Bárbara Rosa: Um dia da cor da berinjela

 

La patience (1943), de Balthus

O tempo estava roxo
Eu adoro roxo
Mesmo sem saber o seu significado
E precisa ter?
Roxo é a cor da nota de 5 reais, é a cor que escolhi pra tingir o meu vestido, é a cor do cabelo da moça que passa, a cor da bata do padre em tempo de quaresma e
é a cor dos hematomas
Aqueles que cicatrizam logo se dissipam transparecendo a cor inata
Os outros doídos
Ficam aporrinhando
A pessoa ferida
(Que fere
quem passar na frente)
O hematoma lembra (às vezes) daquilo
Que já era pra esquecer
Aquilo fica vivo ali.
-Sim, você é mais do que esse roxo, sim acredito que você é melhor do que isso e…
E, eu juro que pensei isso
Mas não tive coragem de dizer
O adeus súbito cortou o vento
Que mirava para o sul
Eu norte
Sem ter
Tido tempo
De falar
De acreditar
Ou dizer que acredito
Ou
De sorrir pela última vez
Para iluminar sua dor
Fera ferida está sempre de unhas afiadas
Arranha a cara
Por um triz de dizeres que relutam contra a entrega
Perder amigos, possibilidades e perder o que criamos
É
Dar espaço para a não compreensão do roxo do outro
É
Não dar espaço pro bombear do coração
Que sempre pulsa num perdão sólido.
Quando vemos TV a vida parece ser distante
Mas pisar no asfalto é mais do que gastar o solado do sapato que o moço da TV falou pra gente comprar.
A aspereza do sol naquele dia
Esquentou minha fala
Que não quis mais falar
Temos algo em comum agora
Um silêncio
O tempo tá roxo
Mas eu não.
Eu adoro roxo
Mas não sei seu significado
Posso chamar de empatia?!
Eu sei que não é uma cor primária
Como o sangue
E o rio vermelho que escorre em nós
Nem tão belo como o azul do céu em dias de sol
Ou como o olho daquela atriz de cinema
Mas
Ainda assim é roxo
É cor
É
Infinitamente
O que sentir
Espero que sinta algo além do que o hematoma limitou. (Além da lama que deixaram em ti)

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