Aline Bei: estudo de texto sobre o amor

 

Ilustração de Anna Kövecses (http://annakovecses.tumblr.com/)

nos beijávamos,
você desceu pros peitos
morou ali por alguns minutos
que passaram pra mim em câmera lenta.
olhei seu topo trabalhando
sua língua ou um pedaço dela
entre a saída da boca
e o bico do meu
peito.
seu corpo
estava de lado na cama
eu te segurava como a pietá de
Michelangelo
seu rosto bem mais
interessado na mama do que
o de cristo.
pela entrega absoluta nos meus braços
seu tronco ganhou a curva de um filho
aliás em você já pulsa algo
do meu futuro filho, talvez o nariz.
a sua boca eu espero que ele não tenha
não quero ficar confusa
quando for alimentar a criança
não quero ser
uma mãe ruim.

 
-vai sair leite do meu peito mesmo?– te perguntei um dia. – e se não sair
nada?
vai sair sim. – você me disse calmo.

por seis meses é só o que o bebê toma
nem água
apenas leite materno e uma proximidade com a natureza que eu vou sentir.
mas e se eu perder
o bebê? e se ele morrer
como muitos morrem
engasgado no berço
sutilmente com a própria
saliva. bebê morto
de longe parece que está
dormindo.
se meu bebê morrer
ou se ele não nascer
ou se ele for
doado
e não tiver ninguém pra tomar meu leite
o líquido vai virar
pedra em mim. vi num filme
de mulheres que ficaram grávidas e não podiam estar com os seus bebês porque não eram casadas, então o bebê era levado pra longe
para um lugar que ninguém sabia do
bastardo, mas o leite não. o leite virara pedra
dentro da mãe sem filho
Doía de fazer a coluna
envergar.
me promete que se eu tiver leite sem bebê
você me mama
pra não empedrar? me promete
que você me salva
pelo menos dessa dor?
você diz
calma, ainda não temos filho
e não responde a minha pergunta. mas eu sei
que você seria
capaz de tomar meu leite por mim.
te digo
sim, ainda não temos filho
por enquanto é só você que eu vejo
mamando em mim um homem adulto.
você se lembra de quando tomava leite na sua mãe?
alguma vez você já olhou para o peito dela pensando ter colocado a boca insistentemente ali? a Fome, em primeira instância,
não é
sexual,
as coisas mais sujas
andam pouco eróticas tamanha a intimidade que uma família constrói.
estamos virando alguém
da família um do outro?
será que vamos nos arrepender
do tempo que passamos juntos? eu jamais
me arrependeria, você se lembra
daquele cara no trem?
desfilando pra vender as roupas. trocando de roupa toda hora, sendo várias pessoas até uma mulher?
em machu picchu? você me pergunta.
sim,
no trem voltando
de machu picchu.
lembro,
ele estava sem graça
de fazer aquilo,
e no telefone o silêncio da nossa respiração lembrando
daquele dia
e de tantos outros.

não tá a fim? – você me pergunta
parando de chupar o
peito ali, disponível,
a alma do peito não.

-desculpa amor. hoje eu tô um pouco distraída.

te dou um beijo, tiro a
roupa que falta e vou
para o banho
você fica na cama deitado, pensando (no quê? no quê você está
pensando? os casais se perguntam, no começo,
depois aprendem
que a mentira existe, que a mentira é
inevitável)

ligo o chuveiro. a água cai
morna em mim, o xixi sai
morno também
os dois se misturam
no ralo que engole
tudo
e não é um pouco boca, um pouco leite, um
pouco peito
todas as coisas do mundo?
sugar e dar,
infinitamente.

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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