Santiago Santos: Do Adestramento Útil Dos Vizinhos

 

Tinhosa, abrindo caminho pelo túnel carnoso, sebento, oito patas roçando os pelinhos da cavidade, pregando no lóbulo, descendo o pescoço e a camiseta até a manga, o braço frio, o dedo esticado na mesa. Ela para na superfície ranhurada, olha pros lados. Se prega na face inferior do prato, escala até a borda, anda por cima. As patas querem grudar no melado. Se aproxima do bolo, estica a boca num farelinho, desgosta.

No canto do teto, na curva do gesso, começa a tecer a teia. São dias de trabalho. Lá embaixo, formigas e baratas circulam livres. Um mosquito esbarra na teia, buscando orientação depois de enfrentar a turbulência das hélices do ventilador. Não consegue se soltar. As asinhas tremulam, ansiosas. Papinha pra mais de semana.

São alguns dias até os vermes cozinharem o corpo, a lambança começar, o refestelo dos insetos aguardando igual plateia do lado de fora. Mas a festa não chega a acontecer. Arrebentam a porta, sacudindo e arriscando toda a sua estrutura de caça com as lufadas que cavalgam o corredor no abrir das janelas. São dois policiais fardados mais a síndica, que observa tudo empoleirada no tapete de boas-vindas. Eles verificam os cômodos e reportam o morto, sentado pra comer uma fatia de bolo. Em algumas horas outra equipe vem, coloca o corpo em um saco e o leva embora.

Dias mais tarde aparece o filho, coletando os pertences, separando as doações, enchendo o carro com os utensílios ainda em bom estado. Quando chega o pessoal da mudança e carrega todos os móveis, ela sabe que não irá demorar muito pra aparecer a perigosíssima equipe de reforma, por isso sai pelo buraco mal fechado do ar condicionado. Se planta na caixa de cimento e tece outra teia, que se rasga no vento e exige reformas constantes. Isso e a fome são o preço a pagar até o retorno seguro.

Quando o cheiro da tinta já enfraqueceu, quando os sons da mudança foram trocados pelos risos e conversas, ela volta pelo buraco e reconstrói sua teia no mesmo canto do teto. A família é ativa e barulhenta. Em uma noite especialmente quente, ela vai pela parede até o quarto das crianças. Sobe no colchão da filha mais velha, escala o pescoço se segurando no balanço da respiração e penetra pela orelha virada pra cima.

Leva algum tempo pra se habituar à cabeça e achar o lugar perfeito na escuridão pra depositar a pequena larva recolhida da cabeça do último inquilino, presente de Anansi.

Na manhã seguinte, a garota esmaga um mosquito, sobe na cadeira e então na mesa e a deposita no centro da teia. A aranha, estacionada na parede, apenas observa, descansada e agradecida.

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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