Entrevista com os fundadores do canal É Libras: “Inclusão é todos poderem ocupar e percorrer o mesmo espaço físico sem segregação”

 

(Quase) Toda Sexta-Feira – Por Edmar Neves

 

 

Você sabia que existem centenas de canais no youtube voltados para a comunidade surda? Esses canais tratam dos temas mais diversos, que vão da cultura pop até dicas de maquiagem, passando, lógico, pela educação e pelos direitos da comunidade surda. O canal É Libras, por exemplo, que foi criado pelos estudantes Bruno Straforini e Flávia Lima no começo de 2016 e atualmente conta com quase três mil inscritos, nos traz diversas discussões a respeito de suas experiências de vida, sobre questões pertinentes a comunidade surda (se surdos podem dirigir, se podem exercer qualquer profissão, a relação entre o Português e a LIBRAS, etc.), sobre relacionamentos amorosos e familiares, entre outros. A maior parte dos vídeos com legenda para que todos possam entender a mensagem ali passada.

Sobre a criação do canal, Bruno e Flávia dizem: “Refletimos sobre o privilégio de termos o outro por perto pra poder desabafar, trocar experiências e renovar estratégias pra viver nesse mundo de cobranças. Na mesma hora pensamos na quantidade de pessoas que vivem o que nós vivemos mas não tem alguém que compreenda essa situação pra poder conversar. Filmamos o primeiro vídeo (…) com uma mensagem que nós dois pensamos ser importante falar.”

Leia a entrevista completa que o Bruno e a Flávia concederam para o Livre Opinião – Ideias em Debate

Bruno Straforini e Flávia Lima, fundadores do canal “É Libras”

Como surgiu o canal É Libras? Sobre o que vocês costumam falar no canal? Há outros canais voltados para a comunidade surda no youtube?

Surgiu numa conversa de madrugada, falávamos sobre a dificuldade de não perdermos nossa essência e o grande desafio que é não sermos influenciados pela forma como a sociedade nos olha por causa da posição que ocupamos (surdez e cadeira de rodas). Refletimos sobre o privilégio de termos o outro por perto pra poder desabafar, trocar experiências e renovar estratégias pra viver nesse mundo de cobranças. Na mesma hora pensamos na quantidade de pessoas que vivem o que nós vivemos mas não tem alguém que compreenda essa situação pra poder conversar. Filmamos o primeiro vídeo ali mesmo com uma mensagem que nós dois pensamos ser importante falar. Existem canais voltados a assuntos da Comunidade Surda, mas indicamos os que são criados por surdos, ninguém melhor do que os surdos para falar sobre ser surdo, não é? O canal Surdo Cult é o nosso preferido!

LIBRAS é uma língua? O certo é surdo-mudo né? Tem que ensinar a falar português para ele ser aceito na sociedade? Por que questões como essas ainda são tão presentes quando se trata da comunidade surda?

Sim, Libras é uma língua, incontestavelmente sim. Uma língua com sua própria estrutura e complexidade. Eu, Bruno, sou surdo, eu apenas não uso minha voz porque a minha língua é a de sinais, é através dela que eu falo. Esse termo surdo-mudo é colocado pela sociedade que mais uma vez vê “fala” ligado unicamente a línguas orais, logo se eu não uso a voz para falar eu sou mudo. Mas isso não é verdade! Eu tenho voz e eu falo! Minhas mãos são minha fala. Eu não sou mudo, sou apenas surdo.

 

Partindo de suas experiências, o que é inclusão para vocês?

Inclusão é todos poderem ocupar e percorrer o mesmo espaço físico sem segregação. Inclusão é não ter ninguém enchendo o nosso saco com expectativas de superação e regras assistencialistas. Inclusão é ter uma língua diferente e direito a isso. É podermos opinar, estar, existir e incomodar com nossas ideias sem sermos olhados com estranheza.

Para o Bruno: como é a vida de uma pessoa surda em uma sociedade que valoriza a oralidade? Fale um pouco sobre sua relação com a família, como foi sua vida na escola e na faculdade.

Eu não me identifico com essa sociedade, por isso temos a Comunidade Surda, nela eu me sinto eu mesmo e livre. Minha família é ouvinte e a comunicação é algo complicada entre nós, não é como eu gostaria mas os amo muito e entendo as dificuldades deles. A minha vida toda estudei em escola regular sem intérprete de Libras, meus colegas me ajudavam, na verdade, me davam o caderno deles para eu copiar. Na faculdade foi a mesma coisa nos primeiros anos, atrasei muito por causa das reprovas, só nos anos finais contei com a presença de uma intérprete.

A UFSCar abriu, no ano de 2015, o curso de Tradução e Interpretação em Libras (LIBRAS) /Língua Portuguesa (TILSP), um dos poucos cursos no país com esse perfil. Qual a importância de cursos como esse, voltados para a formação de interpretes, para a comunidade surda?

A importância é que valorizando e oficializando a profissão de intérprete de Libras, reforça o status da Língua de Sinais. E principalmente melhora essa prática em diversos contextos, dando a nós surdos mais qualidade nas nossas falas e na nossa compreensão sobre os discursos a qual temos acesso.

Leia os textos anteriores de Edmar Neves

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