Santiago Santos: De códigos genéticos e pães franceses

 

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A lembrança da turbulência do voo ainda irritava o estômago de Nilesh enquanto seguia Manu pelas vielas do Coophamil. Fome, mãe sagrada de todas as necessidades. Fome de vida, no caso, uma vida de rei em Singapura desperdiçada pelo equilíbrio mal calculado entre blackjack, puteiros e uísque. A Louva-Deus Sagrado o colocou para correr sem muito mais que a roupa do corpo e os dentes da boca.

Antes da fuga, uma parada no laboratório da Myrage, onde gastou os últimos 12 anos, para uma série de injeções e uma maleta com os últimos protótipos da pesquisa.

A reescrita CRISPR teve como efeito colateral a sensibilização aguda do seu estômago, o que explicava por que nos últimos quatro dias nada parava dentro dele. Por outro lado, seu código genético já não era mais o mesmo, nem seu suor, nem suas digitais, nem suas pupilas, o que lhe permitia usar a lente de realidade aumentada sobre elas, conectando à rede sem se preocupar com os escaneamentos que a Myrage exigiria dos governos e agências de inteligência quando descobrisse que seu bioquímico mais cobiçado havia desaparecido com uma maleta de propriedade roubada.

— Oi, sou a Manu. Me pediram pra te buscar — ela disse, em inglês. Aguardava sua chegada no trevo do Coophamil, onde o táxi do aeroporto o deixou. Logo adentraram a configuração de ruas com tendas e barracas onipresentes sobre o asfalto quebrado, carcaças de carros transformados em estufas, gambiarras elétricas nos postes irrigando casas e prédios pequenos com fios esticados, uma multidão colorida e acalorada de um lado pro outro. Seu prometido refúgio.

A Djorúbo, uma organização ainda relativamente desconhecida, recrutava especialistas dos mais diversos campos. Nilesh não a escolheria como porto seguro contra a caçada da Myrage não fosse por Harini, uma antiga amiga cientista, dissidente da própria Myrage. Estava instalada em Cuiabá havia alguns meses e fez a ponte entre Nilesh e a Djorúbo, interessada na tecnologia CRISPR.

Manu seguiu até topar com uma escadaria de degraus lascados que dava em um corredor escavado na terra, com várias portas. Nilesh apertou o indicador com força no polegar, acessando o menu de realidade aumentada em seu campo de visão, sobreposto ao que enxergava, e o localizador de GPS: Pensão Pequi Roído, dizia a legenda no mapa translúcido. Manu abriu uma das portas. Harini estava sentada na cama.

Ela o abraçou e conversou com ele em malaio, o que o deixou mais confortável. Manu aguardou terminarem a conversa e os guiou pelo corredor até outra porta. Um homem de rastafári o cumprimentou com um inglês de dicção perfeita e sotaque jamaicano. Estendeu-lhe a mão.

— Seja bem-vindo a Cuiabá, doutor Suryavanshi. Sou Alek e falo em nome de Butau-Curi-Répa, que não pôde estar presente. Preparamos um apartamento pro senhor, próximo à residência de Harini. Sei que está exausto da viagem. Manu vai levá-lo até lá. Eu queria cumprimentá-lo pessoalmente. Amanhã conversaremos sobre os pormenores da sua colaboração.

Nilesh agradeceu e voltou a seguir Manu pelo bairro, com Harini ao lado. O Coophamil seria uma casa bastante diferente de Singapura, expoente tecnológica do mundo pós-névoa; Cuiabá, por sua vez, era capital da maior região exportadora de commodities das Américas e seguia a cartilha ultrapassada do novo capitalismo: periferias de condomínios ultra-fechados e um centro pobre. Estava no centro do centro.

Chegaram a um prédio de dois andares e subiram a escadaria. Manu destrancou um dos apartamentos. Do lado interno da porta, reforços na madeira e vários trincos de combinação. As janelas tinham os mesmos tipos de trancas. Nilesh largou a maleta em uma cama arrumada. O lugar estava todo mobiliado, pronto para morar. Manu abriu um armário cheio de roupas.

— Compramos com base nas suas preferências. Espero que sirvam. A geladeira também está cheia. Pode liberar o meu acesso? Manuela 7043V — ela tocou em algo no ar e empurrou na sua direção. No campo de visão de Nilesh apareceu um mapa de captura de satélite cheio de pontos de referência com legendas ocultas. Eram os arredores do prédio. — A vizinhança, com recomendações de lugares para comer ou beber, se quiser. Enquanto estiver no bairro, não há problema em circular. É claro que recomendamos cautela. Mas sei que o senhor está ciente disso.

Ela disse que alguém entraria em contato no dia seguinte e saiu.

Nilesh ficou a sós com Harini. Ela o abraçou novamente. Ele se deixou abraçar, depois se deixou largar no piso do banheiro sob o chuveiro gelado enquanto ela fazia café na cozinha. Esfregou o corpo todo três vezes. Fez a barba com uma gilete nova na pia. Quando saiu, ela o esperava na mesa, um saco de padaria aberto.

— Pão francês — ela disse —, que é o pão brasileiro, na verdade. Acho que você vai gostar.

Comendo um sanduíche, falou com ela sobre seus últimos dias em Singapura e sobre os avanços na pesquisa. Os nano componentes que trazia na maleta eram um estoque experimental de CRISPR, nucleotídeos capazes de editar linhas do genoma humano, como os que injetou no corpo antes da viagem. Por enquanto as alterações eram singelas, mas já podiam curar certas doenças e alterar assinaturas corporais. Faltava expandir suas possibilidades. As apostas em Singapura eram de que a tecnologia se tornaria comerciável em até dez anos. E ali estavam os caríssimos protótipos de pesquisa da Myrage.

Harini foi embora depois do lanche para deixá-lo descansar. Nilesh sentou de frente pra janela do apartamento, observando a nova vista, o calor empapando as axilas. Vasculhou o armário da cozinha até achar o Old Parr 18 anos. Fizeram um bom trabalho de pesquisa. Encheu o copo. Do uísque não largaria. Dos puteiros, com muito esforço, talvez. O blackjack era um proibitivo. Um proibitivo contundente. Não queria ter que contar com a sorte para achar outro refúgio e somar outro inimigo poderoso à lista.

Bebeu, levantou e vomitou tudo. Depois deitou para desfrutar do sono revigorante dos sobreviventes.


Texto originalmente publicado no Jornal Opção, de Goiânia, em 04/06/2017, parte da série Multiverso Brasilis, em que seis autores brasucas de ficção científica prestaram homenagem a seis mestres da ficção científica mundial. “De códigos genéticos e pães franceses” é dedicado a William Gibson, papa do cyberpunk, e seu universo fervilhante do Sprawl, composto pela trilogia de romances Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive, bem como a coletânea de contos Burning Chrome. Luiz Bras, Sérgio Tavares e Anderson Fonseca editaram e escreveram para a série Multiverso Brasilis; além de mim, Fábio Fernandes e Roberto de Sousa Causo contribuíram.

santiago santos

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