Relembre a trajetória literária de Antonio Candido

[…] a literatura passa de tal modo a ser um elemento da ordem social, que não se sente nela a vibração e a receptividade em face das novas sugestões da vida, em constante fluxo. Daí um novo movimento [Modernismo], para lhe dar amplitude ainda maior, fundando-a, não no gosto e no interesse de um limitado setor da sociedade, mas na vida profunda de toda esta, na sua totalidade.

Literatura e Sociedade, p. 174-75.

O crítico literário e sociólogo Antonio Candido morreu em São Paulo na madrugada desta sexta-feira (12), aos 98 anos. A informação foi confirmada pela Faculdade de Filosofia e Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, onde ele deu aulas no curso de Letras e era professor emérito. Segundo a FFLCH, o velório ocorre no Hospital Albert Einstein, no Morumbi, até as 17h00.

Candido construiu uma obra extensa e respeitada nos estudos da Literatura Brasileira. O crítico recebeu quatro Prêmios Jabuti e um Prêmio Camões. Destacam-se Ficção e confissão: estudo sobre a obra de Graciliano Ramos (1956), Formação da literatura brasileira: momentos decisivos (1959), Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária (1965), Formação da literatura brasileira (1975), A educação pela noite e outros ensaios (1987), O estudo analítico do poema (1987), O discurso e a cidade (1993) e O Romantismo no Brasil (2002).

Além dos estudos acadêmicos voltados à literatura, Antonio Candido também desempenhou papel forte na política do Brasil. Por meio de documentos, textos e artigos, Candido demonstrou sua militância política na vertente socialista para lutar contra os inúmeros embates com os modos oligárquicos e autoritários. A partir do Estado Novo, passando pela Ditadura Militar, Antonio Candido fez uma reflexão da complexidade política vivenciada no país. Membro do Partido Socialista, Candido apontou a ambiguidade de transformar a vida social no sentido igualitária, nos modos socialistas, em um país que ainda há resquício oligárquico.

[José] Alencar sentiu muito bem a dura opção do homem de sensibilidade no limiar da competição burguesa. Não tinha, contudo, o senso stendhaliano e balzaquiano do drama da carreira, nem a ascensão, na sociedade em que vivia, demandava a luta áspera de Rastignac ou Julien Sorel.  […] Como bom romântico, procura sempre preservar a altivez e a pureza dos heróis, levando-os ao casamento rico por meio dum jogo hábil de amor, constância e inocência, que tornariam inoperante a acusação de interesse.

Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos, p. 542

Antonio Candido durante coletiva da 9ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), que homenageou Oswald de Andrade

História

Antonio Candido nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1918. Durante a infância, não frequenta a escola primária, educado em casa, toma as primeiras lições com a mãe. Muda-se ainda criança para Poços de Caldas, Minas Gerais, cidade de sua família. Conclui o ensino secundário em 1935, no Ginásio Estadual de São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. Faz o curso complementar no Colégio Universitário da Universidade de São Paulo (USP), entre 1937 e 1938. Milita contra o Estado Novo, no governo de Getúlio Vargas, em grupos clandestinos como o Grupo Radical de Ação Popular.

Em 1939, ingressa no curso de direito da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e de ciências sociais e filosofia da USP. Dois anos mais tarde, estreia como crítico literário na revista Clima, fundada em 1941 por ele, o crítico de teatro Décio de Almeida Prado, o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, a ensaísta Gilda de Mello e Souza (1919 – 2005), entre outros. Abandona o direito no quinto ano, e conclui bacharelado e licenciatura em filosofia, em 1942. Nesse ano, torna-se docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências (FFLC/USP) como assistente de sociologia do professor Fernando de Azevedo (1894-1974). É aprovado em concurso de literatura brasileira com o título de livre-docente em 1945, e obtém a titulação de doutor em ciências sociais, em 1954, com a tese Os Parceiros do Rio Bonito, publicada em 1964. De 1958 a 1960, leciona literatura brasileira na Faculdade de Filosofia de Assis, São Paulo.

Lançada em 1959, sua obra mais influente e polêmica é a Formação da Literatura Brasileira, na qual estuda os momentos decisivos da formação do sistema literário brasileiro. Candido escreve no capítulo “Traços gerais“: ‘O momento decisivo em que as manifestações literárias vão adquirir, no Brasil, características orgânicas de um sistema é marcado por três correntes principais de gosto e pensamento: o neoclassicismo, a ilustração, o arcadismo’1. De volta à USP, em 1961, assume como professor colaborador a disciplina de teoria literária e literatura comparada. Entre 1964 e 1966, dá aulas de literatura brasileira na Universidade de Paris e, em 1968, atua como professor visitante de literatura brasileira e comparada na Universidade de Yale, Estados Unidos. Aposenta-se pela USP, em 1978, mas permanece ligado à pós-graduação e à orientação de trabalhos acadêmicos. Com outros intelectuais, como Sérgio Buarque de Holanda (1902 – 1982), participa da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980. Recebe, em 1998, o Prêmio Camões, dos governos do Brasil e de Portugal, em Lisboa; e em 2005, o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, no México.

A mudança de sentido faz da imagem e da metáfora um recurso admirável de reordenação do mundo segundo a lógica poética; mas a metáfora vai mais fundo, graças à transposição, abrindo caminho para uma expressividade mais agressiva, que penetra com força na sensibilidade, impondo-se pela analogia criada arbitrariamente. O arbítrio do poeta depende de condições do meio (como a moda literária), da tradição histórica (que lhe oferece exemplos) e, sobretudo, da originalidade pessoal (que lhe permite juntar novos significados aos significados existentes).

O estudo analítico do poema, p. 138

 

Palestras e entrevistas

Depoimento de Antonio Candido no Simpósio Graciliano Ramos – 75 anos do livro Angústia

Grande Sertão Veredas: Antônio Cândido sobre Guimarães Rosa

Conversas com Antônio Cândido 

Para quem gosta de coerência histórica nas manifestações da cultura, deve parecer estranho o fato destas gerações esteticamente apagadas, rotineiras ou vacilantes, serem as mesmas que, no terreno político e científico, mostraram decisão e senso atual da vida. Por vezes, os mesmos poetas retrógrados, são naturalistas, publicistas, homens de estado empenhados na aventura de construir pátria e rasgar-lhe horizontes mentais – como se o ranço arcádico, o conformismo religioso, a estagnação formal servissem de contrapeso aos arrojos de um espírito algo assustado com o barulho novo das próprias asas.

Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos, p. 205

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