Santiago Santos: Do Que Esquecem No Carro

 

 

Mariana tava no sofá cochilando, o filme ligado. Catei os sacos de salgadinho e as latas de refrigerante, joguei no lixo e saí pra fumar na escadaria do condomínio. Um carro chegou, casal de idosos que eu conhecia de vista. Acenei, acenaram de volta. Acendi um cigarro e sacudi o maço. Mais três. O exato pingado do dia seguinte; um antes do trabalho, um no almoço, um entre a janta e a viagem pro curso. Depois o tempo necessário sem fumar pro cheiro diluir a ponto de Mariana não reclamar quando eu chegasse.

Ainda sem sono, fui andar pela garagem. Gostava de ver o que deixavam nos carros. Pastas, embalagens de comida, compras esquecidas, brinquedos dos filhos. Num banco traseiro vi algo peludo e preto. Encostei o rosto no vidro pra enxergar melhor. A coisa se mexeu, ergueu a cabecinha encaixada entre as patas e me olhou. Parecia um gato. Testei a trava. Aberta. Recolhi com cuidado nos braços e fechei a porta. Minha mão ficou encardida de sujeira, o dono não lavava há anos.

Coloquei-o no bercinho vazio de Fernanda. Peguei um pouco de leite na geladeira e cortei uma almôndega em pedaços. Comeu devagar. Quando Mariana acordou ele já tinha terminado e tava deitado de bruços, eu acariciando sua barriguinha. Ela perguntou o que era aquilo no berço e eu disse que era um gato que encontrei na garagem. Ela disse que aquilo não era gato coisa nenhuma. Se equilibrou na parede. Disse pra eu jogar fora. Falei pra ela parar de ser boba.

Adormeci mexendo nele. Mas não tava sob meus dedos quando acordei. Fui pra cama. No escuro, fiz carinho no cabelo de Mariana mas senti ele fofo demais. Quando acendi a luz vi meu gato ocupando todo o lado da cama dela. Me olhou com aqueles olhinhos queridos. Dormimos.

Segui a rotina de sempre no outro dia. Quando cheguei em casa, vi um maço de cigarro lacrado na mesa. Gritei por Mariana, perguntando se aquilo era um presente. Ela saiu do quarto, desfilando o novo couro macio, peludo e preto, e me disse que sim. Depois do cigarro na escadaria, percebi outros três gatinhos nos bancos de outros carros.

Na semana seguinte, na confraternização do condomínio, eu era o único morador que não tinha aquela pelagem macia e não falava na língua estranha deles e não gostava dos bolos de carne crua que estavam na mesa. Até o casal de velhinhos fazia parte da roda. Comi rápido um sanduíche que Mariana tinha preparado e voltei pra portaria.

Agora cuido da entrada e mando embora os visitantes que aparecem perguntando sobre um ou outro inquilino. Digo que já se mudaram tem algum tempo, não vi mais, não tive notícia. Os carros na garagem estão quase todos cheios de gatos. Mariana disse que logo logo poderei levá-los pra passear pela cidade.

 

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

Leia mais textos de Santiago Santos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s