Santiago Santos: De Quem Canta Sem Voz

Garroada. Que Marinho ameaçava toda vez que encaçupava uns cinco dedos de uísque, ou uns cinco dedos da marvada, que não era sempre que o peso daquele se agarrava às costuras do bolso.

Em verdade, bem queria Lucinha que Marinho continuasse encaçupando, e queria mesmo o demônio encaçupado até que cólera transbordasse. Que garroada seria atestado de tentatudo até as últimas forças, de fim pressas histórias simboladas da vida a dois, essas bravias esturricadas de quem acorda já de saco olhando pro outro na cama, sem interesse nenhum nos pensamentos ou falarios desse vizinho insistente, de saco do mastigamento, de saco do algodão batido de sempre, couro mapeado se remexendo ali dentro, na mesma toada, no mesmo sacolejo, sempre um guaraná ralado que ela não guenta mais nem o cheiro nem as vistas, sempre o roncadouro na trégua do almoço, sempre o maldito batuqueiro com o celular nos dedos, as piadas estralando que ela não pede mas ele insiste em futricar.

De mala cheia se arrastando nas lombadas de terra, de abraço da mãe curvadinha que se ergue em anos só pra ganhar chegada de braços abertos, de neblina de comida se embarafustando casa adentro sem o reclamo do patrão que se coça no sofá, das gatas se enroscando nos calcanhares que coisa impossível quando Marinho se zangava com animal qualquer em cômodo de gente, de sentar e pitar sem os recriminamentos do velho: imagens que povoam os dormideiros lúcidos de quem apaga rapidinho só pra alcançar eles.

Mas faltava daquilo. Garroada. Pra recriminação não chover sobre sua cabeça com os raios de quem se acovarda do ritual do sempre da vida. Do casório lavrado na boca do povo todo. Dela mesma. Que costume só era costume porque não se aquebrava. Faltava daquilo. Garroada.

Até que nem faltou mais. Que garroada veio descendo a ladeira nos punhos trincados, que garroada veio do converseiro que Lucinha travou com seu Ferreira da polícia, que garroada veio da ciumeira que Marinho sentia do seu cajuzinho moreno só seu, que garroada chegou arrebentando os degraus da casinha, que garroada chegou encarniçada no bafo encaçupado, que garroada veio se erguendo nos dedos brancos de tanto enforco e se encaixaram na bochecha muchibenta e cravaram com força no freio do vento, e o giro foi tanto que Marinho se dobrou nos tornozelos e foi caindo devagar, devagarinho, ali mesmo no chão quente dos pés dela.

Lucinha só sossegou as pernas lá fora, na esquina, olhando pro longe, os beiços tremeliquentos. A mãezinha curvada já mastigada pela terra. Os filhos exportados. As amigas tudo encalacrada com os comparsas do demônio. Mastigou o ranço do garrote com saliva bem grossa, bem dura, deu meia-volta volver, marchou com as sapatilhas marronzadas de volta e ergueu a besta desmoronada, tão frágil, tão leve.

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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