‘Gramática da Ira’, três poemas de Nelson Maca

Nelson Maca

Em 2015, o poeta e professor Nelson Maca lançou o livro Gramática da Ira (Blakitude), que traz 56 poemas divididos em 9 partes e conta com prefácio de Carlos Moore e apresentação de Maria das Graças Gonçalves. O Livre Opinião – Ideias em Debate publica três poemas desta obra importante para a literatura contemporânea.

Maca responde à pressão social com uma poesia cuidadosamente articulada, vigorosa, dilaceradora. Seu compromisso é com as causas sociais. Seus versos repousam num andaime sociólogo contemporâneo; aquele do nosso dia a dia, num entorno hostil às demandas de reparação histórica e/ou de equidade social 

Trecho do prefácio de ‘Gramática da Ira’, por Carlos Moore

Nelson Maca (Foto de Leo Ornelas)

NELSON MACA – Poeta e professor de literatura da Universidade Católica, Nelson nasceu no Paraná, mas desde de 1989 mora em Salvador (BA). É fundador do Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, que realiza há 7 anos o Sarau Bem Black e ações artística e de formação sócio-racial através das linguagens da cultura hip hop e afins.

Maca promove e participa há mais de 30 anos de eventos da negritude pelo Brasil, como seminários, workshops, cursos e shows pelo Brasil, tendo parcerias com a Fundação Palmares, Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), Só Balanço Produções (BSB), Griô Produções (BSB), Balada Literária (SP), Cooperifa (SP), APAFunk (RJ), Coletivo Casa Preta (PA), Poesia Maloqueirista (SP) e Sarau Sopapo Poético (RS), entre outros. Fazendo a ponte entre a poesia e a música, tem parcerias com cantora e compositora Alexandra Pessoa (BA), grupo In.vés (BA), os rappers G.O.G (BSB) e Ba Kimbuta (SP), com o funkeiro Mano Teko (RJ) e com o percussionista e compositor Jorjão Bafafé. Já fez performances com GOG, Alexandra Pessoa, Sistema Kalakuta, Ba Kimbuta (SP), Jazz100stress & Marcelo (SP), Jorge Cerruto (Cuba-SP), Ellen Oléria (BSB), Dj Sankofa,MC Teko (RJ), Mc Pingo do Rap (RJ), Vera Lopes (POA), Wiza (Angola), Vox Sambou (Haiti), Diegal (Haiti), Mariella Santiago, Skanibais, I.F.A Afrobeat, Veja Luz (SP), André Sampaio & Os Afromandingas e Jazz100Strezz (SP).

Desde 2014, apresenta a performance poético-musical CandomBlackesia , com o Afro-Power-Trio, com a qual participou do XX PERCPAN – Panorama Percussivo Mundial, dos eventos Dominicaos, II Encontro de Ilustração e Literatura da Bahia, show Pelourinho na Rota da Rima (juntamente como rapper Vox sambou do Haiti), de temporada no teatro Gamboa Nova na Bahia, além do projeto Jazz na Kombi, Balada Literária e do Circuito SP de Cultura em São Paulo. Juntamente com o escritor paulista Berimba de Jesus, já realizou três edições do Encontro de Literatura Divergente, em São Paulo. Participou das coletâneas Suburbano Convicto I (SP), Poesia Favela (RJ), Pode Pá Que É Nóis Que Tá (SP), Sarau do Binho (SP) e Slam Só-Fá-Lá (SP). Organizou os livros Tarja Preta (Edições Maloqueirista), de Zinho Trindade, e A Rima Denuncia (Global), do rapper brasiliense GOG. Lançou, em maio de 2015, seu primeiro livro de poemas, Gramática da Ira (Blackitude). Tem previsto, para o segundo semestre de 2017, a publicação do livro de contos Relatos da Guerra Preta, o lançamento do disco Guerra Preta estratégia Quilombola e a montagem do seu drama Hans Restaurante: o Pato do Dia; todos pelo selo independente Blackitude.

“O menino negro de olhos grandes, sonhador e diplomático, que escrevia poemas de amor, transformou-se em ‘Fera Divergente’, ‘Poeta Exu Encruzilhador de Caminhos, e destila agora seus argumentos duros, verdadeiros, afiados como lâmina, para dilacerar a hipocrisia e o racismo de nossa sociedade. É um poeta-guerreiro, é diferente. Nelson Maca é hoje uma referência da poesia negra contemporânea e se dedica à constituição de uma literatura ‘sem rococós’ das periferias, uma Literatura Divergente”.

Trecho da apresentação de ‘Gramática da Ira’, por Maria das Graças Gonçalves

Leia três poemas de Gramática da Ira

DIÁSPORA

A tatuagem nefanda diz minha carne importada
Diz a frieza da corrente
Diz as voltas do chicote
Diz a madeira da canga
Diz a dureza do tronco

Minha carne entalhada é minha crônica de viagem
Minha pele estampada é meu diário da descoberta
Meu couro impresso é meu livro de registros
Minha caligrafia torta é meu desvio de conduta

Aprendi a soletrar de corpo inteiro
Nos intervalos da existência
Nos pigmentos da aparência
Aprendi a decifrar meus códigos

Não mais aquelas vozes d’áfrica nos quentes desertos
Estranhas, vagas e sem respostas

GRAMÁTICA DA IRA

Havia lama na rua
e de quando em quando um corpo cadáver encalhado na vala

o espetáculo que a história nos oferece

restos e gestos do sim
alimentos recicláveis
bonecas sem pernas carros sem rodas
aqueólogo das sobras
a miséria
o não

pretinho maltrapilho
com as manchas sujas da vida
sem saber nem bem por que
nas suturas das fraturas
cresci

eu na pilha
você na mira
não vê o que foi feito de mim
pena sangrenta Gramática da Ira
meu rabisco mortal vai foder sua lira

HOMEM INVISÍVEL

Segui sem desviar
O caminho proposto por vocês
Fui exatamente
O que vocês esperavam que eu fosse
Cumpri objetivamente
As metas do triufo futuro

No entanto
Em vez da almejada recompensa
Aqui me encontro
Neste andar cambaleante
Que me trança as pernas
Sustentando desesperadamente
Os olhos abertos
Para que não se instale a cegueira definitiva
Para que não deixe de ver
Atravessando meu caminho

Antes da loucura total
Só me sustenta a presença de meu tataravô
Olhando para mim
Olhos de meu passado remoto
Apontando para as mesmas coisas sujas
Agora postas em pratos limpos

Além de minha angústia e raiva
Ainda não conheço outra espécie de vida
Outros caminhos


Na escuridão do que ficou esquecido
Na véspera de toda ingagação
Espero que seus dedos apontem uma via
Enquanto repousa imaculado meu desespero de rumo

[…] A acusação de “violento” ou “raivoso” terá um significado para mim positivo. Minha Ira adquire, aqui, a roupagem da cor da pele preta. Ele não divide, ela não desacredita, pelo contrário, ela representa nosso centro da atração e irradiação. Hoje, a liberdade de ser um negro “irado” é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário engajado na luta contra a vergonhosa ditadura racial da tradição brasileira

Nelson Maca em Manual do Usuário da Gramática da Ira

Livre Opinião – Ideias em Debate
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