Aline Bei: violências

 

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‘Blue Nude’ (1902), de Pablo Picasso

me bateu um medo de perder os olhos.

ou

as mãos. num acidente de carro,

num incêndio. a gente

estava tomando café da manhã

na sua varanda

você que sempre prepara meu café quando durmo na sua casa.

te ver preparando

sem nenhuma contrariedade

sempre a mesma coisa que tomo

me dá vontade de

te abraçar por horas, ficar abraçada, porque

temos um encontro, nós dois, e isso é raro. tem pessoas que não se encontram com nada durante a vida. pensam que sim, claro, pra seguirem vivendo

não tão tristes.

olhei a vista

a cidade lenta de domingo

algumas bicicletas, alguns gritos de crianças,

então me invadiu esse

medo de perder

o que mais uso em mim

olhos e mãos. como eu escreveria sem eles? se perdesse os dois

no mesmo acidente, na verdade os 4, 2 olhos e

2 mãos.

deve ter um jeito

de escrever sem eles. com a boca, talvez. segurando um palito

que leve a letra ao papel

ou quem sabe os dedos dos pés. a gente

se acostuma, eu me acostumaria a escrever com os dedos dos pés.

porque na verdade se escreve mesmo com a Mente,

as mãos e os olhos

são operários dela, apenas. mas me faria falta

tocar no teclado

também ver o desenho das letras se formando no papel. eu poderia imaginar, claro. como imagino as cidades que nunca fui e sei

nunca irei,

não vai dar tempo

de conhecer tudo

por mais que eu viva 100 anos. imaginar é um truque pra isso

mas eu ainda prefiro ver e sentir

a realidade

apesar de saber que o que vejo não é exatamente a coisa em si

e sim a minha interpretação da coisa

encharcada das outras experiências de ser quem sou.

então em tudo o que eu coloco o olho em

ou o coração em

eu me vejo

olhar pra vida é um eterno espelho.

essa

é a nossa maior prisão,

só conseguir ver de dentro,

e pensar nisso

me enlouquece devagar. é engraçado

algumas pessoas acreditarem que a liberdade existe,

talvez exista apenas a imaginação dela, como Deus. mas de perder

eu preferia perder a voz

porque se eu perdesse a voz

eu não perderia muito

continuaria falando pelos textos que escrevo, talvez até

com mais ímpeto, por eles serem agora meu único canal. o pior de tudo mesmo

seria perder a mente

nessas doenças degenerativas que vão tirando a nossa

Memória.

é como aqueles livros

falsos

que algumas pessoas colocam no escritório pra

enfeitar a prateleira, pra mim não enfeita, ofende,

e quando você enganada

pega um desses pra ler

estranha o peso

abre e

o livro é uma caixa

vazia, uma pessoa sem memória é assim.

mas se eu pudesse mesmo

escolher

eu não perderia nada

gostaria de morrer intocável,

de susto por achar que vi um tigre no meu quintal

e então

morro

não tinha tigre nenhum

foi meu jeito de

desistir do espaço que meu corpo ocupa na terra

pra que venham outros

pra que outros tentem.

 

– que foi? – você me perguntou.

nada. – respondi despertando.

 

você pegou no meu braço

pra fazer um

carinho.

 

que mole. você não tá indo na academia?

-tô, claro.

 

você morre

de medo de ver meu corpo perdendo o viço

e ainda assim ter que continuar as noites de amor comigo porque somos um casal e nosso amor está acima disso, do físico, você sabe que está. então você faria amor comigo

de qualquer maneira

mas prefere, acha mais fácil, se o meu corpo estiver

com viço.

 

-você tem medo de me ver envelhecendo? – te perguntei.

 

-claro que não, da onde você tirou isso?

 

as vezes penso que você me ama de fora pra dentro e isso me entristece.

 

-para de falar bobagem.

 

sabe que. quando eu era mais jovem, eu olhava os meninos da minha idade e não achava que eles eram meninos, eu os via como homens.

hoje

quando vejo um garoto de 20 anos

percebo claramente a criança que ele foi, está estancada no rosto dele,

um menino de 20  

ainda é uma criança.

mas eu não me sentia assim

quando eu tinha 20 anos. pelo contrário, me sentia até

um pouco velha

porque eu já tinha terminado o colégio, essas coisas.

 

você riu. disse:

 

sei bem como é isso.

 

-nessa época quando eu via homens de 40

achava todos parecidos com o meu pai.

agora

homens de 40

não me parecem mais tão distantes.

é engraçado, né?

como a nossa perspectiva vai mudando

com o Tempo.

 

– eu já tinha pensado nisso, sabia?

 

–  será que

quando eu tiver 60, 70 anos

eu vou olhar com interesse para homens dessa idade? vou começar a me atrair por essa faixa etária

porque estou nela?

 

-acho que sim.

 

-então isso prova

o quanto a vida que cada um absorve

não passa de um espelho.

 

-é.

não tem jeito.

 

ficamos calados

os dois olhando pra frente

pra janela da varanda e o dia invadindo

aquela cômodo

uns óculos escuros não cairiam mal.

 

o que é isso na sua boca? – você me perguntou,

olhando pra ela com

aflição.

 

tá cortada do frio. – respondo, e você me pergunta que frio.

 

-o frio que fez essa semana. – eu

digo.

 

-que frio que fez? essa semana – te escuto zombeteiro, só porque Você

não sentiu frio nenhum.

 

a sua dificuldade pra lidar com as diferenças

ou qualquer coisa que saia do seu padrão

é medo,

puro medo, no fundo da morte, medo de morrer até em vida, pra se transformar em outro, outros, eu ia te dizer.

 

preferi ao invés

 

dar um gole no café

que você tinha preparado pra mim com

tanto gosto.

alinebei

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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