Marcelo Flecha: Ilhas de encontros em um mar de desencontros

O primeiro encontro de 16h com os participantes do SESC Dramaturgias em Caxias/MA – serão dois, conforme expliquei aqui – encerrou na quinta, e enquanto me preparo para seguir viagem rumo a Vitória/ES e Maceió/AL, depois de amanhã, repasso na cabeça as marcas deixadas pela experiência e as indagações provindas dessa jornada.

Toda atividade formativa, seja oficina, curso, vivência, imersão, minicurso, workshop (sic), propõe um repasse de práticas, teorizações, metodologias, experimentos, postulações e pulsações de alguém que se pressupõe cumprir os pré-requisitos para atender as demandas da clientela que o espera – aplicado vertical ou horizontalmente, dependendo da proposta do facilitador –, e as consequências dessa natural troca são avaliadas de diversas maneiras pela comunidade que o recebe; no decorrer da atividade, em bate-papos informais ou na cordial conversa de encerramento, mas, principalmente, depois da partida do dito cujo; quando a volta à rotina da classe artística local faz com que se efetive, no tête-à-tête, a real e implacável avaliação do bardo. Porém, raramente temos acesso aos resultados, transformações, devaneios, daquele que promove o repasse, e quando existem, ficam confinados em formais relatórios de conclusão, arquivados nos anais da desmemoria.

Por esse motivo me proponho a mostrar o outro lado, e revelar o que se passa pela cabeça daquele que vai e carrega consigo as marcas da experiência, a carga do forasteiro, o desafio de ter invadido uma realidade que não é a sua e ser o ilustre desconhecido apresentado por algumas laudas de currículo.

A primeira sensação que me toma é a de que todo encontro é uma ilha em um oceano de desencontros. Toda atividade formativa, quando realizada fora da comunidade onde o ministrante atua – e já passei por essa situação inúmeras vezes –, expressa em sua gênese a minúscula probabilidade de que esse encontro se repita, e esse que vai, carrega sempre consigo o desejo de retornar e a certeza da improbabilidade.

Essa é a marca inaugural deixada em mim com a primeira experiência no SESC Dramaturgias. Como o projeto agora propõe o retorno do ministrante, depois de mais ou menos um mês, para um novo encontro de 16h, a sensação da partida foi particularmente diferente de todos os experimentos formativos que me propus realizar durante os últimos vinte anos. Poder retornar, prontamente, para perceber ruídos, poder acompanhar se efetivamente se verifica alguma contribuição significativa na formação do participante, poder receber impressões presenciais dos problemas, me fez transitar pelos 362km que separam Caxias de São Luís, com um singelo contentamento substituindo a escamoteada angústia, pois sei que voltarei.

Aquele olhar de dúvida que não percebi terá uma segunda chance. Aquela certeza de entendimento que se esvai em uma prática mais aprofundada terá uma segunda chance. Aquela confidência de incompreensão que foi calada terá uma segunda chance. Aquela atenção que não dei, por descuido, terá uma segunda chance.

Claro que muitas vezes retornei à mesma cidade depois de visitá-la com algum projeto artístico, e criei laços profundos que se sustentam até hoje – inclusive em Caxias, onde apresentamos os dois últimos espetáculos da Pequena Companhia de Teatro –, mas em todos esses casos as motivações do retorno foram fortuitas, afetivas, desavisadas. Aqui, não. O projeto tem o cuidado formal e a delicadeza de garantir esse privilégio para oficinados e oficineiros, sem que eles tenham que contar com a sorte de que esse oceano de desencontros se abra para que passe um novo encontro.

Começou agora. Mas, a primeira marca já está cravada na pele deste pelejador teatral, forjado a cada encontro, a cada abraço, a cada papo, a cada troca, a cada partida, a cada retorno… Agradeço ao SESC por essa singela marca. E para os vinte e quatro consortes que participaram da oficina, e tanto discutiram sobre gêneros literários, perdoem o excesso de lirismo que tomou conta desta narrativa. Nos vemos em breve!

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