Afonso Borges lança livro de contos ‘Olhos de Carvão’ pela Record. Leia um conto.

Autor fará sessão de autógrafos nos dias 19 de junho no Mercado Distrital do Cruzeiro, em Belo Horizonte; no dia 20 de junho na Blooks de São Paulo; no dia 21 de junho na Blooks do Rio de Janeiro e no dia 22 de junho no restaurante Carpe Diem, em Brasília. Todos a partir das 19h

unnamedO mineiro Afonso Borges lança seu primeiro livro de contos “Olhos de Carvão”, pela editora Record. Criador do projeto Sempre Um Papo, que há 31 anos promove o encontro de escritores com o público para falar de suas obras, em 112 páginas, ele lança mão dessa larga experiência na literatura para trazer à tona pequenos contos fictícios, que trazem situações e lugares variados. Autor de três livros de poesia e um infantil, Afonso se utiliza de uma linguagem poética para dar unidade aos textos. Como se pode ler nos depoimentos de Alberto Mussa, Lya Luft, Ruy Castro, Mary Del Priore e Sérgio Abranches, Afonso Borges descobriu um estilo próprio, mesmo dedicando-se uma vida toda a livros e histórias de amigos escritores. 

Afonso Borges é escritor, produtor cultural, nascido em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1962. É o responsável pela criação e curadoria do Festival Literário de Araxá – Fliaraxá – realizado, anualmente, desde 2012, no município mineiro. Desde 1986, dirige os trabalhos da AB Comunicação e Cultura, sendo o responsável pela criação, coordenação e desenvolvimento do “Sempre Um Papo. Trata-se de um dos projetos mais respeitados de incentivo ao hábito da leitura do Brasil, que promove a difusão do livro e seu autor. Já atuou em mais de trinta cidades de oito estados brasileiros, além de ter sido realizado durante um ano na Casa de América, em Madri, Espanha. Sob o comando de Afonso Borges, são mais de 6.000 eventos, com um público presente estimado em 1,7 milhão de pessoas. 

Borges faz colunas diárias de rádio há 11 anos, no programa “Mondolivro”, no ar, atualmente, pela Rádio Bandnews Fm. É colunista do portal “O Globo”. Em 2012, foi curador da Bienal do Livro de Minas Gerais. Escreve em jornais desde os 16 anos e já trabalhou, alternando  funções de colaborador, repórter e editor, em diversos jornais e  revistas. Colaborou, como jornalista e pesquisador, nos livros “Chatô – O Rei do Brasil” (Companhia das Letras), de Fernando Morais,  “O Desatino da Rapaziada – Jornalistas e Escritores em Minas Gerais” (Companhia das Letras), de Humberto Werneck. Afonso possui cinco livros publicados: o infantil “O Menino, o Assovio e a Encruzilhada”  (SESC Editora, 2016); “Retrato de Época” (poemas, 1980), “Bandeiras no Varal” (poema-plaquete, 1983), “Sinal de Contradição – Conversas com Frei Betto” (Ed. Espaço & Tempo, Rio de Janeiro, 1988), publicado também na Suíça (”Zeichen des Widespruchs”/Edition Exodus, Fribourg/1989) e na Argentina, e “Profecia das Minas” (poemas, 1993).

 Orelha Por Alberto Mussa

 É célebre o verso de Noel Rosa que diz “ninguém aprende samba no colégio”. E eu me arrisco a acrescentar: nem samba, nem literatura. 

Literatura é sobretudo vivência. Só depois de um profundo mergulho em livros é que se pode esperar a emersão de um autor, em poesia ou prosa. Escritor é apenas o leitor que escreve.

Afirmo isso a propósito da grata surpresa que foi ler os originais deste Olhos de carvão, de Afonso Borges, este grande amigo das letras brasileiras.

Poeta, com três volumes publicados, Afonso estreia pronto na ficção, demonstrando raro domínio do ofício de prosador. A construção ou depuração desse talento não se deve a nenhum colégio; não há nele nenhum ranço de academismos e modismos teóricos; não se encontra nada que sugira a preocupação de acompanhar a corrente.

O que se percebe em Afonso Borges é, primeiro, uma amplíssima bagagem literária; um convívio longo, íntimo e intenso com a arte narrativa. Seus pequenos contos passam por muitos lugares e exploram situações variadas. Não há um tema comum: o que lhes dá unidade é a persistência de um mesmo tom, e um mesmo ritmo. Posso dizer numa só frase: há um estilo aqui — que me parece único na literatura brasileira.

A linguagem, sempre poética, resvalando do plano real para o simbólico, dá aura singular à abordagem do assunto, que muitas vezes não passa de um flagrante, mais próximo da crônica que do conto tradicional. Outro trunfo de Afonso é saber mesclar linhas narrativas, alternando tempo ou espaço — técnica muito difícil de executar em dimensão tão curta, que se assemelha aos dribles do futebol de salão.

O leitor certamente encontrará outros méritos neste Olhos de carvão, porque se trata de algo muito original, obra de um autor que — por sua vasta cultura — soube encontrar a sua própria voz.

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Afonso Borges (Foto Fábio Setimio)

 

Leia um conto do livro, gentilmente cedido pela Editora Record

Cova rasa, o delegado e o 32 cano longo

Coca-Cola, pediu novamente. Seu João Meriti ordenou: manda buscar uma caixa lá em Valadares. Dia seguinte estava lá, uma caixa, aquela Coca de vidro, média. Poderia tomar uma por dia, só. Seu João Meriti,  o Prefeito, queria tratar bem aquele menino de cidade, ali, na pequena Marilac. Sabe atirar? Vem cá aprender. Pegou o Smith Wesson 32 cano longo. O cabo de madrepérola tinha um rachado no alto, observou. Apontou para umas garrafas lá no fim do pátio. Disparou cinco vezes.

O clima na redação era o pior possível. Ameaça de greve, Honório nervoso, trançando de lá para cá, na maioria das vezes gritando. Passos largos,  atravessava  a redação em segundos. Todos fomos para a reunião de pauta, a do meio-dia.

O Delegado tinha ligado para o dono do jornal. Queria o Antonio fora do jornal. Honório mediou, dizendo que ia tirar ele daquela reportagem.

Detestou fazer aquilo, mas era isso ou rua. Seu João Meriti passou o 32SW para o menino. O  último tiro é seu. Vai. O cano longo é mais difícil de mirar, mas, mesmo assim, disparou, atingindo nada. Tomou o coice, quase deixou o bruto cair. Seu João deu uma longa gargalhada e vaticinou: você não sai daqui sem acertar aquela garrafa de Coca. Coração acelerado, aos pulos, o menino gaguejou. O pulso doía. Pensou o quanto estava longe de casa. E foi andar de cavalo. Delegado mentiroso de merda! Forjou o flagrante no filho do Deputado, colocou três papelotes de cocaína no carro, fichou o rapaz. Vai dar artigo doze, quatro a seis anos de jaula, pensou Honório. Na reunião, foi logo dizendo: Antonio, você vai para a Editoria de Cidade. Tá fora do caso. Quem mandou invadir a sala do Secretário de Segurança Pública, e pedir satisfação com gravador ligado? O cara ficou furioso, ligou pro  Governador. É isso, ou rua. Decide.

Fim de tarde, noite chegando, juntou três jagunços, selaram cavalos e foram passear. Escureceu de repente. No final de uma curva, mata fechada, um brilho mínimo. Seu João parou, deu uma empinada no cavalo, voltou, pegou o menino pela cacunda e o jogou violentamente uns dois metros para o lado, no meio do mato. Fica quieto aí. Foi a conta de falar e o tiroteio começou. Emboscada. No escuro, tiro parece fogo de  artifício. O revólver brilha. Durou uma eternidade.

Foi para a Editoria de Cidade cobrir acidente de trânsito. O Delegado mentiroso hoje, trinta anos depois, é deputado. Antonio virou escritor, ficou aqueles dez anos na redação, trabalhou em assessoria do Estado, casou, teve três filhas. Tem vários livros publicados, mas ganha dinheiro só com os infanto-juvenis. Os adultos não vendem nada. Agradece, de vez em  quando, ao Delegado mentiroso. Começou a escrever  ficção ali, no meio da verdade.

Parou o tiroteio. Seu João Meriti gritou, apreensivo:
Menino! Ele saiu da moita e viu os jagunços pegando
os corpos dos pistoleiros. Eram dois, estavam em cima
da árvore, de tocaia. Com um pedaço de pau, abriram
cova rasa. Os corpos ali, pouca terra por cima. Você
não sai daqui sem acertar aquela garrafa de Coca,
repetiu Seu João, no escuro.

 

OLHOS DE CARVÃO
Afonso Borges
Páginas: 112
Preço: R$ 29,90
Editora: Record
(Grupo Editorial Record)

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