Santiago Santos: Da Utilidade Dos Bons Brinquedos

 

 

Douglas segurava a pata do Mega Super Cão quando pulou do prédio.

Antes era só Cão, quando o ganhou no aniversário de cinco anos da mãe Isabela (a mãe Natinha deu uma fita de Mega Drive), e continuou sendo apenas Cão até assistir o episódio dos Bog-Boggers em que constroem uma Mega Super Nave Espacial e visitam os planetas vizinhos. Daí em diante todos os brinquedos viraram Mega Super alguma coisa, mas só a alcunha do Cão resistiu ao natal e à nova leva de presentes. Na verdade o Cão foi o único a resistir a todas as levas de presentes subsequentes e à mudança pra faculdade em Nova Iorque.

O Mega Super Cão ganhou verdadeira importância no dia em que Douglas quase morreu atropelado. Saiu escondido pela portaria da escola e atravessou a rua pra comprar chicletes com o dinheiro do lanche. Na volta, deu dois passos na faixa de pedestres quando ouviu o Cão aterrissando no meio-fio, caído pelo zíper aberto da mochila. Voltou pra apanhá-lo. O carro passou zunindo a centímetros de distância. A tia da padaria deu um grito, pulou no meio-fio e puxou o garoto pra calçada, segurando sua mão pra atravessar a rua. Do outro lado, o repreendeu e disse que o brinquedo salvou sua vida.

Por isso o Cão permaneceu na mochila durante as apresentações das Feiras de Ciências, as provas de escola, auto-escola e vestibular, os primeiros encontros (soterrado por trocentas outras coisas; nenhuma garota aceitaria aquilo), as entrevistas de emprego e assim por diante. O Cão tinha dez centímetros por cinco, era feito de plástico, a tinta ainda bem definida, a cabeça grande ligeiramente desproporcional ao corpo, um sorriso e uma língua alegre grudada no beiço superior.

Quando seu primeiro filho nasceu, Douglas decidiu que esconderia o Cão para não vê-lo acidentalmente destruído, despedaçado, banhado em baba ou coisa pior. A esposa não ligava e não costumava pensar no Mega Super Cão, portanto não sentiu a menor falta quando ele se mudou pro escritório. Os funcionários é que não podiam saber que o chefe, o genial e precoce CEO, guardava no cofre um cachorro de plástico a quem acreditava dever seus sucessos na vida.

Esse foi o motivo pelo qual, quando seu antigo colega de quarto de faculdade, que dividia os dias entre o campus e o psiquiatra, apareceu em seu escritório com uma pistola escondida no casaco, dizendo que ele, Douglas, estava moralmente obrigado pela amizade a lhe dar dinheiro e a possibilidade de recomeçar a vida, exigindo que abrisse o cofre e lhe entregasse o que havia ali (apenas documentos da empresa e o Cão), e percebeu que nada daquilo seria útil, muito menos o cachorro de plástico que o dono segurava com força, resolveu desistir de tentar achar outra saída e disse a Douglas para subir ao terraço do prédio, seguindo-o, e lá em cima o obrigou a andar até a beirada e pular, ele não sentiu medo.

Caiu na caçamba de um caminhão de lixo, daqueles caminhões providenciais que aliviam as quedas nos filmes de super-herói. Quebrou três costelas e um braço. Seu colega de quarto pulou em seguida e se estatelou no asfalto. O Mega Super Cão se perdeu no meio dos sacos de lixo. Douglas acordou no hospital segurando algo. A mão do filho mais novo. Chorou. Não segurava a coisa certa.

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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