologia de Nelson de Oliveira, Ed. Patuá), além do inédito “rota”

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