CENTRO CULTURAL SÃO PAULO REALIZA TERCEIRA MOSTRA DE DRAMATURGIA EM PEQUENOS FORMATOS CÊNICOS

Espetáculo com texto de Ricardo Inhan e direção de Mariana Vaz dá início ao evento, que foi indicado ao Prêmio Shell 2016 na categoria inovação pelo estímulo à experimentação de novas formas cênicas, dramatúrgicas e de produção

 

Boi Ronceiro (Foto: Cacá Bernardes)

Depois de duas edições de sucesso, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) apresenta as montagens dos textos vencedores do terceiro edital da MOSTRA DE DRAMATURGIA EM PEQUENOS FORMATOS CÊNICOS a partir de 9 de junho, com a estreia de Boi Ronceiro – Uma Fábula de Horror, texto de Ricardo Inhan e direção de Mariana Vaz. O segundo espetáculo da mostra que sobe aos palcos em 7 de julho é ANTIdeus (dramaturgia e direção de Carlos Canhameiro); e, em 4 de agosto, A Mulher que Digita encerra o evento com texto de Carla Kinzo e direção de Isabel Teixeira.

O curador de teatro do Centro Cultural São Paulo Kil Abreu conta que o edital da quarta edição já está com inscrições abertas. Kil salienta ainda que, nos dois primeiros editais houve cerca de 200 textos inscritos (por edição) e em 2016 esse número já subiu. “A repercussão pública do projeto tem sido uma alegria. As mostras têm acontecido com boas plateias. Os autores, sobretudo os mais jovens, têm se mobilizado para enviar seus textos. E o reconhecimento institucional também veio. O Centro Cultural São Paulo foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro, na categoria inovação, pelo estímulo à experimentação de novas formas cênicas, dramatúrgicas e de produção”, conta.

A repercussão também não foi só para o Centro Cultural São Paulo. Na primeira edição Silvia Gomez ganhou o Prêmio APCA de autora e foi indicada ao Prêmio Shell na mesma categoria com o espetáculo Mantenha Fora do Alcance do Bebê. Vinicius Calderoni, autor de Os Arqueólogos, um dos textos selecionados para a segunda edição do evento, também ganhou o Prêmio APCA de melhor autor e foi indicado ao Prêmio Shell.

Santíssima Trindade

As comunidades rurais brasileiras comportam em seu seio, contradições e desigualdades que são históricas, o monopólio da terra e os conflitos agrários são os principais problemas socioespaciais do país.  Partindo desta problemática, emoldurada a dilemas enraizados pela tríade – família, latifúndio e poder – o espetáculo Boi Ronceiro – Uma Fábula de Horror, de Ricardo Inhan, deriva de um drama comum para implodir questões sociais ainda latentes.

Em decorrência da morte de seu pai, um homem retorna à sua terra natal, acompanhado de sua esposa grávida. A vastidão vista pela janela da casa, provoca um estado de pasmaceira na mulher, ao mesmo tempo em que um efeito curioso a desperta de uma catatonia, até então, imposta a ela, desfiguradas pela visita fantasmagórica de um morador local. É através da presença do “estranho” que ambos são assombrados por um passado violento e sujo, que os leva a ruína atual.

O dramaturgo Ricardo Inhan, nascido em Guaxupé, sul de Minas Gerais, diz que o texto a princípio era um argumento para cinema, mas devido ao pulsante caráter teatral resolveu levá-lo aos palcos em vez das telas. “A ação de Boi Ronceiro – Uma Fábula de Horror acontece em uma única noite e apesar de buscar inspiração na estrutura clássica dos filmes de terror americanos e na literatura de John Steinbeck, o que se discute,  a questão fundiária e um desmistificar da tradicional família mineira, é amargamente nosso. Aqui, o gênero terror serve para tratar de temas caros ao universo tipicamente brasileiro, sangrados à faca da memória e a desarticulação provocada pela incapacidade de se estabelecer vínculos sociais”, conta o dramaturgo.

Foco no ator

Parceira de Ricardo Inhan em outras montagens, a diretora Mariana Vaz acredita que a dramaturgia do autor mineiro está mais madura e complexa, mas mantém um diaólogo com o primeiro trabalho que fizeram juntos, o espetáculo Tão Pesado Quanto o Céu [Peça HQ]. “Nos dois textos, há uma forte tensão entre a vida no interior e a vida na capital. Em Tão Pesado, tínhamos como foco a expectativa de se deixar a claustrofobia do lugarejo para trás, já em Boi Ronceiro, há o retorno breve ao lugarejo natal, depois de muitos anos vivendo-se na capital. O deslocamento espacial significa também um deslocamento subjetivo”, explica ela.

Mariana também afirma que o texto é extremamente contemporâneo, pois aborda a discussão  do patriarcado, tão cara à formação do ‘terror nosso de cada dia’, seja no microcosmo das relações familiares, nas diversas formas de manifestação do machismo ou na forma com que a vida política no País se desenrola.   “Boi Ronceiro – Uma Fábula de Horror concentra-se nas perspectivas de vida e realização que não ultrapassam o sufocante limite das cercas. Optei por uma direção com foco na palavra e no trio de atriz-atores, sendo que é a potente peculiaridade poética do texto e a riqueza de imagens ali propostas que tem nos guiado. O texto do Ricardo me dá diversos caminhos para criar uma encenação aberta, mais de perguntas do que respostas,  que flerta ironicamente com o terror, mas que mantém os mistérios e as possibilidades da dramaturgia”, conta a diretora.

Continuação da mostra

Para Kil, os três textos trazem visões de mundo muito diferentes e particulares. “Mesmo sem uma orientação para isso, a banca tem acertado em escolher dramaturgias diversas, que representam estilos bem distintos. Nas duas edições passadas não foi diferente”, conta.

O segundo espetáculo da MOSTRA DE DRAMATURGIA EM PEQUENOS FORMATOS CÊNICOS seráANTIdeus, texto de Carlos Canhameiro, que também assina a direção. Com elenco composto por Paula Mirhan, Marilene Grama, Ernani Sanchez, Daniel Gonzalez, Lineker e Rui Barossi, a montagem – com música ao vivo – fala sobre um país que revoga os feriados religiosos como feriados nacionais, em respeito à laicidade do governo. Para Canhameiro, a peça busca dar vozes às diferentes figuras que são afetadas diretamente por uma política excessivamente religiosa: mulheres, crianças e toda a comunidade lgbtrans. “Longe de ser um manifesto contra os religiosos ou em favor da laicidade política, o espetáculo urge em discutir e mesmo poetizar os espaços de ação do homem e da mulher fora dos contextos religiosos e seus desdobramentos práticos: a política, o direito e a liberdade sexual”, explica.

A última montagem a ganhar a cena será A Mulher que Digita, de Carla Kinzo e direção de Isabel Teixeira. As atrizes Andrea Tedesco e Sabrina Greve sobem ao palco para mostrar a história de uma mulher, que tenta terminar uma história; e outra, contratada para ajudá-la, mas que é a primeira que a ouve sendo formulada, enquanto digita. Aos poucos, essa história se revela urgente, bem como o enfrentamento entre elas.

ANTIdeus (Foto: Carlos Canhameiro)

Para roteiro:

MOSTRA DE DRAMATURGIA EM PEQUENOS FORMATOS CÊNICOS DO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO apresenta BOI RONCEIRO – UMA FÁBULA DE HORROR – Estreia dia 9 de junho, sexta-feira, às 21 horas, na Sala Jardel Filho. Dramaturgia – Ricardo Inhan. Direção – Mariana Vaz. Diretora colaboradora – Juliana Jardim Elenco – Luciana Lyra, Paulo de Pontes e Pedro Stempnievski. Cenografia – Mariana Vaz e Laura Andreato. Figurino – Laura Andreato. Desenho de Luz – Melissa Guimarães. Trilha Sonora – Alessandra Leão e Missionário José. Produção – Ariane Cuminale. Fotos – Cacá Bernardes – Bruta Flor Filmes. Vídeo – Bruta Flor Filmes. Recomendação etária – 16 anos. Duração – 70 minutos. Ingressos – R$ 10,00. Temporada – Até 2 de julho. Sexta-feira e sábado às 21 horas e domingo às 20 horas. Realização – Centro Cultural São Paulo.

Próximas estreias:

ANTIdeus (dramaturgia e direção de Carlos Canhameiro) – De 7 a 30 de julho

A Mulher que Digita (dramaturgia de Carla Kinzo e direção de Isabel Teixeira) – De 4 a 27 de agosto

 

CENTRO CULTURAL SÃO PAULO – Sala Jardel Filho – Rua Vergueiro, 1000 –Estação de metrô Vergueiro. Telefone (11) 3397-4002. Bilheteria – de terça a sábado, das 13h às 21h30; e domingos, das 13h às 20h30. Ingressos vendidos online pela www.ingressorapido.com.br ou pelo telefone 4003-1212. Capacidade – 321 lugares. Acesso para deficientes físicos. www.centrocultural.sp.gov.br

 

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