Em entrevista, Sara Passabon Amorim fala do livro ‘A performance Bantu do Caxambu: Entre a ancestralidade e a contemporaneidade’ com lançamento em maio

A editora Cousa lança no começo de maio uma obra dedicada ao estudo do caxambu e suas raízes africanas. De autoria da pesquisadora Sara Passabon Amorim, o livro analisa a manifestação do caxambu nas comunidades tradicionais do sul do Espírito Santo, envolvendo um intenso mergulho da autora nesses lugares e em Moçambique, na África.

Para César Huapaya, professor da Ufes e encenador, o estudo de Sara “consegue fazer a relação da construção da performance bantu e seus elementos de jogo e performatividade nas comunidades do sul do Espirito Santo. Um trabalho de garimpo e de resgate da cultura capixaba.”

O prefácio do livro foi escrito por Zeca Ligiéro, professor da Unirio e encenador, que se refere à publicação como uma bibliografia de referência das peculiaridades do caxambu.

A autora é pesquisadora, diretora teatral, e pedagoga/educadora. Financiado pela Lei Rubem Braga de Cachoeiro de Itapemirim, A performance bantu do caxambu nasceu de sua tese de doutorado nos estudos das performances Afro-brasileiras no Programa da Pós-graduação em Artes Cênicas (PPGAC/UNIRIO).

Orelha escrita por Cesar Huapaya

O estudo da performance introduz um novo olhar e uma nova forma de descrever as práticas performativas. A performance vai descontruir vários conceitos considerados clássicos. No lugar da encenação, surge o contexto cultural, a diferença e a alteridade. Os elementos rituais, cotidianos, políticos, são redes de criações e construções nos tecidos performativos das sociedades.

Nas práticas performativas do caxambu e do Jongo em Cachoeiro do Itapemirim no Sul do Espírito Santo, encontramos vivas e reinventadas as práticas africanas que sobreviveram no Espírito Santo. Sara Passabon nesse livro faz um diálogo entre os estudos da performance e a antropologia. Um denso documento histórico das práticas performativas do Caxambu, também encontradas sob a denominação de Tambu e Jongo no sul do Espírito Santo.

Seu estudo se detém nas investigações no Sul do Estado em três grupos de Caxambu de Cachoeiro de Itapemirim: Caxambu da Velha Rita (Bairro Zumbi); Caxambu Santa Cruz (comunidade Monte Alegre); e Caxambu Alegria de Viver (comunidade Vargem Alegre).

Com vigor de atriz e encenadora performer, Sara Passabon mergulha com carinho e esmero nessa pesquisa inédita do povo Bantu no Espírito Santo e na performatividade do caxambu. Como pesquisadora na história da cultura Bantu em terras capixabas, ela faz uma correlação entre o ritual, o jogo e as performances afro-brasileiras. Como cita Sara: “que são constituídas pela composição das tradições e memórias trazidas da África e (re) inventadas na ritualização de sons, gestos, movimentos, entrelaçados no jogo de recriação”.

Sua pesquisa consegue fazer a relação da construção da performance Bantu e seus elementos de jogo e performatividade nas comunidades do sul do Espirito Santo. Um trabalho de garimpo e de resgate da cultura capixaba. Falando das forças motrizes (Zeca Ligiéro), a memória, a tradição do negro no Brasil  e a contemporaneidade. Salubá Sara Passabon!!!!  Que dá a palavra à mulher no caxambu e foi na África buscar fontes para sua pesquisa.

Cesar Huapaya.

Professor de Artes da Performance e Direção do Centro de Artes da UFES

Leia a seguir uma entrevista com a autora

De onde veio a motivação para estudar o caxambu?

Como cidadã Cachoeirense sempre me interessei por temas locais. Como atuante nas áreas artístico-culturais e educacionais, sempre me empenhei em pesquisas para desenvolver minhas práticas, sobretudo, numa vertente antropológica, historiográfica, e social. Ao me deparar, assim, com a carência de estudos e publicações nessas áreas, me empenhei para realizar essas questões que me afligiam: um estudo de valorização da cultura e da arte de Cachoeiro, num diálogo com o campo histórico, artístico, social e antropológico. No meu mestrado, me ocupei das folias de reis. No doutorado, interessada em aprofundar os estudos na cultura afro-brasileira em Cachoeiro, ampliei o foco inicial da minha pesquisa, abraçando a dança do jongo dentro dos contextos afro-capixabas nos quais é denominada por caxambu, sobretudo no sul do estado.

 Vale destacar uma motivação importante para o estudo do caxambu: conhecer os grupos de caxambu e as comunidades onde atuam. Dentre os grupos que conheci três grupos de caxambu de Cachoeiro: Caxambu Velha Rita, da Mestra Isolina, do Bairro Zumbi; Caxambu Alegria de Viver, da Mestra Canutinha, da comunidade rural de Vargem Alegre; e o Caxambu Santa Cruz, da Mestra  Maria Laurinda Adão, de Monte Alegre foram definidos para serem  aprofundados na investigação. Esses estudos levaram em conta também as origens dessas performances afro-brasileiras, relacionando-as às danças étnicas de Moçambique, reafirmando a sua conexão bantu.

Quais conexões você encontrou entre Moçambique e o caxambu?

Originado de várias nações, em especial de povos bantu, Moçambique apresenta não só a base lingüística de povos bantu, como a convergência de suas diversas práticas culturais. É possível dizer que essas práticas são a base da cultural, da moral, da ética, da sacralidade – desveladas na essência dos ritos, das artes populares, da dança, da música, do batuque – do povo moçambicano. É fascinante perceber o predomínio da cultura bantu, como cultura de “raiz de um povo”, que existe e persiste em suas tradições. A dança do caxambu – originadas de povos bantu, vindos para o Espírito Santo na época da escravidão – se conecta com Moçambique justamente nesses princípios, relacionando-os às danças étnicas de Moçambique, e afirmando a sua conexão bantu. Assim como em Moçambique e no caxambu é o artista popular, o mestre da cultura, o curandeiro, o dançarino, que buscam suas origens num processo de restauração, concebido por diversas práticas, do ritual sagrado ás danças festivas populares. O caxambu dessa forma se reafirma como uma prática que se fundamenta em princípios étnicos, tradicionais e religiosos – construtores das religiões e cultura afro-brasileiras –, num movimento formando em espaço ritual, festivo, e de entretenimento, fundamental na cultura africana e bantu. O povo negro tanto daqui como os de Moçambique afirmam sua autonomia cultural, e sua identidade – por meio do tocar/cantar/ dançar.  Entendemos assim que essa conexão se afirma e  (re)afirma na dinâmica do povo bantu: “O bantu, quando dança , rememora , vibra, interioriza e abre-se à vida”.

Como foi trabalhar nas comunidades quilombolas do ES? 

Chegar numa comunidade e abordá-la para pesquisa não é tarefa fácil e nem, às vezes, tranqüila. Até poderia ser diferente, se os grupos e pessoas observadas e pesquisadas fossem do meu convívio. A barreira da estranheza e da incerteza de ser aceita no grupo, a princípio, era o que sobressaia. Como nossa abordagem foi construída no decorrer do estudo e gradativamente desenvolvida numa relação de pesquisador/participante, a maior parte do tempo nosso propósito era ouvir, perceber , interagir com as pessoas e todos da comunidade, e até participar de seus costumes como, dos almoços de domingo, às festas de datas comemorativas, em especial a festa da libertação dos escravos (dia 13 de maio). Assim, agregar-me nas comunidades em conversas, em roda de dança, possibilitou-me ir dialogando com as mestras do caxambu, com as pessoas e com as famílias das comunidades, sobre as histórias e costumes  locais. Obtendo dessa forma uma relação de confiança que posteriormente essa relação foi ampliando em entrevistas, filmagens, fotos  com as pessoas locais,  interpretando e  reescrevendo suas histórias.

E a sua vivência na áfrica? 

Minhas  vivencias se iniciam a partir de informações generalizadas, repassadas no estudo sobre África, no Brasil, que parecem simplórias, na concepção de uma brasileira “desprovida” dos contextos atuais daquele continente, como a maioria dos brasileiros. Além de generalizadas muitas dessas informações são  equivocadas, pois, ficam por conta do nosso imaginário: uma África exótica, mística,um continente rústico, onde tudo e todos são colocados num contexto único, um único “pacote “ pertencentes a uma única nação ou a uma “aldeia primitiva”.

Qual minha  surpresa, no desenrolar de minha estadia em Moçambique , ao me deparar e perceber as particularidades desse país localizado no sul do continente africano, mais precisamente na áfrica austral. O encontro com a diversidade de lá é estar diante de uma ancestralidade nunca imaginada, é entender  o valor  da cultura de um povo (re)conquistada  após anos de guerras por libertação e lutas sociais. E ainda, é ter acesso ao pensamento africano, do moçambicano, verdadeiro autor de sua história, o que e como diz e vive: sua filosofia, suas estruturas sociais, culturais, e políticas. Bem como o entendimento sobre a dinâmica de um país em seu (re )estabelecimento e afirmação de identidade, sobretudo, ao “conhecer” a fala do presidente Samora Machel, quando em  1974 diz : “Herdamos uma situação difícil e grave do ponto de vista social e cultural resultante de séculos de opressão e repressão colonial-fascista e exacerbada pela aventura criminosa de um pequeno bando de racistas e reacionários.”

Nas minhas vivencias em Moçambique fica claro que, passado, presente, futuro dialogam na vida diária do seu povo, principalmente em situações escrupulosas do dia a dia, mediante ao fenômeno da globalização. A ancestralidade é presente amparando, aquele sujeito, em suas lutas no cotidiano, e que deseja um futuro mais humano e justo.

 A cada momento num encontro, num olhar, numa conversa me deparei com pessoas enfrentando de diversas formas, sobretudo na solidão, da contemporaneidade um capitalismo “enganador” e selvagem que avança, a medida que a globalização  se constrói em  torno de diversas  nações que continuam sendo disseminadas.

 No entanto, muitos valores se mantêm visíveis e enraizados, a exemplo do moçambicano, que embora esteja nessa teia constituinte da modernidade, possua a capacidade de se estabelecer na, dualidade assimilação-resistência, vistos como elementos complementares e não antagônicos desenvolvidos num cenário em que não se exige somente sapiência, mas a sensibilidade, a astúcia e vontade de dizer o que se quer dizer, a expressar o que se quer expressar, e a criar o que se quer criar.

O meu está em Moçambique, na maioria das vezes, foi demarcado por momentos inusitados, tantos culturais como sociais, principalmente diante do trio: dançar/ cantar/ batucar. Mesmo, não estando presentes, os três elementos simultaneamente, eles estavam lá, é incrível, uma “trindade” constitutiva do “ser” africano bantu. Possível em ampliar minhas interpretações como se esse trio fosse a representação desse sujeito por completo: como corpo/ alma /  espírito.

Nossa vivencia em Moçambique se estabeleceu por meio de significados, utilizados em suas interações e relações, de formas artísticas incontestavelmente de grande valor estético e de transformação social. Manifestações populares e.tradições performativas profundas, próprios do seu coletivo, dinamizando as suas capacidades de lutar em defesa de seu ideal, de “ser gente”, e de fazer frente aos mecanismos de repressão em que se enfrenta uma luta ideológica diariamente, em que o poder opressor global é constante.

Diante disso foi possível vivenciar, em Moçambique uma sociedade com um povo  que  ao dinamizar  suas práticas tradicionais e culturais não mantém uma participação ingênua no desenvolvimento de seu país, mas tem a responsabilidade social, política e ética/estética com as gerações futuras. Observei que a contribuição crítica e autônoma, estabelece um diálogo livre, na busca de sua auto-afirmação, que se revelam e confirmam sua identidade,  adquirida por afinidades culturais, históricas, lingüísticas, dinamizadas em seu cotidiano.

Quais impactos essas experiências tiveram sobre você?

 Os impactos que essas experiências tiverem sobre mim foram vários, principalmente, as marca/símbolos/atitudes num corpo/performance, que se permitiu está lá, com toda uma necessidade de perceber, entender e estabelecer contato com o outro/estranho dentro de uma possível busca da  conexão com a cultura do caxambu. Permiti-me com vigor de atriz e encenadora/ performer, e pesquisadora a mergulhar com carinho nesta pesquisa – inédita – do povo bantu, em Moçambique. Embora alguns contatos, posteriores, haviam sidos feitos, tanto com a universidade Eduardo Mondlane  como com algumas pessoas de lá, que tive oportunidade de conhecer em Vitória, o estranhamento ( do olhar estrangeiro) esteve presente, a princípio, de ambos os lados.

Estive na capital , Maputo , em Nampula e na Ilha de Moçambique no norte do país. Deparei-me com um pais precário, onde  a pobreza é gritante e a justiça é muito falha, e  poucos tem acesso. Embora nossa realidades econômica social e política se constitui também desse contraditório, principalmente, o quesito da   economia, em Moçambique essa realidade é mais impactante.  As pessoas em sua maior parte, são bem simples e pobre, com pouco ou sem nenhum acesso (  transportes, água encanadas, saúde, empregos, educação), aos seus diretos como cidadãos  ). Aquelas de poucas palavras, e de pouca abertura para conversa, entretanto interagem por meio das práticas culturais e  possuem uma fé nas suas tradições e na sua ancestralidade, inconfundíveis, muito visível na contemporaneidade,  que ultrapassam as  suas condições sociais.

Na busca de desconstrução, desse olhar, tracei estratégias, corporal/performática a medida que os impactos de encontros diversos, iam sendo estabelecidos e incorporados de forma que pudessem  desenvolver adaptações e me relacionar  no cotidiano, ao andar no meio da multidão, ao me  deslocar  de Chapa ( transporte precário e super lotado , semelhante a uma   vam no Brasil), ao   desenvolver a investigação bibliográfica e teórica sobre aquele país  e  procurar intelectuais para entrevista-los.  Porém foi diante das comunidades, do artista popular e das pessoas que dinamizam verdadeiramente as práticas culturais e tradicionais, que ocorreu o maior impacto dessas minhas experiências. O fato da permissão de está lá, vivenciando/experimentando as danças étnicas, seus batuques e suas canções me permitiram entender a complexidade na relação dessas práticas e o povo, que destacam os valores e existências essenciais da vida. Esses momentos, presenteados a mim, pela voz,  pelos corpos e expressão dos próprios sujeitos, donos de sua  história, foi  fundamental.

 Foi muito impactante me deparar com um ato  de persistência e resistência, de hábito e costume, de arte e de vida, que ocorrem na conivência local e entender que esse ato se estabelece e reafirma o espírito da sociabilidade do individuo e do coletivo, desvelas tramas num processo de fazer/construir o lúdico, o estético, entre sentimento/pensamento contemporâneo e forma tradicional. E mesmo sob as rédeas de um capitalismo selvagem, a sabedoria popular, comunitária e de raízes, do povo moçambicano se destaca, como os verdadeiros reprodutores da lógica, da filosofia, e da cultura, de uma nação.

Seu trabalho é fruto de uma pesquisa acadêmica. Qual foi a sua preocupação ao transformar a pesquisa em livro?

 Em 2014 fiz a defesa da minha tese de doutorado que foi consagrada com louvor e, em análise final da banca julgadora, foi sugerida a sua publicação em livro, pela relevância e importância dos fatos e análises nela apresentada em especial a cultura afro-capixaba.

Nessa perspectiva a publicação do livro  “A Performance Bantu do Caxambu entre a Ancestralidade e a Contemporaneidade”, dar visibilidade a cultura e historiografia da cultura negra capixaba. Nesse caso as práticas performativas do caxambu, desenvolvidas como hábitos e costumes em comunidades  quilombolas, no sul do Espírito Santo no Município de Cachoeiro de Itapemirim.

Além de contribuir para um público acadêmico, como fonte bibliográfica na área, essa publicação com uma linguagem acessível e direta, será disponibilizada em livrarias especializadas ou não, direcionando ao público em  geral, acesso que não seria possível, se essa pesquisa se confinasse somente às bibliotecas acadêmicas.

Essa publicação também será distribuída e em bibliotecas de escolas, e pontos de culturas (representativas do movimento negro no sul do estado), principalmente as comunidades e os grupos de caxambu envolvidos, nessa pesquisa, pois sem eles esse trabalho não seria possível. Com essa ação pretendo desenvolver à descentralização cultural e/ou à universalização e democratização do acesso a bens culturais.

Bate-papo e lançamento

Dia 04 de maio, quinta-feira:

 

Bate-papo com a autora

mediação de Cesar Huapaya

Das 14h às 16h

Cemuni V, sala 2, Ufes (Campus Goiabeiras)

 

Lançamento do livro

Das 19h às 21h

Laboratório Cousa,

Rua Sete de Setembro, 415,

Centro Histórico de Vitória, ES

 

Valor: 25 reais (cartões de crédito e débito, dinheiro)

informações: 27-999560277

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