Edmar Neves: Somos mais limpos pela manhã? – A sujeira de Jorge Ialanji Filholini

(Quase) Toda Sexta-Feira – Por Edmar Neves

 

 

Julio Cortázar, comparando a arte de escrever com o boxe, disse que alguns textos ganham o leitor por pontos corridos e outros ganham por nocaute. No caso do livro de contos Somos Mais Limpos Pela Manhã (Selo Demônio Negro, 2016), do Jorge Ialanji Filholini, eu perdi na primeira vez por W.O! Não estava pronto para encarar uma briga desse tamanho e tive que jogar a toalha para poder me preparar melhor. Afinal, eu devoro um livro pelas beiradas, leio os dados bibliográficos, qual a editora, qual a edição, quem revisou o material, em que cidade foi impresso, degusto o texto com calma, mergulho na história de cabeça ou nem continuo lendo. E como Caco Yshak bem avisou na sua apresentação, os contos do Jorge são uma bela troca de socos, na verdade, são como uma surra bem dada…

Mas, finalmente, consegui travar essa briga. E que briga! Tomei pancada da tiazinha que sonhava em comprar um portão para casa dela, do narrador que achou ruim que mataram o personagem que ele tanto gostava, do youtuber que ficou puto por não ter sido reconhecido na rua, do cara que não sabia o que fazer com esses irmãos que a gente escolhe e de tantos outros que saí com os olhos roxos.

Falar em referências no livro é difícil. Veja bem, o Jorge está girando em um furacão cultural, é Livre Opinião pra cá, projeto Quebras, que serviu para ele e para o Marcelino Freire conhecerem as cenas culturais fora do eixo Rio-São Paulo, pra lá, tanta gente que entra e sai da vida do rapaz, que tudo se torna referência (eu sei disso tudo porque, sempre que conseguimos, sentamos no bar do Mariva’s ou no bar do Amaral e tomamos aquela cerveja gelada falando sobre tudo um pouco). Da narrativa moderna/contemporânea estão ali a falta de medo de ousar nas palavras e nas estruturas do texto, o diálogo com a linguagem cinematográfica, seja nas sobreposições dos fatos narrados que nos dão a impressão de uma mudança de planos, seja nas alternâncias do foco narrativo que nos trazem uma imagem panorâmica do que está acontecendo, as frases curtas, afiadas e que causam impacto em quem se arrisca a ler, os temas sociais que nos deixam cara a cara com todos os fantasmas que nos assombram, sejam as assombrações que habitam a nossa consciência, sejam as assombrações que lutamos para ignorar, mas que, mesmo assim, estão nas nossas casas, nas ruas, nas praças, nos carros, nos faróis, nas sarjetas e no lixo da cidade tentando sobreviver.

Os cenários onde as histórias se desenrolam? Ó, tem a cidade de São Paulo, onde o youtuber tentou fazer um encontro no vão do MASP, tem a rodoviária de São Carlos, que é interior de São Paulo, tem um hotel em Maceió, onde uma moça chamada Leticia encontrou o seu fim, tem um conto em que o personagem, que está tomando um couro da polícia, veio de longe e tem o sotaque lá de cima que ficou misturado com o daqui de baixo, tem outro conto em que a memória do personagem passa por Recife, Belém, Manaus, Maceió e Peruíbe, tentando lembrar onde foi que ele fez uma filha. Há outros lugares que não foram identificados, mas que servem de palco para dramas que estão tão próximos da gente, que poderiam estar se desenrolando nesse exato momento aí dentro do seu quarto.

Tem umas coisinhas autobiográficas ali também, que eu sei, mas como disse o grande Ferréz, em um evento que fomos na unidade do SESC de São Carlos, tudo que escrevemos é, em certa medida, autobiográfico, já que o que colocamos no papel passa pelo filtro das nossas experiências. E é por isso mesmo que tudo é ficção, pois é uma versão dos fatos que registramos partindo do nosso ponto de vista e, nesse registro, podemos brincar misturando algumas datas e nomes.

Dos dezoito contos do livro, que foram escritos em menos de um mês em Paraty e finalizado na querida São Carlos, os que eu mais gostei foram O Irmão Que a Gente Escolhe, Portão Eletrônico, Mataram o Narrador, Desnuda e Senhor H. Cada um com seu jeito, me pegaram desprevenido com um belo jab de esquerda. O conto que dá título ao livro e o conto Dia Bom (título sugerido por ninguém menos que Lourenço Mutarelli) me deixaram com uma sensação ruim na barriga, antes mesmo de acabar. Seria um Déjà vú? Um “já vi essa história antes?” Enfim, o que eu posso concluir é que a relação entre pais e filhos sempre foi uma merda em qualquer momento histórico e em qualquer contexto.

Confesso que If You Can’t Say Something Nice me deixou com um mal estar. Talvez seja frescura de gente que se impressiona fácil. Já os contos Passeio e E Ai Topa? me trouxeram a impressão de que há algo a mais para se desvendar, que há alguma mensagem nas entrelinhas, afinal, o escritor não tem a obrigação de dar tudo de bandeja para o leitor, se ele quer algo que brigue por aquilo. No pain no gain, dizem os grandes filósofos contemporâneos. E há muita pain nessa sujeira que permeia os contos de Somos Mais Limpos Pela Manhã. Coisa de quem já vivenciou tudo isso, ou que está atento aos dramas dos que lhe cercam, em suma, coisa de escritor bom mesmo.

Deixando meus gostos de lado, fico feliz que haja alguém tão próximo e tão querido que esteja escrevendo tão bem sobre essas sujeiras que gostamos tanto de varrer para debaixo do tapete. Talvez jogando na cara, a gente tome vergonha e assuma. Talvez continuemos fingindo que não é com a gente e a vida que segue. Pelo sim pelo não, não se sai ileso dessa troca de socos que é ler o Somos Mais Limpos Pela Manhã. Se você quiser tentar, tente, mas é por sua conta e risco.

Somos Mais Limpos Pela Manhã é do escritor, jornalista e um dos idealizadores e atual administrador do Livre Opinião – Ideias em Debate, Jorge Ialanji Filholini. O livro foi lançado em 2016, pela editora Selo Demônio Negro e pode ser comprado através do email do autor  jorgefilholini@gmail.com.

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