Aline Bei: uma tarde suspensa

 

Raphaelesque Head Exploding (1951), de Salvador Dali

tenho percebido o jeito que o seu rosto fica

quando digo algo que acredito como eu disse ontem

sobre não conseguir viver numa floresta, é bonito ver as árvores mas

ver árvores o tempo todo eu não consigo (você ao ponto de

largar tudo

pra morar nos galhos como um

pássaro) então enquanto eu dizia sobre não conseguir

você me olhava com esse rosto

novo

banhado de uma

expressão filha

do desprezo, umas sobrancelhas arqueadas, um pescoço que me rejeita, Quando? esse amargo por mim te nasceu. não consigo lembrar do dia em que sentamos cada um numa ponta da mesa e de lá

nunca mais saímos. da minha cadeira eu te vejo

desistido de encontrar em mim o que éramos, me aborreço fácil com os seus trejeitos, um suspiro que seja, não sei

quem começou essa luta entre nós, acho que

foi o Tempo.

mesmo assim

ainda caminhamos juntos, por tudo o que fomos,

a distância que sentimos é por dentro

e seguimos ouvindo o que temos pra dizer um pro outro, está minguando o que temos pra dizer. então eu invento

assuntos que não vão doer

falo das bexigas prateadas que roubei de uma festa

para fazer outra,

você não me escuta, está no celular.  mas continua caminhando perto

como se juntos ainda fosse o único jeito de chegar.  eu te sigo

não sem dúvida

essa dor de não encontrar lugar em mim que cabe você está me matando.

sinto que não queremos nos contar logo

o que está acontecendo

não cabe numa frase o que está acontecendo

é uma fumaça, ainda,

é o tempo

gerando mudanças

as minhas eu nem sei nomear. sei que são detalhes

uma falta de vontade de pentear o cabelo depois do banho

e ontem eu vi

num banheiro público

uma mulher penteando os cabelos grisalhos com um pente de madeira. ela se olhava no espelho cheia de afeto. ainda se amava

mesmo depois de tantos anos. quando terminou ela

guardou devagar o pente

num estojo desbotado

eu me guardei junto, rígida.

quando você e eu nos conhecemos

eu tinha tantas ilusões.

agora

as coisas se assentaram em mim, eu consigo até te contar

das derrotas,

não deu certo isto, eu te conto, e já não me dói perder na sua frente.

alguma coisa em você

desacredita do mundo

eu também ando cansada de tudo

mas na música eu ainda acredito. na arte.

no amor sendo raro

e que também o amor não acaba, o que eu sinto por você não acabou. é só que não cabe mais

em mim, eu mudei de um jeito

insuportável.

quando é dia de te ver

vou como uma máquina

com um peso que antes eu não tinha.

leio em você

o mesmo peso

é o medo que sentimos de dizer a

verdade, de cair as cortinas depois que dissermos,

então seguimos covardes nos encontrando, apegados aos bons dias, a memória é uma cidade que morávamos

acordando cedo no meio da

neblina.

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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