Santiago Santos: Ilhas Sobrevoam a Terra Ratchada

Viu dois moleques parados na beira do rio, na entrada pro Bosque da Saúde. Remou, uma remada aqui, outra ali, mais outra, até lá. O que vão querer?, disse, sentindo o choque da ponta do bote com a terra. Os moleques tinham capas de caderno penduradas com arame na cintura. Eles ofereceram quatro mangas, uma delas amassada. Olhou pro fundo do bote. Pegou um antebraço com a mão inteira, todos os dedos. Toma, disse, e entregou pra eles. Baixaram as cabeças e entraram no mato.

Foi remando no sentido do CPA. Vez ou outra via as pessoas que moravam no topo dos edifícios afogados pela água, acenando, chamando, querendo escambo. Ratos de prédio nunca tinham nada de valioso e não raro tentavam roubar sua mercadoria. Tratava apenas com os sobreviventes da selva dos bairros altos. Observou a concentração anárquica sobre as construções da antiga administração pública, cujos terraços persistiam centímetros acima da água. As sombrinhas, as cadeiras de plástico, o lixo empilhado nas pontas, a podridão humana que se podia sentir daquela distância.

A água tinha uma camada onipresente de gordura, de sujeira, de químico brilhante, de negrume que subia das porcarias soterradas, de óleo do motor dos carros, dos ônibus, das panelas de fritura, das bombas de combustível, de sangue esfarelado e de restos carcomidos nos estômagos dos cadáveres, de asfalto que se desprendia em pedaços e era levado pela correnteza incerta, de ilhotas de merda que boiavam na água, o esgoto que cobria Cuiabá. Seguia, o remo preto.

Nas margens do CPA quatro meninas esperavam, desamparadas sob o sol. Perguntou o que queriam. Elas apontaram o bote. Fez que não com a cabeça, pegou uma coxa, da rótula até a virilha. Carnuda e peluda, o sangue seco nas pontas. Perguntaram o que queria em troca. Disse que algo valioso. Ficaram três, a quarta correu pra dentro da selva e voltou com um frasco de vidro cheio dum líquido branco e ralo. Leite de peito, explicou. Primeiro cheirou o leite. Entregou a coxa.

Em outra parte do CPA viu uma família, esses totalmente descobertos, esperando com um motor de lancha. Remou com um pouco mais de força. Desceu, abriu a capa de plástico, conferiu o interior. Puxou a cordinha, o motor roncou e funcionou por três segundos. O pai disse que precisava de gasolina, não tinham. Voltou pro barco, pegou o resto das pernas e braços e mãos e pés e jogou na terra. A família se atirou sobre eles e os segurou junto ao peito, com força. Do mato à esquerda ouviu um barulho. Um rapaz corria com uma faca na mão. Puxou do cinto o revólver com o cão engatilhado, atirou. O jovem foi jogado pra trás. A família tentou se aproximar do rapaz morto. Apontou o revólver pra eles. Correram pra dentro da mata. Colocou o motor e o cadáver no bote, com dificuldade. Começou a remar de volta.

Pensou se com todos aqueles novos membros conseguiria um galão de gasolina. Provavelmente não. Restavam duas balas no revólver. Se dirigiu pro Jardim das Américas, pros postos de escambo, pras reuniões das tribos. Era um motor, tinha um motor, um motor com todas as peças. A secura de Chapada dos Guimarães, além das barragens, além das fronteiras, além das casamatas recheadas de metralhadoras na antiga estrada, parecia palpável. Pensou no sabor da água de rio limpo, não na água da chuva. Engoliu saliva, estranhamente doce. Não era, mas parecia.

santiago santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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