Resenha do romance ‘Oito do Sete’, de Cristina Judar

Capa: Foto de Maira Reis (2015)

“Se somos feitos dos quatro elementos encontrados em tudo o que há no universo, não tínhamos por que fixá-los a apenas uma direção: oeste-água, norte-terra, sul-fogo, leste-ar; nem tem como seguir essa convenção neopagã, somos mel e areia, cintilantes com o passar das horas, nossos hálitos sopram o tempo e nossos ombros são largos. A (de) limitação é coisa para os fracos” p. 35

Este fragmento de Oito do Sete (Reformatório), romance de estreia da escritora e jornalista Cristina Judar, apresenta uma parte da ideia que será narrada no decorrer da obra. Os questionamentos em torno da conduta e comportamento da sociedade ocidental. O curioso desta análise é o enfrentamento da dicotomia que permeia o pensamento deste lado do mapa mundi. O sim e não. O contra e a favor. O bem e o mal. Estas duas partes sempre contrárias incomodam o engrandecimento de pensamentos e maneiras, já confirmadas em nossa geração, de constituírem comportamentos multifacetados. Afinal, são nos fragmentos espalhados onde procuramos encaixar uma convivência mais aberta, de modo a elucidar a relação humana.

O interessante do livro é um enredo sem limitações. Observa-se que Cristina não conteve argumentos intimidadores no momento da tela em branco. Contar uma história, sem se preocupar com verossimilhança ou palpável, mas que faça provocar e manifestar a atuação cotidiana do corpo social desta metade da segunda década do século XXI, sem evitar transparecer o íntimo, rasgando preconceitos e resguardos.

“[…] As notas do punk rock, por mim conhecidas anos depois ditaram o que eu seria logo nos meus primeiros instantes, eu como o único ser – vista pelos olhos do meu pai entre outras microexistências embutidas em casulos de mantas herméticas – com um braço pra fora e o rosto arranhado até então considerada inofensiva num mundo de mimos direcionados às criaturas recém-nascidas” p. 11.

A trama segue a narrativa de três personagens: Magda, Gloria e Serafim. O trio conversa com o leitor sobre a relação que tiveram e afastamento devido oportunidades e problemática mística que um dos personagens conserva. O que atrai na obra, além da história, é o desenvolvimento dos diálogos, bem como da  narrativa concisa que encaixa perfeitamente com os capítulos curtos, não tendo excessos de adjetivos e delongas no desenrolar das sequências ambientadas no percurso das personagens. Vale destacar que Cristina é autora das HQs Lina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir), o que, de fato, é encontrado em Oito do Sete os estilos das frases curtas e falas das personagens, traços estes evidentes nos compassos narrativos das histórias em quadrinhos.  Esta característica, também observada nos livros de Lourenço Mutarelli – por exemplo nas duas obras: O cheiro do ralo e O natimorto – é muito bem elaborada pela autora, contribuindo para o ritmo da história, oferecendo a envolvente urdidura para o leitor acompanhar os passos rotineiros dos protagonistas.

“O vento batia, os homens riam/ O vidro de conservas arremessado em Bastião/ Tá louca?/ O vaso de flores atirado na freira/ Ovos de codorna pelo chão, olhinhos voltaos para todas as direções/ Agarrei o cruxifixo de JC/  Vou chamar a polícia, mulher macho filha da puta!/ Bastião coberto por um manto de vinagre e cacos/ Chamem o segurança!/ Minhas unhas roxas riscaram o ar/ Chama quem quiser, seu cuzão do caralho/ O hit Santa Igreja, das Mercenárias, soava na minha mente/ Rasguei a pele da freira/ Parti como quem matou alguém / Bateu a porta/ Gritos às minhas costas” p. 25.

Nota-se, no trecho anterior, o corte – utilizado pela barra – do olhar da personagem no episódio do local onde se passa a situação da briga de Magda. Os planos rápidos, assemelha-se às edições de filmes, principalmente os contemporâneos com execuções ligeiras, tornando a narrativa um admirável formato cinematográfico, mérito de uma autora com descomunal arcabouço para a sétima arte. Porém, trazendo para a literatura, aponta-se o argumento de Julio Cortázar quando ministrou, em 1980, aulas de literatura em Berkeley. Durante os encontros com seus alunos, o autor abordou temas diversos, como os aspectos do conto fantásticos, os domínios do realismo, o humor, o erotismo e o lúdico na literatura. Este histórico evento foi publicado no livro Aulas de Literatura – Berkely 1980. Na construção da estrutura de contos e romances, Cortázar também comenta sobre sua carreira literária, abordando os primeiros textos e oferece-nos uma grata dica da experiência desenvolvida com a escrita. Evidencia-se:

“Eu escrevia como se costuma fazer no início de uma carreira literária: sem suficiente autocrítica, dizendo em quatro frases o que se pode dizer em uma e esquecendo-me da que deveria dizer, multiplicando uma adjetivação que infelizmente vinha da Espanha em quantidades navegáveis. O estilo de fim de século se fazia sentir ainda numa escrita frouxa, cheia de flores retóricas e com uma diluição contra a qual se começava a reagir pouco a pouco na América Latina”.

Esta maravilhosa revelação de Cortázar está no romance de Cristina. Dizer em uma oração, e não em um parágrafo, o necessário. Esta forma de narrar constata e aborda a literatura atual. Evidencia o conflito com o estilo clássico e enraizado na conduta acadêmica. Respeita o leitor dos floreios – ou “flores retóricas” – da trama. Sem presunção ou posicionamento que caia no lugar-comum.

Cristina não é avenida iluminada. Cristina é beco escuro e descascado Ou como a personagem Gloria afirma: caverna. Te convida para acompanhar as relações e convivências naturais da geração que faz da própria escolha a maneira de conhecer e não criticar as atitudes humanas. São dores, mas encaradas de cabeça erguida. Ou como se fala atualmente, personagens sem mimimi. Magda e Gloria com atitudes convictas de assustar uma parte da sociedade intolerante, mas trazem à luz do enredo um vínculo humano capaz de ultrapassar rejeições e hostilidades. Depois do passeio pela caverna, a vida amplia a mente na familiarização de um momento onde não há categorização e nomeações. A sociabilidade sem escárnio. Porém, ainda tem muito a enfrentar. Esta análise é muito bem desenvolvida com a utilização de Roma, capital da Itália, no livro. Roma, assim como no Brasil, e qualquer parte do mundo, ainda existe o comportamento vetusto de uma parcela da sociedade. O sectarismo que empaca de certa forma a felicidade e a coexistência da sexualidade:

“Em Roma, alguns homens estão dispostos a concorrer com sítios arqueológicos, em um embate desleal e já vencido, por isso tão gritadores, efusivos, seus estômagos carregados de paixões. […] Estrangeira nesse cenário, nunca me quis construção, nem tampouco combatente, mas caverna, se pudesse escolher. Expeliria escuros e morcegos, seria a mantenedora daquilo que ninguém quer. Eu só não saberia dizer onde é o meu fundo, meu término, é triste não saber onde se acaba, se em mim há abismo ou se sou rasa. Se finalizo logo li ou lá no além”  p. 78-79.

Seguindo este tema, Cristina constrói em seu romance um aspecto místico. A autora cria um personagem de outro plano. Personifica um anjo, caso de Serafim. É brilhante esta capacidade de inserir em sua narrativa esta presença angelical. Os anjos não têm sexos. Não são nomeados. Não é figura humana aos olhos da sociedade. Está aí a quebra da dicotomia. Sim ou não? Não existe e existe? Não importa. Cristina quer fraturar o corpo social para expor as os ossos e veias das condutas desusadas do agrupamento preconceituoso da modernidade. Esta aplicação na construção do texto da Cristina faz recordar da sequência da chuva de sapos de Magnólia, de Paul Thomas Anderson. A imposição de um fato absurdo – o que há de mais incrível na literatura – para escancarar e, após o ocorrido, mudar o papel do esqueleto social. Ou seja, sim, existem anjos no universo de Cristina. eles se relacionam e criticam as atitudes. Estão inseridos para fornecerem mudança. Não há necessidade de explicação de seu surgimento e, tomando esta prática, Oito do Sete transforma-se em um excelente livro.

Desta forma, não de maneira comparativa, mas uma confabulação, coloca-se outra obra da literatura contemporânea em ênfase neste texto: As intermitências da morte, de 2005, escrita por José Saramago. No livro do autor português, a morte entra em greve e deixa de matar em uma pequena nação fictícia. Este acontecimento faz com que hospitais, previdência social, governo e população entrem em caos. E qual foi o motivo da morte – sim, com “m” minúsculo, pois existem outras mortes e não apenas uma – em aderir à paralisação? Queria mostrar ser importante na humanidade, que comecem a dar valor à ela, bem como existe para impactar na mudança de atitude humana. Esta mesma morte, no decorrer do enredo, apaixona-se por uma de suas vítimas e decide ser personificar para conseguir consumar uma relação amorosa e humana. Diante desta pequena explicação, o diálogo com as duas obras é que Saramago e Cristina desconstroem lendas e entidades de modo a concretizá-las, a seus modos, nestas personagens. Se na obra de Saramago a morte é apresentada:

“Não teve de esperar muito. Meia hora teria passado num relógio quando a porta se abriu e uma mulher apareceu no limiar. A gadanha tinha ouvido dizer que isto podia acontecer, transformar-se a morte em um ser humano, de preferência mulher por essa cousa dos géneros, mas pensava que se tratava de uma historieta, de um mito, de uma lenda como tantas e tantas outras, por exemplo, a fénix renascida das suas próprias cinzas” p. 180-81

Na narrativa de Cristina, Sarafim é:

Não sei por que, cismaram que eu sou loiro. Eu assumo a aparência que eu quiser. Venho tantas vezes à vida e em formas desiguais que para isso não dou, de verdade, a mínima. É o tal desapego do qual falei. Fácil para mim, difícil para vocês […] não sinto nada, não tenho vísceras” p. 115.

Personagens complexos, com personalidades de modo a trazer o absurdo na narrativa e constituir, por meio do insólito, reflexões de diversas formas no comportamento e conduta e assim combater mentalidades ultrapassadas com atuações vagas e inatas. Cristina não está para os fracos. E estreia no romance com esta obra extraordinária, de empatia aos personagens, ritmo na leitura e diálogos memoráveis.

Em um ano, até o momento, de ótimas publicações – dentre elas, duas que valem também a leitura Morri por Educação (Oito e Meio), de Nathalie Lourenço; e Guardem as cinzas (Confraria do vento), de Andrea Ferraz -, Oito do Sete aborda uma história de paixões pelo convívio homoafetivo e mítico. A leitura do romance é essencial para a nossa geração. Entrar dentro da caverna do absurdo, enfrentar as fobias constantes no mundo e sair de lá com a delícia de conviver em um momento da diversidade. E nunca esquecer de enfrentar as condutas preconceituosas, patriarcais, machistas, construídas hereditariamente por gerações arcaicas.

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CRISTINA JUDAR – É escritora e jornalista, autora das HQs Lina (Editora Estação Liberdade) e Vermelho, Vivo (Devir). Seu livro de contos Roteiros para uma vida curta (Reformatório, 2015) recebeu Menção Honrosa no Prêmio Sesc de Literatura 2014. Em 2015, durante uma residência artística com foco na literatura na Queen Mary University of London, deu origem ao projeto de prosa poética Questions for a Live Writing e passou a integrar o Archive of the Now, uma coleção digital de poetas contemporâneos. Comtemplada pelo PROAC de Literatura 2014, Oito do Sete é o seu primeiro romance.

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