Aline Bei: vinte e quatro de dezembro

 

Arte de Maria Herreros (http://mariaherreros.com)

achei uma tela no armário da lavanderia. minha mãe
deve ter comprado
naquela época
que ela começou a
se interessar por Pintura, depois
desistiu. não é pra mim, ela me dizia chorosa. não é
pra mim.
a tela
tinha amarelado nas bordas
os dias passando sem pausa
maltratam devagar
todas as coisas que existem
não escapam nem as sem corpo, as que não vemos,
o amor por exemplo
vai mudando ficando um pai
o que no começo era um salto
do topo
de um prédio. nada resiste
ao tempo, talvez o luto e mesmo ele
um cabelo longo que vai ficando
cada vez mais fino na ponta.
pobre dessa tela
em branco, esperando virar o que fosse, uma espera sem ansiedade de ser o que ela nem imagina, por enquanto ela segue vazia
igual a todas
que moram nas lojas. sorte das que
são escolhidas pelos grandes, o pintor que mora perto,
por uma questão de acaso geográfico ele entra na loja
compra a tela que mais gosta
e promete que paga
depois. o dono
que acredita no trabalho do artista diz:

-vá la.

pensando naquilo como um
investimento cultural pra humanidade
e o pintor sai alegre
pela rua
com o pacote debaixo do braço e uma garrafa de rum no outro.
me desculpe tela, por essa Falta. eu não sabia
que te tinha no armário
você também
não fez nenhum barulho. se eu fosse tentar
desenhar algo em você
viraria no máximo um depósito
de tinta
você prefere? ser depósito ao invés de nada. prefere guardar a minha tentativa de quadro
ao invés de não guardar, de não ser?
olhei no relógio,
era quase natal. o primeiro
que vou passar completamente sozinha, um sonho antigo, e agora que ele está acontecendo
não é tão bom quanto eu imaginava
não sei o que fazer com o espaço que tenho
acabo não fazendo nada
e logo depois
acabo fazendo uma faxina
no armário da lavanderia, encontrando essa tela
de quando a minha mãe era viva, seu interesse por pintura durou tão pouco.
ela era assim, se distraía rápido,
o mundo ao redor lhe guardava promessas, ela ia pulando
de sonho em sonho, sem jamais se aprofundar em nenhum. será
que tem tinta no armário?
Procurei.
vi
lá no fundo
uma caixa de sapatos.
abri e
sim, tinha um pote
de tinta
azul, outra vermelha, outra
verde e
um pincel. tirei a tampa.
senti um cheiro
denso de quase não perceber que elas já estavam estragadas,
levei todas pra pia.
coloquei um pouco de água quente da torneira
mexi com uma colher.
se eu comesse
aquelas tintas
eu morreria? pesquisei na internet:

engolir tinta velha mata?

o google disse que
Não.
dores de barriga terríveis, contorções,
estava escrito em um site. mas morte,
não.
então deixa,
peguei um pano molhado e
passei na tela, pra tirar o pó.
lavei o pincel com detergente pra amolecer
coloquei tudo no chão da cozinha
decidida a tentar
um desenho
quem sabe eu não levo jeito (é o que todo mundo pensa
quando começa alguma coisa).
como será que foi o primeiro quadro de Van Gogh? será que
aquilo de pintar tristeza
solar em tudo
já estava ali, na primeira pincelada?
o que ele sentiu
quando pintou pela primeira vez? que era isso que ele queria fazer pra sempre?
ou será que ele não sentiu
nada e
mal se lembra?
um dia eu perguntei pra uma cantora que compõe, você se lembra da sua primeira música?
não, ela me disse, depois de pensar um pouco.
deve ter sido tão ruim que
eu nem considerei 1 música,

( o telefone tocou )

 

-alô?

-oi amor.

-oi, e aí? chegou bem?

-cheguei. não pegamos trânsito.

-que ótimo.

-tá um calor aqui.

-é? aqui tá tranquilo até, mas
tô descalça.

-já tá arrependida de não ter vindo?

-não começa, vai. a gente conversou sobre isso ontem com tanta
calma,
eu achei que você tinha entendido.

– eu nunca consigo te entender. eu só Paro
de discutir
porque sei que a discussão não vai levar em lugar nenhum. quando você mete alguma coisa na cabeça
ninguém tira, fazer o que.

-não tem nada a ver com você eu ficar. estou ficando por mim, eu
preciso desse tempo sozinha, eu nunca tenho esse tempo.
e estou no meu retorno
de saturno, lembra?
eu preciso descobrir
as minhas amarras
e pra descobrir eu preciso ficar
em silêncio
que uma casa na praia com a sua família não vai me dar. tenta me entender,
por favor.

-eu tento.

-que bom. depois a gente se fala melhor, então. que eu tô aqui no meio de uma faxina.

-faxina? mas você não precisava ficar em silêncio?

-é uma faxina silenciosa. isso faz parte do processo, sabia?

-certo. a gente se fala depois, então.

-um beijo.

 

voltei pra tela.
mexi as tinhas mais um pouco
e fechei os olhos.
tentei baixar as
expectativas de ter que fazer uma boa
primeira tela, daquilo ser um termômetro de qualquer coisa,
um talento por exemplo,
uma faísca na minha vida finalmente, Não. aquilo
era só uma tela
que eu ia deixar
um pouco menos morta. respirei fundo.
peguei no pincel
ele escolheu a cor da tinta. depois soltei
o corpo da mão
na tela.
enquanto ela trabalhava
fui cantarolando, de olhos sempre
fechados, uma música inventada que ficou assim:

as cores são como pássaros
nas árvores
são como frutas
pro cão sem casa
como um livro
de poesia na estante
e a morte, a morte é como um gelo
no freezer
em formato de
cruz.

era uma música quebradiça, percebi, a melodia principalmente,
mas deixei
minha voz livre
enquanto a mão trabalhava
por mais de meia hora os olhos fechados sem dormir. quando abri
pra ver a
tela

meu deus era o rosto
da minha mãe.

 

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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