Vanguart lança o álbum ‘Beijo Estranho’ no Sesc Pinheiros

Quarto álbum de estúdio do grupo cuiabano terá dois dias de shows

Vanguart (Foto: Felipe Ludovice)

O grupo de indie rock mato-grossense Vanguart lança no Sesc Pinheiros seu quarto disco de estúdio, “Beijo Estranho”. Serão dois shows no Teatro Paulo Autran, dias 13 e 14 de maio (Sábado, às 21h, domingo, às 18h).

O grupo é formado por Helio Flanders (voz, violão, gaita, trompete), Reginaldo Lincoln (voz, baixo, violão, bandolim), Fernanda Kostchak (violino) e David Dafré (guitarra, lap steel, clarinete). Os shows no Sesc Pinheiros contarão com as participações de Julio Nganga (teclado) e Loco Sosa (bateria).

“Beijo Estranho” chega após quatro anos de espera dos fãs. São 11 músicas inéditas, que trata, de diversos temas – desde o amor até questionamentos existenciais, mas que marcam o amadurecimento musical do grupo.

Acho que o lançamento de Beijo Estranho terá no palco o seu Vanguart mais épico. O tom do disco, a presença do arranjo de cordas, tudo vem pra confirmar uma identidade musical de mais de uma década. Certamente estamos no nosso melhor momento em todos os sentidos“, diz Helio Flanders sobre o que os fãs podem esperar dos shows no Sesc Pinheiros.

Com quatro álbuns de estúdio gravados – Vanguart (2007), Boa Parte de Mim Vai Embora (2011), Muito Mais Que O Amor (2013) e Beijo Estranho (2017), o Vanguart (cujo nome foi tirado de uma obra de Andy Warhol) traz em seu som diversas influências – desde o rock alternativo, blues e rock clássico até estilos musicais típicos do Mato Grosso, seu estado de origem. Seu repertório inclui músicas em três idiomas: português, inglês e espanhol.

Beijo Estranho, por Marcus Preto

Para aqueles que não têm tempo ou paciência para ler textos longos, resumo neste parágrafo o que vou expor com mais calma nos próximos. “Beijo Estranho” (Deck), o quarto álbum de estúdio do Vanguart, é, de longe, o melhor trabalho da banda. É o que tem as canções mais inspiradas. Esteticamente, é o mais ambicioso e também o mais maduro. O mais bem arranjado, o mais bem tocado e cantado.

Em um ajuste de contas com a história, o álbum parece ter chegado para recolocar o Vanguart no posto de “a banda mais influente do cenário independente brasileiro”, que ela chegou a ocupar em 2007, quando os meninos se mudaram de Cuiabá para São Paulo trazendo embaixo do braço o trabalho de estreia, “Vanguart” (dos hits “Semáforo” e “Cachaça”). Aquela aparição teve importância fundamental para a cena que nascia, sobretudo na capital paulista (mas não só nela), e influenciou de imediato a gênese de artistas como Mallu Magalhães, Tiê, Thiago Pethit e Roberta Campos, entre outros.

Entre aquela estreia há dez anos e o “Beijo Estranho” de agora, o caminho do Vanguart foi corrido em ruas não lineares, entre buscas estéticas e questionamentos existenciais. Em 2011, a banda lançou “Boa Parte de Mim Vai Embora” (Deck), segundo álbum de estúdio, de poética pesada e intensa. Negaram justamente essa densidade no trabalho seguinte, o “clean” “Muito Mais que o Amor”, de 2013. Os dois discos eram tese e antítese, recolhimento e expansão, noite e dia, estranhamento e atração. Eram, na real, um processo inconsciente de maturação, que preparou a banda para que chegassem no equilíbrio entre uma coisa e outra que conseguiram agora, em “Beijo Estranho”.

Atualmente, a banda tem Helio Flanders (voz, violão e piano), Reginaldo Lincoln (voz, vocal e baixo), David Dafré (guitarras e bandolins) e Fernanda Kostchak (violinos). No disco, Julio Nganga – que foi o primeiro baixista da banda, antes da estreia em 2007 –gravou outros pianos, além de cravo e Hammond. Loco Sosa, da banda Los Pirata, foi convidado para tocar bateria nas faixas. Há quatro arranjos de cordas escritos por Ronaldo de Oliveira a partir das ideias originais do Vanguart. E a canção “Homem-Deus” foi arranjada por Wagner Tiso, um dos artífices do Clube da Esquina.

A canção “Beijo Estranho” (Helio Flanders) abre o álbum em tom épico. O piano é tocado pelo próprio compositor, que, desde as experiências no álbum solo “Uma Temporada Fora de Mim” (Deck/ 2015), segue maturando sua relação com o instrumento. “Vivi todos os meus dias em ti, mas hoje eu vivo em mim”, conclui a letra, expondo o discurso redentor que atravessa vários momentos do disco.

“Todas as Cores” (Reginaldo Lincoln) leva “Beijo Estranho” para o terreno do glam-rock do David Bowie dos 1970, apoiado em um riff de guitarra que remete a “Heroes” e outras delícias do gênio inglês. O texto direto inverte o discurso, agora o amor é um lugar pelo qual vale a pena continuar sempre em luta: “Ninguém vai nos parar/ Me dá sua mão, me leva/ Eu amo todas as cores, toda sua luz”.

“O inferno é bom”, afirma um verso de “Felicidades” (Helio Flanders/ Reginaldo Lincoln), rompendo efetivamente com o universo lírico otimista do álbum anterior, “Muito Mais que o Amor”. Ou ainda: “O amor é mais simples do que amar”. É o pós-amor, ou seu questionamento. Há dúvidas com tudo. Mas, por isso mesmo, o ar está cheio de amor por todos os lados. A citação aqui é a “Brejo das Almas”, poema de Carlos Drummond de Andrade. Nessa faixa, como em outras muitas que virão, as vozes de Helio e de Reginaldo soam juntas, timbrando como um único personagem, um só eu lírico.

Com grande potencial para hit, “E o Meu Peito Mais Aberto que o Mar da Bahia” (Helio Flanders/ Reginaldo Lincoln) é filha do Jorge Ben de “Ive Brussel” com outro gene em algum Lennon & McCartney clássico. O discurso segue colorido, o amor acontecendo e as delícias do cotidiano sendo exaltadas, como em todo bom Ben Jor: “Quem diria que seria tão bonito assim viver?/ Tão bonito assim olhar alguém/ E não sentir medo?/ E não sentir frio?/ E não sentir vontade que não seja de infinito?”. Um coro final, de cantar com as duas mãos para o alto, reforça a leveza da faixa e garante o equilíbrio do disco.

Outro momento grandioso do álbum, “Homem-Deus” (Helio Flanders/ Reginaldo Lincoln) também transborda otimismo: “Não chora, amor/ Tudo vai ficar legal/ Quem manda no tempo é o céu/ Quem manda no céu é deus/ Quem manda em deus é o homem”. O arranjo de cordas de Wagner Tiso reforça as características mineiras, hippies e rurais da canção e o bandolim de David Dafré ressalta o elemento “beatle” (à maneira de “She’s Leaving Home”) que sempre foi central também nas criações originais do Clube da Esquina.

“Quando Eu Cheguei na Cidade” (Helio Flanders) volta a espelhar “Beijo Estranho” e seu antecessor, “Muito Mais que o Amor”. A lógica agora é contrária à de então: “Vem e me abala a fé que eu tenho no amor”. Não há saída. “Não adianta tentar escapar, um dia isso volta a doer”. A letra se resolve também redentora, com uma citação ao Tom Jobim (e Paulo César Pinheiro) do clássico “Matita Perê” – que, por sua vez, já citava um dos contos de “Sagarana”, de Guimarães Rosa: “Todo-fim-é-bom”.

“Eu Preciso de Você” (Helio Flanders) foi a última canção escrita para o álbum: composta em um domingo à meia-noite, foi gravada na segunda-feira de manhã. O título antecipa o tom apaixonado da letra: “Eu já não posso mais me enganar com essas coisas do ultramar/ Já não sinto mais saudade de nada na alma/ Mas eu preciso de você”. O violino agressivo de Fernanda Kostchak costura toda a faixa. A instrumentista cresceu um bocado nesse novo trabalho e dá uma interpretação bastante pessoal às canções, em arranjos violentos, que a colocam em ponto fora da curva da estética country.

“Casa Vazia” (Helio Flanders) estava entre as canções selecionadas para o repertório de “Muito Mais que o Amor”. Não entrou lá atrás porque, àquela altura, a banda não conseguiu chegar a um arranjo que satisfizesse. “A alma é vazia, sem corpo/ A espera é cruel, mas eu sei: esse amor ainda vai chegar”, diz outra letra de devoção à musa idealizada. O sentimento é solitário: “Ninguém sabe mais do meu amor que eu”. Aqui e em todo o decorrer do disco, o canto de Helio Flanders está mais limpo e preciso.

E ele só não aparece em “Quente É o Medo” (Reginaldo Lincoln), número solo de Reginaldo. Assim como Helio, o segundo vocalista do Vanguart também vem da experiência de um álbum solo, “Nosso Lugar”, lançado em 2014. É a faixa mais roqueira de “Beijo Estranho”. Um coral gospel gravou os vocais finais.

Outra faixa de inspiração hippie, “Menino” (Reginaldo Lincoln/ Helio Flanders) leva o álbum para a sociedade alternativa de Raul Seixas, “faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”. Ou, na linguagem vanguartiana: “Então vai, faz o que você não fez pela primeira vez”. O arranjo rock rural, bonitão e certeiro, só amplia a nobre vocação dessa música para as rodas de violão nas fogueiras de paz e amor.

Por fim, “Pancada Dura” (Helio Flanders) encerra “Beijo Estranho” colocando em colapso todos os discursos apresentados no álbum. Volta o amor possível e o inalcançável, ressurge deus e seus homens tão humanos, retornam os dias bonitos e as velhas tristezas, a primeira vez e o suspiro final, o possível e o platônico. E é a morte que legitima a vida: “Eu vou viver o que for, mesmo que eu morra ao viver”. De novo, tese e antítese, recolhimento e expansão, noite e dia, estranhamento e atração. Tudo vem junto, em explosão, amarrando o entendimento teórico e estético do melhor álbum do Vanguart.

 

SERVIÇO

VANGUART

Lançamento do álbum “Beijo Estranho”

Dias 13 e 14 de maio de 2017

Sábado, às 21h; Domingo, às 18h

Local: Teatro Paulo Autran (1.010 lugares)

Duração: 90 minutos

Classificação: Não recomendado para menores de 10 anos.

Ingressos: R$ 40,00 (inteira). R$ 20,00 (meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência). R$ 12,00 (credencial plena: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). Ingressos à venda pelo Portal www.sescsp.org.br a partir de 2/5, às 16h30, e nas bilheterias das unidades do SescSP a partir de 3/5, às 17h30. Vendas limitadas a 4 ingressos por pessoa.

 

SESC PINHEIROS

Endereço: Rua Paes Leme, 195.
Bilheteria: Terça a sábado das 10h às 21h. Domingos e feriados das 10h às 18h.
Tel.: 11 3095.9400.
Estacionamento com manobrista: Terça a sexta, das 7h às 21h30; Sábado, das 10h às 21h30; domingo e feriado, das 10h às 18h30. Taxas / veículos e motos: Credenciados plenos no Sesc: R$ 12 nas três primeiras horas e R$ 2 a cada hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 18,00 nas três primeiras horas e R$ 3 a cada hora adicional. Para atividades no Teatro Paulo Autran, preço único: R$ 12 (credenciados plenos) e R$ 18 (não credenciados).
Transporte Público: Metrô Faria Lima – 500m / Estação Pinheiros – 800m

 

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