Peça A Demência dos Touros expõe relações de poder e performatividades de gênero de uma sociedade distópica

Vulnerabilidade social, preconceito e fetichismo do poder são alguns dos temas abordados em espetáculo inédito encenado pela Cia. Teatro do Perverto em junho; o processo criativo contou com a orientação de Dodi Leal, artista-educadora que pesquisa a temática das poéticas sociais de transgeneridade em seu doutorado

 

alta_demencia_dos_touros-5_creditos Thaís Barbosa.jpg

Foto: Thaís Barbosa

No dia 7 de junho, quarta-feira, às 21h, a Cia. Teatro do Perverto estreia A Demência dos Touros, no Teatro Pequeno Ato. A peça apresenta o universo distópico de uma cidade murada, onde poucas pessoas têm permissão para morar – a maioria vive do lado de fora e atravessa o muro, fortemente policiado, apenas para trabalhar. Nela, todos os habitantes são homens, e aqueles que têm a audácia de assumir outra performance de gênero são duramente reprimidos e apelidados de “mudadas”.

Neste contexto de segregação urbana, os jogos de poder instaurados em diferentes esferas da sociedade – política, jurídica, territorial, ética, científica, afetiva e de trabalho – são evidenciados a partir da trajetória de cinco personagens. Uma mulher “mudada” vive do lado de fora, mas trabalha no consultório de um médico corrupto, com grandes ambições políticas. Ele atende a mãe de um jovem que o desafia em seus métodos, e tem auxílio de um enfermeiro que acredita que a cidade é controlada por uma máfia de fabricantes de ar-condicionado. Completa o enredo, por fim, o amante da protagonista, que é atormentado pelo ciúme.

Das fricções entre essas personagens evidenciam-se antagonismos sociais e opressões, principalmente no que se refere ao contexto de vulnerabilidade e violência a que as pessoas com performatividade de gênero não-hegemônicas está submetida. No entanto, o que está sendo colocado em cheque são as grandes estruturas sociais de poder e a sede pelo estabelecimento de uma ordem. “A peça trata do oprimido, de forma geral. A questão da performatividade de gênero é um dos temas a partir do qual se pode ver a opressão sobre modos de existência não hegemônicos”, ressalta o dramaturgo João Mostazo.

alta_demencia_dos_touros-15_creditos Thaís Barbosa

Foto: Thaís Barbosa

No palco, o elenco permanece o tempo todo em cena, mesclando interpretação e performance, e confundindo o público, que não sabe ao certo se quem fala, age ou posiciona a cenografia é o ator ou o personagem. Essa espécie de “plano-sequência da encenação”, nas palavras da diretora Ines Bushatsky, dá coerência ao caos provocado pelo texto fragmentado. “O objetivo é tencionar a medida que usamos para dar significado ao que vemos. Nem sempre tudo faz sentido. A ideia é convidar o público a construir esse sentido com a gente”, explica Ines.

A luz, o figurino e a trilha sonora de A Demência dos Touros também contribuem para esse embate, misturando elementos do cotidiano com instantes de estranhamento e da estética steampunk, cortes súbitos e degradações sonoras, que lançam a cena para além da verossimilhança e aprofundam a atmosfera distópica.

Processo criativo

O trabalho do grupo teve início em janeiro de 2016, a partir de uma primeira versão da dramaturgia escrita por Mostazo. Desde então, o processo contou com diversos interlocutores, pesquisas bibliográficas e dinâmicas envolvendo toda a companhia.

O primeiro convite foi feito a Dodi Leal, artista-educadora que pesquisa a temática das poéticas sociais de transgeneridade, em seu doutorado em Psicologia Social, pela USP. Trazendo proposições e fazendo provocações, que vão desde os seus estudos até a sua experiência de vida como mulher trans, Dodi assume a função de dramaturgista no espetáculo, zelando para que os conteúdos fossem bem representados, e participando também da parte criativa.

Foi ela quem trouxe à tona os conflitos existentes nas relações trabalhistas que são retratadas nas cenas com o médico, e que desenhou a relação afetiva da protagonista com o seu amante – “às vezes até com falas explícitas bem amarradas pelo João no texto, o que deu à personagem um pouco de mim, me vejo nela”, conta. Além de orientar e cocriar, ela está estudando, como parte de sua tese de doutorado, a receptividade da peça por pessoas cisgêneras. “Tratar de transgeneridades como um problema social que diz respeito a todos/as é algo extremamente relevante e único que esta peça promove”, conclui.

Como parte do processo de construção da peça, também foram feitas leituras públicas e trocas com outros artistas e pesquisadores, como Luís Galeão (orientador da tese de Dodi Leal, IP/USP) e Luiz Fernando Ramos (professor no CAC/ECA-USP). Todos eles contribuíram para que o texto chegasse à versão definitiva, em outubro de 2016. Estudos de performance trans, oficinas de Drag Queen e maquiagem também foram parte do processo de criação da encenação. Durante aberturas de processo na Oficina Cultural Oswald de Andrade, o grupo promoveu uma palestra sobre Gênero em Interseccionalidade Social, e um debate sobre Perversão, Violência e Gênero.

Sobre a Cia. Teatro do Perverto

Fundada em 2014 por artistas egressos da Escola de Comunicações e Artes da USP em parceria com outros artistas, a Cia. Teatro do Perverto encena, agora, o seu segundo espetáculo, dando continuidade à sua pesquisa estética inicial. A primeira peça do grupo, Fauna Fácil de Bestas Simples, estreou em 2015 e foi bem recebida por público e crítica.

alta_demencia_dos_touros-19_creditos Thaís Barbosa

Foto: Thaís Barbosa

Ficha técnica
Direção: Ines Bushatsky
Texto: João Mostazo
Elenco: Felipe Lemos, Felipe Carvalho, Jorge Neto, Pedro Massuela e Rafael de Sousa
Dramaturgismo: Dodi Leal
Direção Musical: Vinícius Fernandes e Gabriel Edé
Luz: Felipe Boquimpani
Direção de Arte: Lídia Ganhito

Serviço
A Demência dos Touros
De 7 a 29 de junho, quartas e quintas, às 21h – exceto dia 15 de junho
Teatro Pequeno Ato
Rua Doutor Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque
Telefone: 9.9642.8350
Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia), com bilheteria aberta uma hora antes
Aceita cartões / Ar condicionado.
Classificação indicativa: 16 anos.
Capacidade: 40 lugares.

Assessoria de Imprensa
Amaré Cultural
Isadora Bertolini – 9.9107.5651
Jéssica Stuque – 9.8582.0746
amarecultural@gmail.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s