O final de ‘The Leftovers’ e o melhor monólogo de uma série em anos

Everybody’s wonderin’ what and where they all came from.
Everybody’s worryin’ ‘bout where they’re gonna go when the whole thing’s done.
But no one knows for certain and so it’s all the same to me.
I think I’ll just let the mystery be.

Let The Mystery Be, de Iris DeMent

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Pode ser exagero o título deste artigo, mas estamos falando de uma das séries mais exageradas – o uso do termo não é pejorativo – e de quebrar padrões de tramas já realizadas da nova era dos programas televisivos. E sim, o monólogo final de Carrie Coon é de uma epifania deslumbrante, a catarse de quatro anos – contando com o hiato de 2016 – do espectador que acompanhou a jornada de uma parte de 98% da população mundial que foi deixada para trás.

The Leftovers começou em 2014. Transmitida pela HBO, o seriado conta a história cotidiana após o evento inexplicável do sumiço de 2% da população ao redor do mundo. Desafiou religião, ciência e filosofia, muitas vezes colocando estes três conceitos em harmonia. A primeira temporada não agradou a muitos, que esperavam os suspense e mistérios a la LOST, programa anterior do produtor e roteirista – ao lado de Tom Perrotta – Damon Lindelof. Quem percorreu LOST por todas as temporadas sabe da frustração que o programa deixou no seu fim e Lindelof carregou este fantasma por muito tempo. Escrevo o verbo “carregar” no passado, pois depois do último domingo, Damon Lindelof tem o meu perdão. Após críticas duras do público em relação ao plot e personagens apáticos, Damon e Tom, juntamente com a diretora e produtora Mimi Leder, fizeram algo arriscado no ramo dos seriados. Mudou completamente toda a trama, deslocou as situações para outro ambiente – no caso a cidade fictícia de Miracle -, modulou os personagens e – algo grandioso e que vale o termo “exagero” lá do começo do texto – levou o roteiro para além da nossa percepção, assim como soltou as nossas mãos para viajarmos com os personagens nas inventividades do programa.

A reviravolta não chegou apenas no show, a crítica exaltou a segunda temporada. O público retornou de boca aberta com as circunstâncias do enredo. Porém surge a cartada da HBO, a terceira temporada seria a última. Como assim? Agora que está excelente vai acabar? Esse pessoal tá louco, ainda queremos mais do programa. Mas não aconteceu. Para desespero, a nota ainda dizia que a temporada derradeira teria apenas oito episódios. O medo de LOST voltou. Mas não tem como responder tudo em poucos episódios. Lindelof vai destruir outra série.

Que nada, The Leftovers e sua última temporada se tornaram os melhores trabalhos poéticos desta década. Entrou para a história e ainda colocou muito o que falar sobre a nossa conduta. Diálogos e situações memoráveis – Quem irá se esquecer do navio com orgia para exaltar a linhagem de um leão? A peregrinação árdua – no mesmo mote de Jesus Cristo – pelo deserto da Austrália em busca da canção tribal definitiva para conter o dilúvio? As cientistas tocando A-HA? Kevin presidente?

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ALERTA DE SPOILER

O Livro de Nora

Em certo momento, no último episódio, intitulado ‘The book of Nora’, de The Leftovers, que estreou no domingo 4 de junho, a personagem título encontra-se com Kevin – em um longo futuro – e o convida para um chá após o desabafo do antigo parceiro. Na mesa da cozinha, com as xícaras servidas, Nora revela a Kevin o motivo de seu sumiço e isolamento de tantos anos. Em um monólogo extraordinário, ela conta que finalmente encontrou os filhos e marido que haviam desaparecidos no evento do arrebatamento. Nora havia conseguido chegar em uma realidade alternativa. Onde, em um relato que não tem flashes, sendo a palavra a única forma de expressar o visual, ela finalmente encontra os familiares. Mas percebeu que eles estão felizes, mesmo vivendo em outra realidade, com apenas 2% da população,  no mundo escasso, Nora enxergou que aquele novo núcleo familiar não existe mais lugar para ela. Seu marido e filhos – já crescidos – seguiram adiante. No entanto, ela decidiu voltar ao nosso mundo.

Este desabafo de Nora, em uma maravilhosa atuação de Carrie Coon, faz com que o espectador se questione se é real ou não. Será que ela inventou? A vergonha de sumir da vida de Kevin foi inventada por esta história, já que o programa não nos mostrou. Pois é, mas a Nora não se importa com o que especulamos, pois Kevin acreditou nela. E isto significa muito para a personagem.

Os dois conviveram com a tristeza da perda e do luto da humanidade. Nada, na trajetória que acompanhamos, os personagens tiveram momentos bons. As angustias e desesperos conduziram suas vidas. As questões não solucionadas e sempre mais emboladas maltratavam o caráter e alma. Tudo isto não ajudaria a viver.

Aquele acalanto dos dois em uma mesa na cozinha, durante a manhã, na região rural da Austrália, muitos anos depois, é o mais íntimo que os dois chegaram em todas as temporadas. Não interessa se é verdade ou mentira, o importante é que estão ali. Finalmente juntos. Acreditando um no outro.

The Leftovers entra para a história como uma das séries mais ousadas e incríveis da televisão. Com um elenco primordial e roteiro que desafiou o mais do mesmo dos shows, o programa deixa uma mensagem: independente do que o nosso mundo convive, precisamos ser felizes com o que temos. Seguir adiante. Haverá muitas conversas sobre o desfecho. Os motivos de não haver soluções para algumas questões. As respostas para os mistérios não serão reveladas. Não é necessário. As pessoas finalmente, após o sétimo ano do arrebatamento, decidiram seguir suas vidas. Quer melhor resposta?

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