Em entrevista, Alberto Mussa conversa sobre seu novo romance ‘A hipótese humana’ com lançamento em maio

Alberto Mussa lança 4º livro de seu compêndio de romances sobre o Rio de Janeiro. “A hipótese humana” se passa no século XIX, no bairro do Catumbi, e chega às livrarias em maio

O ano é 1854. Um crime misterioso assombra o então bucólico bairro do Catumbi: dentro da chácara de seu pai, Domitila é morta a tiros. Tito Gualberto, agente da polícia secreta e ágil capoeira, é contratado para investigar o assassinato. Em seu encalço, o novo romance de Alberto Mussa passeia pelos caminhos assombrados, pelas alcovas e pelas senzalas, pelas ruas escuras, estalagens e armazéns do Rio de Janeiro oitocentista. E com isso desbrava, também, o choque entre cosmologias que forjou a história da cidade e de sua gente.

A hipótese humana é o quarto romance do “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, série de romances policiais, um para cada século da história carioca, já composta pelos premiados O trono da rainha Jinga, A primeira história do mundo e O senhor do lado esquerdo. Com esta nova obra, Mussa reitera sua surpreendente habilidade em aliar historiografia, fabulação e suspense para restituir os pedaços negligenciados no imaginário sobre a cultura carioca. “A hipótese humana tem como problema central a noção ameríndia de pessoa, particularmente a dos guaranis, que confronta a visão ocidental”, afirma em entrevista para o blog da editora. O livro chega às livrarias em maio, pela Record.

Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Contista e romancista, dedica-se atualmente à elaboração do “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro”, série de cinco romances policiais, um para cada século da história carioca. Recriou a mitologia dos antigos tupinambás; traduziu a poesia árabe pré-islâmica; e escreveu, com Luiz Antônio Simas, uma história do samba de enredo. Além de figurar em listas de “melhores do ano” de veículos como VejaO Globo e Folha, ganhou os prêmios Casa de Las Américas, Academia Brasileira de Letras, Oceanos, Machado de Assis (FBN) e APCA. Estudada na Europa, nos Estados Unidos e no Mundo Árabe, sua obra está publicada em dezessete países e quinze idiomas.

Leia abaixo uma entrevista com o escritor ralizada pelo Grupo Editorial Record

Na introdução ao romance, você revela que o enredo tem como base um dos “mais vívidos capítulos” de sua lenda familiar. Como são essas memórias de família?

Famílias em geral são uma fonte inesgotável de dramas e tensões que a ficção costuma explorar muito bem. A literatura brasileira é cheia de clássicos dessa linhagem, como Asfalto selvagem, A república dos sonhos, Crônica da casa assassinada e muitos outros.

Sempre me interessei pelas histórias familiares, como a da tataravó índia que mascava pimenta crua e não sentava em cadeira (depois um exame de DNA me confirmou essa ascendência); a do assassinato do meu bisavô maçom, dono de um jornal em Alagoas; a do primo que atirou num suposto amante da mãe (minha tia); a da bisavó que tocou piano no último baile da Ilha Fiscal e recebeu um anel da princesa, que depois foi roubado; e muitas outras. Minha mãe, que é uma grande narradora, gostava especialmente dos casos trágicos, que às vezes envolviam crimes.

A história central de A hipótese humana aconteceu no Rio, nos anos 50 do século 20, envolvendo dois primos dela. Escolhi essa, especificamente, porque se encaixava bem no problema mitológico que eu queria abordar. Sofistiquei bastante a trama básica, além de transpô-la para o século 19, porque queria também mergulhar no mundo dos capoeiras.

Tito Gualberto, detetive contratado para desvendar o assassinato que dá origem à história, pertence à chamada “polícia secreta”. Poderia falar um pouco mais sobre a atuação desse grupo que, segundo o romance, foi extinto pelo que chama de “golpe republicano”?

Li essa informação num livro chamado História da polícia no Rio de Janeiro, de Thomas Holloway, um estudo sensacional sobre a instituição policial no século 19. Ele é que fala da existência dos serviços secretos, que chegavam a consumir mais de um terço do orçamento da polícia da Corte, mas sobre os quais não há muitos documentos, talvez por sua própria natureza “secreta”. Quando li isso, não tive dúvida: meu detetive tinha que ser um polícia secreta.

A relação dos secretas com os capoeiras é uma ilação minha: acho razoável, verossímil, que tais agentes precisassem ter a capacidade de se infiltrar entre os criminosos, para desvendarem crimes. Sendo os capoeiras os principais “criminosos” do Rio de Janeiro no século 19, fiz a associação.

Na república, com a reforma do sistema e com a vigência de um novo código penal, os serviços secretos foram extintos. A palavra “golpe” é, naturalmente, uma ironia.

Tito era, também, capoeira. Qual o papel da capoeiragem em A hipótese humana e na história do Rio de Janeiro?

O historiador Carlos Eugênio Líbano Soares escreveu dois clássicos sobre a capoeiragem carioca: A negregada instituição e A capoeira escrava. A leitura desses livros nos sugere que a capoeira foi talvez o maior fenômeno sócio cultural do Rio oitocentista. A cidade respirava capoeira, que era um organismo vivo, presente nas ruas, no cotidiano das pessoas. De certa forma, a capoeira já havia estabelecido, no século 19, a tão mencionada “cidade partida”, por constituir o universo marginal por excelência.

Infelizmente, como a maioria dos capoeiras integraram a Guarda Negra do Imperador, foram combatidos violentamente pelos governos republicanos; e por isso a capoeira carioca (a pernada, como também se dizia) terminou desaparecendo, abrindo espaço para a entrada da capoeira baiana, arte mais “civilizada”, mais domesticada.

Este é um livro sobre o Rio de Janeiro dos capoeiras, dos escravos e capatazes, das estalagens e armazéns. Uma história que transcorre à margem — e que só pode ser explicada pelo contato entre a racionalidade ocidental, cristã e controladora, com outras mitologias, concepções e visões de mundo. Concorda que seja esse o espaço de seu romance?  

Concordo. Não apenas deste romance, mas do Compêndio como um todo. Na verdade, acho que em todos os livros que escrevi empreguei essa estratégia, a do choque de cosmologias. Talvez seja o fundamento da minha literatura. Ou o meu próprio fundamento.

No caso específico de A hipótese humana, essa função é exercida pelos capoeiras, especialmente pelo detetive: capoeira e polícia secreta. Ele é quem transita por todas as esferas culturais (ou “míticas”) da cidade, ocidentais e não-ocidentais.

A trama de A hipótese humana também está ligada a um detalhe da cartografia carioca no século 19: o círculo de cinco pontas entre o Catumbi e o Largo da Segunda-Feira, na atual Tijuca. Um pentágono “cujos vértices eram lugares assombrados”. Por que você escolheu essa região para sua história? Foi inspirado realmente na geografia de um crime real?   

A escolha foi mais ou menos fortuita. A origem foi uma tese minha, pessoal, sobre a etimologia do nome “Largo da Segunda-Feira”. Os tratados falam que o lugar se chama assim porque houve um crime numa segunda-feira e a vítima foi enterrada no local, sendo que uma cruz existiu lá até o século 19. Discordo dessa versão: acho mais provável que, tendo havido um crime, tendo havido o enterro de um anônimo, existindo uma cruz para marcar o lugar da sepultura, pessoas iam lá às segundas-feiras para acender velas, porque segunda-feira é o dia consagrado às almas. É claro que não tenho evidência nenhuma para provar minha tese. Por isso mesmo, decidi incluí-la no romance.

Como, pela natureza da trama, precisava que o crime principal, o crime explícito, ocorresse numa família abastada, optei pelo Catumbi, então um subúrbio de gente rica, próximo do Largo da Segunda-Feira. É no Largo, no entanto, que ocorre o crime implícito, fundamental para o entendimento do romance.

A ideia do círculo de cinco pontas veio depois, como forma de marcar, enriquecer, enfatizar o aspecto sobrenatural (ou pseudo-sobrenatural) da história.

Você afirma que, apesar de poderem ser lidos de forma aleatória, os livros de seu “Compêndio mítico do Rio de Janeiro” formam um sistema. Qual o papel de A hipótese humana dentro dele? 

O Compêndio trata, ou toma como ponto de partida, três problemas mitológicos, ou cosmológicos, que sempre me interessaram: a natureza do Mal; as codificações sexuais; e o conceito de humanidade. O trono da rainha Jinga aborda o Mal, a partir de um ponto de umbanda, que se canta para seu Zé Pelintra, e do mito quimbundo de Cariapemba; O senhor do lado esquerdo e A primeira história do mundo tratam da sexualidade masculina e feminina, respectivamente. O primeiro com base no mito do orixá Logunedé e do adivinho Tirésias; e o segundo, no das Amazonas indígenas, especialmente como figuram na “Lenda de Jurupari”. A hipótese humana tem como problema central a noção ameríndia de pessoa, particularmente a dos guaranis, que confronta a visão ocidental. Já o romance a ser escrito, A biblioteca elementar, terá como base mitos cosmogônicos (que ainda vou definir) sobre o enigmático conceito de “espécie humana”.

Esse é o sistema a que me refiro. Mas, como se pode perceber, todos esses temas são mais ou menos recorrentes, em todos os livros.

Neste livro, assim como em outros de sua autoria, há forte teor erótico. Característica que não está apenas nas cenas de sexo ou no papel-central que adultérios e romances assumem na resolução dos mistérios. Mas, também, na forma de revelar a cartografia da cidade, com seus labirintos sorrateiros e zonas lúbricas. O quanto a sexualidade é uma chave para desvendar o Rio de Janeiro?

A literatura do Rio de Janeiro já nasce com esse caráter erótico, sensual. O primeiro escritor carioca, o poeta Caldas Barbosa, compunha lundus no século 18 que já desafiavam a moral do tempo. A imagem da cidade se manteve assim no século seguinte, tanto no conto como no romance, crônica ou teatro: sedutora, perversora, permissiva. Os grandes escritores da cidade (Martins Pena, Manuel Antônio, Macedo, Alencar, Machado, Aluísio, Lima Barreto, João do Rio, Marques Rebelo, Ribeiro Couto, Nelson Rodrigues, Sérgio Porto, Otávio de Faria) exploraram profundamente o erotismo, cada a seu modo, especialmente o relativo às histórias de adultério.

Um sociólogo talvez pudesse explicar, ou contradizer, essa imagem. Mas me interessa apenas o que pode vir a ser mitologia. Não há, assim, como escapar ao tema, se escrevo sobre o Rio de Janeiro.

O quanto a história do Rio de Janeiro é, também, uma história de opressão do corpo feminino? A hipótese humana retrata, pela ficção, um pouco dessa história?  

Tratei mais profundamente desse aspecto em A primeira história do mundo, mas o tema da opressão da mulher, vinculado ao do controle da sexualidade feminina pelo homem, acaba sendo recorrente nos meus livros.

Como já afirmei, tenho uma preocupação com os problemas mitológicos. E a mitologia universal, em todos os continentes, parece sugerir que só pode existir ordem social se houver o controle sexual da mulher. A mulher sexualmente livre seria, assim, o elemento desestabilizador, corruptor mesmo, das relações humanas. Isso é a mensagem dos mitos. Basta ler o Gênesis hebraico para verificar quem, entre Adão e Eva, foi responsável pela perturbação da ordem.

Ao conjugar mitologia, histórias de adultério e romance policial, o tema da opressão contra a mulher e contra o corpo da mulher acaba emergindo naturalmente. Infelizmente, nada tão antigo ainda é tão contemporâneo.

Você já está trabalhando no quinto e último volume de “Compêndio mítico do Rio de Janeiro”? Pode nos dizer do que se trata?

Ainda não. Tenho o fundamento mítico do livro, como já disse: tratar do conceito de “espécie humana”. E a época: século 18, num momento importante, e duro, da inquisição carioca. Mas ainda não tenho a história.

Escrevo agora um romance que não pertence ao Compêndio: Fantástico desfile da escola de samba Floresta do Andaraí em 1961. A trama se passa entre Andaraí, Grajaú e Tijuca, envolve o jogo do bicho, as religiosidades populares, o ambiente das antigas escolas de samba e, naturalmente, assassinatos e adultérios.

A HIPÓTESE HUMANA
Alberto Mussa
Páginas: 176
Preço: R$ 34,90
Editora: Record / Grupo Editorial Record

Livre Opinião – Ideias em Debate
jornal.livreopiniao@gmail.com

Quer ficar por dentro de tudo o que acontece no Livre Opinião – Ideias em Debate? É só seguir os perfis oficiais no Twitter, InstagramFacebook e Youtube. A cultura debatida com livre opinião

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s