Em entrevista, Francisco Azevedo conversa sobre o recente romance lançado pela Record: ‘Os novos moradores’

Noite de autógrafos de “Os novos moradores” será no dia 13 de junho, a partir das 19h, na livraria Argumento, no Leblon

unnamedO cenário é o bucólico bairro carioca da Gávea, no período final da ditadura militar. Duas casas geminadas, de fachadas quase idênticas. Em seu interior, porém, histórias muito diferentes. De um lado, uma família imersa na monotonia. De outro, o vigor de espíritos apaixonados e atrevidos. Surpresas, amores, tragédias, segredos e conflitos de geração vão promover mudanças profundas na intimidade das duas casas, nas décadas seguintes.

Em “Os novos moradores”, Francisco Azevedo passeia pelos dramas de duas famílias típicas da classe média carioca, num período que vai dos anos 1970 aos dias atuais. Tudo num estilo de escrita límpido e sedutor, que tem cativado milhares de leitores em diversos países — “O arroz de Palma”, seu primeiro romance, já foi publicado em 13 idiomas e vendeu mais de 60 mil exemplares no Brasil. Neste novo livro, o foco permanece sobre as relações familiares — triviais à primeira vista, conturbadas e intensas na intimidade. Transgressoras, sempre: “O que chamamos de transgressão de costumes nada mais é que um novo olhar sobre nós mesmos. Olhar que nasce da experiência cotidiana, da prática do diálogo, da curiosidade que nos faz querer saber mais e mais sobre nossos corpos, nossos sentimentos, nos pesquisando, nos revirando e nos vendo pelo avesso — processo que acontece na intimidade desse fabuloso laboratório chamado família”, conta o autor, nesta entrevista.

TRECHO

“Penso na história das casas geminadas da rua dos Oitis e em seus humanos caracóis. Penso no que esconderam aquelas paredes, no que se passou por trás daquelas portas. Penso na chegada dos novos moradores. No que causou o simples girar de uma maçaneta: o flagrante, a cena inimaginável. Qual o pior castigo: a dor dos pais ou o pavor dos filhos? Penso no que uma família é capaz de suportar e superar quando o amor prevalece. Na força transformadora do perdão, que liberta quem é perdoado e sobretudo quem perdoa. Penso na troca de comando que o tempo impõe a todos os lares. Num estalar de dedos, nossos filhos se tornam protagonistas e nós, os pais, com toda a experiência de vida, nos contentamos com papel menor. É assim e pronto — nada a fazer senão aceitar as regras do jogo.”

Leia a seguir uma entrevista com o autor, parceria Livre Opinião – Ideias em Debate e Grupo Editorial Record

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Francisco Azevedo

Suas tramas são intensas e caudalosas, repletas de surpresas e de histórias que se entrelaçam. Como você se inspira para criar seus personagens e narrativas? Qual a gênese deste “Os novos moradores”?

Não faço mais que estar atento. Nem preciso ir longe, basta sair à rua, olhar ao redor. A vida é assim: intensa, caudalosa, repleta de surpresas e de histórias que se entrelaçam, como você diz. Se prestarmos atenção, há personagens e mais personagens com tramas elaboradíssimas andando pelas calçadas, se esbarrando, anônimos. Personagens fantásticos que, de repente, vêm ao meu encontro e me comovem e me inspiram. Personagens que, depois (em planos paralelos, ou na imaginação, não sei), voltam a me procurar, porque precisam que eu conte seus dramas, tribulações e anseios. Os novos moradores – como todos os outros romances e peças que escrevi – nasceu deste observar cotidiano, desta disposição para chegar ao outro e, desafio maior, tentar compreendê-lo.

Nas análises sobre sua ficção, é comum que se aponte o olhar sobre as relações familiares como uma característica central. Mas a transgressão de costumes também é um elemento muito marcante, concorda? Como os dois – família e transgressão – se conjugam?

Se formos ao dicionário, saberemos que “transgredir” é, antes de tudo, “avançar”, “ir além”. Só depois significa não cumprir uma ordem, uma regra ou o que seja. Por outro lado, sabemos que a família é nosso laboratório inicial. Nela, por nossos pais ou responsáveis, somos testados e pesquisados desde que nascemos até a adolescência ou a independência que nos permita sair de casa, ou seja: a independência que nos autorize “avançar”, “ir além”, ver o mundo com nossos próprios olhos, nos submetermos aos nossos próprios testes, nos examinarmos do nosso jeito, nos testarmos, uma, duas, três, quantas vezes for, corrermos riscos com as experiências… É assim que crescemos e evoluímos. Portanto, por mais dolorosa que seja, a convivência familiar é essencial, porque nela conhecemos os primeiros limites, exercitamos a disciplina, aprendemos a obediência, a tolerância e – tão importante quanto! – a contestação, o questionamento, a não aceitação de regras que nos parecem equivocadas ou injustas: a transgressão, enfim. Se há amor e confiança, pais e filhos hão de encarar as frequentes discordâncias e enfrentamentos como forma de aprendizado mútuo, oportunidade de, juntos, se fortalecerem para enfrentar as tantas contrariedades impostas pela vida. Assim, a meu ver, o que chamamos de transgressão de costumes nada mais é que um novo olhar sobre nós mesmos. Olhar que nasce da experiência cotidiana, da prática do diálogo, da curiosidade que nos faz querer saber mais e mais sobre nossos corpos, nossos sentimentos, nos pesquisando, nos revirando e nos vendo pelo avesso – processo que acontece na intimidade desse fabuloso laboratório chamado família.

O incesto ainda é um tabu muito forte em nossa sociedade, e é um dos temas centrais deste novo livro. Como foi a experiência de trabalhá-lo na ficção? 

Em Os novos moradores, embora relevante, o tema do incesto se insere em contexto bem mais abrangente, que envolve as complexas questões dos relacionamentos familiares: são os arquivos secretos que todos guardamos. A necessidade de nos escondermos e, ao mesmo tempo, de sermos verdadeiros com os seres amados que nos acompanham – sejam os pais, os filhos, a mulher, o marido, os companheiros de estrada. A necessidade que sentimos de nos revelarmos por inteiro e a incapacidade de fazê-lo. Os conflitos e dramas que resultam desta contradição. E, ainda, nossas diferentes visões sobre o certo e o errado, o diálogo que se perde, o entendimento que, por vezes, parece impossível. Em sentido contrário, temos a tragédia familiar que é superada, o tabu que se quebra quando o amor prevalece, a força transformadora e libertadora do perdão. São todos esses temas e subtemas que costuram a trama do romance e lhe dão arremate. Assim, trabalho a questão do incesto. Sem julgamento antecipado, humanizando a relação dos irmãos Amanda e Estevão, que é vista pela essência do afeto que os une e não pela aparência.

“Os novos moradores” também lança luz ao poliamor e a outras possibilidades de configuração amorosa, que escapam às tradicionais. Sua literatura não se furta a viajar pelo passado, mas também encara temas caros ao mundo contemporâneo. O quanto a ficção é um instrumento eficaz para investigar o presente?

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Quem diz é Guimarães Rosa, em “Grande sertão: veredas”. O pensamento consta como uma das epígrafes do livro, porque traduz com perfeição o que penso a respeito das infinitas possibilidades de configuração amorosa. É inacreditável que, em pleno século XXI, ainda nos escandalizemos com formas de amar que, como você diz, escapam às tradicionais, enquanto que, na televisão, os noticiários e as sessões da tarde oferecem para os jovens os mais variados tipos de matanças e carnificinas, tudo muito natural, censura livre. Alguma coisa deve estar fora do lugar. Ademais, quem manda no amor? Quem poderá impor aos casais o modo de serem felizes e expressarem seus sentimentos? Acho que já é mais que tempo de respeitarmos nossas diferenças. E a ficção pode ser instrumento extremamente eficaz nesse processo de conscientização. Em meus dois romances anteriores “O arroz de Palma” e “Doce Gabito”, também há transgressões de costumes, mas igualmente inseridas em um contexto de afetividade, que nos leva a compreender e a aceitar o comportamento transgressor.

“Os novos moradores” acena em seu desfecho, para a possibilidade de um mundo melhor, mais franco e solidário. Nestes tempos tão turbulentos, o quanto é possível manter o otimismo?

A turbulência está no ser humano em qualquer tempo, os cenários é que mudam. E hoje, com as tecnologias de que dispomos, crimes, injustiças e horrores ficam bem mais visíveis, são expostos e divulgados imediatamente – o que não deixa de ser positivo. Sou otimista, mas com os pés no chão. Costumo usar uma imagem que é a seguinte: você tem uma parede pintada de branco, alguém vai com o dedo e faz um pequeno sujo. A área limpa é infinitamente maior que aquele mínimo ponto. Não importa. Nosso olhar irá direto para o que destoa e incomoda. Da mesma forma, possuímos muito mais qualidades que defeitos, mas nosso lado bom não aparece, não dá notícia. O que desperta o interesse alheio é o mal que nos habita. Assim, se analisarmos com isenção o ser humano, reconheceremos que temos nos esforçado e melhorado ao longo dos séculos. Um passo para trás; dois, para frente. Em “Os novos moradores”, aceno, de fato, para um futuro melhor. Apesar de eventuais recuos, acredito firmemente que as novas gerações serão sempre mais esclarecidas e, portanto, mais tolerantes e solidárias. Confio na vocação do ser humano para o crescente aprimoramento. Tendemos para a luz.

“O arroz de Palma”, seu primeiro romance, é um enorme sucesso de público e de crítica. Já vendeu mais de 50 mil exemplares no Brasil e já foi traduzido para diversos países. A que atribui tamanho sucesso?

Com “O arroz de Palma”, aprendi que o sucesso é algo inesperado e inexplicável. Eu, pessoalmente, estava certo de que o romance dificilmente teria êxito, porque os leitores que se encantassem com o lirismo da narrativa não aceitariam as transgressões de costumes. E aqueles mais receptivos a essas transgressões se entediariam com a linguagem poética, além de ser o primeiro romance de um autor desconhecido. Pois é. Aconteceu exatamente o contrário. O livro caiu no gosto do público. De adolescentes a pessoas idosas de diferentes religiões, escolaridades e classes sociais. O sucesso começou pela internet, com a divulgação de um trecho do primeiro capítulo, Família é prato difícil de preparar. Só fui saber que o texto estava circulando pelo boca a boca dos leitores, meses depois do lançamento. Tornou-se verdadeira bola de neve, com vendas crescentes e contínuas.  Gostaria de conhecer quem tomou a iniciativa da primeira postagem: internauta pé quente, sem dúvida alguma.

Como o seu trabalho de dramaturgo e roteirista alimenta o de escritor, e vice-versa?

De várias maneiras. Em roteiros cinematográficos e peças teatrais, por exemplo, sempre usamos o presente do indicativo para as rubricas e descrições de cenas. Todas as ações se passam no instante em que estão sendo escritas. Nos romances, faço exatamente o mesmo. A meu ver, o tempo presente agiliza a narrativa. Com ele, o texto ganha vida, a história fica ao alcance. E os personagens tornam-se mais próximos do leitor, acredito.  O cinema e o teatro também me deram disciplina. Neles, somos obrigados a policiar nossa criatividade, porque é preciso viabilizar a filmagem ou o espetáculo. Assim, temos de ser práticos e objetivos, pensar nos custos de produção, na duração da peça, na quantidade de atores em cena, locações, cenários etc. No romance, não há limites para a criação, a liberdade é total. Eu poderia ainda mencionar vários outros exemplos de influência do cinema e do teatro nos meus romances: a passagem do tempo, o corte de cenas, o uso do flashback, os diferentes tipos de diálogo. Quanto à influência no sentido contrário, nada posso afirmar, porque, depois que me iniciei no romance, não voltei a escrever roteiros ou peças teatrais.

Quais seus projetos atuais? Já tem ideia de um novo livro?

Tenho pensado em voltar a escrever para o teatro e recebido mesmo algumas boas propostas. Mas confesso que o romance me fascina de tal modo que até já tenho me encontrado com alguns personagens do próximo livro. Pelo que me contam, uma nova história deve vir por aí.

Texto e entrevista por Juliana Krap

OS NOVOS MORADORES
Francisco Azevedo
Páginas: 420
Preço: R$ 44,90
Editora: Record / Grupo Editorial Record

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