Santiago Santos: De quem assiste de longe

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Desce o prato, o guincho aumenta.

— O que eles tão fazendo reunidos ali, Adalberto?

— Esperando a comida.

— Desde quando você não alimenta eles?

— Acho que uns quatro dias. Mas tão com uma energia danada ainda, tá vendo?

#

Desce o prato, o guincho aumenta.

— Ainda alvoroçados desse jeito?

— Resolvi não dar comida pra eles ontem.

— Olha, isso tá ficando perigoso. É melhor se ater à rotina, Adalberto. A fome é imprevisível.

— Haha, olha aqueles ali, tão arrancando o cabelo um do outro pra ficar mais perto do prato.

— Qual a graça nisso?

— Você não passou tempo que chega aqui com eles. Demora pro senso de humor aflorar. Mas é inevitável.

— Esqueceu que eu trabalhei aqui dez anos, antes do seu tempo?

— Sério?

— Claro. Como você acha que virei seu supervisor? Eu lá ia ter cacife pra supervisionar a operação se não conhecesse ela nos mínimos detalhes?

— Não seria novidade em repartição pública nenhuma.

— Fodam-se as repartições públicas. Dá a comida pra eles. Não quero problema por aqui.

#

Desce o prato, o guincho aumenta.

— Caralho, Adalberto. Você não alimentou eles ainda?

— Calma, chefia. Tem água lá embaixo. Eles podem aguentar semanas sem comida.

— Podem aguentar sim. Se for necessário. Você andou comendo esses sanduíches aqui na cabine?

— Sim, por quê?

— Porque eles podem te ver. Você deixa eles sem comida e come na frente deles. Excelente ideia.

— Desculpa. É que não aguento mais esse fedor, essa barulheira. Queria fazer eles sofrerem um pouquinho.

— Já passei por coisa parecida, mas consegui me controlar. Lembra que não é sua competência decidir isso. As ordens vêm e você cumpre, apenas. Sei que como fica sozinho com eles quase todas as horas do dia, começa a achar que pode fazer o que bem entende. Mas não é assim.

— Certo. Vou descer o prato. Quer assistir?

— Desde meu último dia usando o seu crachá eu não assisto mais isso. Não tenho estômago. Só faça duma vez.

— Entendido.

#

O prato vazio.

— Me ouviu, finalmente.

— Foi o jeito. Mas não foi bonito.

— Ah, com certeza não. Saldo de mortos?

— Uns 20. Pisoteados. Depois daquele tempo, um prato não foi suficiente pra saciar a fome de todos.

— Claro que não foi. E não vai colocar mais comida no prato?

— Olha pra eles. Se não coloco comida, não se manifestam, ficam letárgicos.

— Claro, não são assim tão burros. Precisam ver a comida pra querer a comida.

#

O prato ainda vazio.

— Adalberto, lamento te informar, mas estamos passando por uma reestruturação nesses tempos de crise. Você foi despedido. Só fiquei sabendo hoje dos cortes. Lamento mesmo.

— Foi por que eu fiz esses experimentos nos últimos dias, não foi?

— Pode ter certeza que não. É um problema financeiro, gerencial, administrativo. Além dos benefícios previstos, será providenciada uma carta de recomendação.

— Bom, pelo menos isso.

— Agradeço seu profissionalismo e compreensão.

Adalberto desce as escadarias laterais do grande tanque. Se junta aos outros, olhando a face inferior do prato, suspenso muito acima da sua cabeça.

santiago santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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