Entrevista com o escritor e diretor do Instituto UKA, Daniel Munduruku: “O que precisa ficar muito claro é que os indígenas estão neste pais para ficar”

 

(Quase) Toda Sexta-Feira – Por Edmar Neves

O Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais está promovendo uma campanha de financiamento coletivo para manter suas atividades. A instituição foi criada por profissionais indígenas e não-indígenas, é uma entidade sem fins lucrativos e tem como finalidade desenvolver e promover projetos culturais e educacionais, fortalecendo, dessa maneira, os saberes tradicionais dos povos indígenas do Brasil e estabelecendo o diálogo entre a sociedade não-indígena e as sociedades indígenas brasileiras. A campanha conta com o apoio de grandes nomes da literatura nacional, como Conceição Evaristo, autora do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres (Nandyala, 2011) e Paulo Lins, autor de Cidade de Deus (Planeta do Brasil, 1997).

“A partir de nosso empenho em difundir a lei 11.645/08 e qualificar os educadores para trabalharem a temática indígena em sala de aula, entendemos que uma instituição que apoiasse esse mesmo desejo faria com que nossas intenções saíssem do papel e ganhassem asas para se desprender e poder circular pelo país. Foi assim que o Uka, como carinhosamente o chamamos, ganhou forma para desenvolver suas atividades”, conta o escritor, professor, agitador cultural e um dos fundadores do Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais Daniel Munduruku.

Nascido em Belém do Pará e pertencente ao povo indígena Munduruku, Daniel é graduado em filosofia, história e psicologia, mestre em Antropologia Social, pela Universidade de São Paulo, e doutor em educação pela, também pela USP. Realizou pós-doutorado em Literatura na Universidade Federal de São Carlos. Entre suas obras estão Sabedoria das águas (Editora Global, 2004), Contos indígenas brasileiros (Editora Global, 2005) e Você lembra, pai? (Editora Global, 2013). Em entrevista, conversamos com Daniel Munduruku sobre o Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais, literatura e mais. Confira abaixo:

Você pode fazer uma doação para o Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais por meio do site Apoia.se.

Fale um pouco sobre o Instituto UKA – Casa dos Saberes Ancestrais. Como surgiu? Quais atividades vocês realizam? Há dificuldades em se produzir literatura indígena no Brasil?

Uau.  São muitas perguntas para serem respondidas de modo fácil, mas vamos lá. O Instituto Uka nasceu de um sonho antigo que era reunir numa instituição profissionais indígenas empenhados em pensar o Brasil e oferecer este pensamento em forma de conteúdo para a sociedade Brasileira. A partir de nosso empenho em difundir a lei 11.645/08 e qualificar os educadores para trabalharem a temática indígena em sala de aula, entendemos que uma instituição que apoiasse esse mesmo desejo faria com que nossas intenções saíssem do papel e ganhasse asas para se desprender e poder circular pelo país. Foi assim que o Uka, como carinhosamente o chamamos, foi ganhando forma e desenvolvendo suas atividades que passa pelo incentivo à leitura de livros de literatura, valorização da palavra falada através de eventos de contação de histórias, organização de encontros anuais de escritores e artistas indígenas, visitação às escolas para conversa direta com crianças e jovens, participações em eventos literários, entre outras tantas atividades.

A lei 11.645/08 abriu um leque de possibilidades muito grande incentivando o mercado literário a produzir livros cujo conteúdo tivesse relação direta com a temática indígena. Nesse contexto de demanda, foram surgindo cada vez mais escritores indígenas e a produção literária foi crescendo cada vez mais. Deve-se dizer que parte disso foi proporcionada pelas compras governamentais que passaram acontecer regularmente e isso acirrou ainda mais a produção de livros de autores indígenas. Sob este contexto não foi muito difícil publicar livros. No entanto, é preciso lembrar que escrever textos de qualidade literária não é nada fácil especialmente para os indígenas que sempre tiveram maior proximidade com a oralidade. Tudo foi feito a passos lentos até se constituir numa realidade presente hoje no país.

 

A literatura indígena se resume a literatura infantil? Qual a importância da literatura para os povos indígenas?

Por ter nascido no contexto do Salão FNLIJ do Livro para Crianças e jovens, evento que acontece anualmente no Rio de Janeiro, o Encontro de Escritores e Artistas indígenas foi sendo seduzido pela linguagem para crianças e jovens. Penso ainda que a intenção inicial foi comunicar-nos com os estudantes para combatermos os estereótipos. Foi, portanto, um caminho que apontou naturalmente para este segmento. No entanto, com o passar dos anos outros estilos literários foram sendo produzidos por autores indígenas. Há escritos para crianças, jovens, educadores, pesquisadores que seguem diferentes nichos literários e isso é muito positivo. Certamente muitos outros autores ainda irão surgir para preencher algumas lacunas que estão abertas. É preciso dar tempo ao tempo.

A literatura não tem uma importância fundamental para os povos indígenas. Aprendemos a ouvir histórias, mas do que escrevê-las ou lê-las. A vida dos povos indígenas é movida pela urgência do cotidiano e a leitura é um luxo desnecessário para povos que precisam se esforçar cotidianamente para sobreviver. Hoje em dia, no entanto, isso tem se modificado gradualmente porque muitos jovens já perceberam que se não adentrarem aos pórticos das universidades correm o serio risco de ficarem para trás e terem menos condições de reivindicarem o cumprimento de seus direitos pelo Estado brasileiro. Estudar, ler, se qualificar para o enfrentamento é fundamental para a sobrevivência dos povos indígenas. Ou seja, a demanda mudou de fluxo e isso obriga os povos a assumirem novos papeis dentro de uma sociedade em constante mudança. A literatura faz, portanto, parte do cotidiano dessas comunidades e é um instrumento importante na formação de uma consciência critica capaz de criar alternativas de sobrevivência.

Como agitador cultural você está em contato com muitos escritores indígenas. Indique alguns autores e obras que você tem lido.

Tenho lido algumas obras de autores indígenas e não indígenas também embora meu foco seja sempre priorizar leitura técnica que me ajude a compreender cada vez mais a dinâmica cultural que está sempre em movimento.

Atualmente estou lendo o novo livro de Kaká Wera, a menina e o vento; de Cristino Wapichana estou encantado com o premiado A Boca da Noite; Roni Wasiry escreveu o lindo A árvore da Vida. Um pouco mais profundo e gigante é o livro de Davi Kopenawa, A queda do céu. No momento são estes.

Ao contrario do que dizem os livros de história, os povos indígenas do Brasil ainda existem e resistem. No mês de abril ocorreu o Acampamento Terra Livre, que reuniu mais de quatro mil indígenas de mais de 200 etnias. Conte-nos sobre essas mobilizações e sobre as reivindicações dos povos indígenas atualmente.

As pessoas esquecem que nossos povos são seus contemporâneos. Muita gente ainda pensa num “índio” do passado, preso ao século XVI e praticante de rituais macabros. Essa imagem que foi sendo reproduzida e chegou até nossos dias acaba nos afastando dos brasileiros. A escola foi a grande responsável por construir uma visão romântica em que o indígena é o personagem angelical, sem maldade, sem malícia. Por outro lado, a mídia comandada por apenas algumas famílias, manipula o pensamento nacional difundindo ideias que acabam prejudicando uma convivência pacífica, ordeira e profundamente rica entre os indígenas e os brasileiros.

O que precisa ficar muito claro é que os indígenas estão neste pais para ficar. Nós somos contemporâneos, somos do século XXI. É preciso, portanto, acabar com essa ideia de que existe um “índio verdadeiro” em detrimento da realidade. Esse tal “verdadeiro” da imaginação das pessoas é uma enganação engendrada na mente do brasileiro. Só existe um indígena no Brasil e este é o que se organiza, luta por seus direitos, reivindica melhores condições de vida, protesta parando rodovias que cortam seus territórios, ocupa fazendas cujos donos invadiram suas terras, vai para a universidade ocupar seu lugar, defende a natureza e seus santuários sagrados. É este indígena que resiste há 500 anos contra os valores da morte e da exclusão. O movimento indígena é o movimento social mais antigo e organizado do país. São 517 anos de resistência. É uma resistência pela Vida e pela Vida de todos os brasileiros porque são estas lutas que garantem a Amazônia em pé; rios menos poluídos; abundancia de peixes e carnes; sobrevivência de muitas espécies de plantas, insetos e animais ou, como se costuma dizer, sobrevivência de nossa biodiversidade. Será que isso é pouco? Será que isso não seria motivo suficiente para que o Brasil se orgulhasse de seus filhos mais antigos? Tenho a impressão que sim. Lutamos para que isso ocorra.

 

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