Aline Bei: eu sentada, ele de pé

‘Café Scene’, (1946), de Raphael Soyer

estava num restaurante. pedi meu suco de sempre

e o garçom, nos conhecíamos de todas as vezes que eu ia pra esse lugar e não eram poucas,

já falávamos das nossas famílias abertamente, ele que deixou

a esposa e os cinco filhos

no interior de minas, esperando.

lá não tem emprego, ele costumava me dizer. quando tinha

se trabalhava a noite toda e

na hora do pagamento

o patrão dizia não tenho troco.

como assim não tem troco?

não tenho. passa aqui amanhã.

ele passava,

a rua deserta

as portas trancadas, dentro do bar as cadeiras em cima das mesas, ele

me contou também da saudade

que sentia da esposa

de dormir com ela

acordar e

vê-la.

vou trazer ela pra cá

logo de uma

vez, ele dizia,

então quando chegou o meu suco

ele me perguntou com cara de

faz tempo que eu quero

te perguntar isto,

– você não bebe?  

– não. – eu disse.

– nada?

– um vinho, de vez em quando, mas sempre sobra na taça. o pessoal fica bravo comigo, fala que é desperdício. eu digo: pode beber o que sobrou, gente. eles viram num segundo o que eu fico a noite toda pra beber.

como pode alguém aguentar a vida sem 1 gota de álcool no sangue?

– ah mas

têm outras coisas que me fazem aguentar, não é que eu não tenho nenhum álibi.

– o que, por exemplo? não consigo imaginar.

– você gosta de ler?

– não tenho o hábito.

– mas você já tentou, alguma vez?

– quando eu era menino. na escola

tinha uns livros.

– poesia você não lê?

– poesia é complicado, né?

– você gosta de música?

– de música eu gosto sim.

– poesia tem um pouco de música. na verdade tudo tem um pouco de tudo. poesia tem um pouco de vinho também.

– é?

– claro. os dois são tipos de fuga. uma busca por outro estado de espírito, outro alguém dentro da gente que nos agrade mais,

que nos faça aguentar a vida

como você bem disse.

– é, que a vida não é mole não. sabe que eu lembrei de uma coisa? lá em minas,

na casa que eu morava com o meu avô, ele gostava muito

de contar histórias.

acendia um trago

chamava eu, meus primos, a criançada toda que ficava por ali na rua

e contava uma história pra gente.

ele sentava numa cadeira de balanço

e ia contando

não sei ele inventava, mas ele dizia que tudo tinha acontecido mesmo com ele.

– não brinca?

– ele contava muito bem. dava umas pausas pra fumar o trago, olhar pro céu. e a gente ficava ansioso pra ele continuar contando

mas essas pausas aí que ele dava eram boas, sabe. fazia a gente ficar preso na história

e até reparando melhor

no céu  bonito que tinha por lá, descampado, a gente ficava mais atento a tudo

depois que ele contava essas historias.

– então você gosta de poesia.

– será? não sei não,

poesia é muito complicado.

– é nada. deixa eu te ler uma,

peraí.

abri a bolsa pra pegar o

livro,

– um dia meu vô me contou como ele conheceu minha vó, nunca mais esqueci.

– é mesmo? – eu disse com o livro já na mão.

– foi. conheceu num baile da cidade, ela estava com um vestido vermelho

igualzinha a uma rosa, meu vô disse.

era a mulher mais bonita que ele já tinha visto

e você sabe como que é, né? mulher bonitona assim

assusta a gente.

– sei.

– minha vó é bonita até hoje. 83 anos e a danada é bonita até hoje. e aí no baile meu vô ficou pensando como que ele faria pra tirar aquela moça pra dançar,

a noite passando.

e sabe o que meu vô falou?

– o que?

– que no fim das contas foi a minha vó que tirou ele pra dançar. ele fica até emocionado quando conta disso. e ele diz que se não fosse ela

ia ser difícil ele ter coragem de pedir a dança.

se ela não tivesse feito

era bem capaz da gente nem estar aqui.

é bonito isso, né? de pensar

que a gente tudo existe porque alguém um dia teve coragem

de fazer alguma coisa,

de dizer sim.

– leva esse livro,  (não é fácil pra mim

dar um livro meu, eles são forrados

de anotações que

faço

tão íntimas.

se alguém ler,

ardo só de

pensar) lê com calma, quando você estiver de folga. se você gostar muito  

não precisa me devolver.

ele pegou o livro, tímido.

– não fica com vergonha, é um presente. tenho certeza que você vai gostar.

– não é do presente que eu tô com vergonha.

é que na verdade eu

menti pra você  

na verdade eu

não sei

ler direito, sei um pouco

pra escrever os pedidos daqui, mas

um livro

daí eu já não sei direito não.

– então deixa que eu leio pra você.

peguei o livro de volta.

abri numa página aleatória como eu sempre faço em momentos assim.

calhou de ser um poema

sobre um velho

charuto numa fazenda

e os olhos do meu amigo

ficaram molhados, parece que cê tá falando do meu avô.

 

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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