Em entrevista, Marcia Tiburi conversa sobre novo livro ‘Ridículo político’, ensaios para refletir sobre a manipulação da imagem política

Ridículo político chega às livrarias neste mês de junho.

unnamed (1)Depois do sucesso de “Como conversar com um fascista”, já na décima edição e com 35 mil exemplares vendidos, a filósofa, romancista, ensaísta e professora Marcia Tiburi se lança em mais uma investigação em total consonância com o tempo presente. Como se deixasse o leitor defronte ao espelho de sua época, e lhe mostrasse pela primeira vez aquilo que ele sempre viu, Tiburi descortina detalhes do cenário onde reside hoje todo o nosso mal-estar estético e ético. Os ensaios de “Ridículo político” mostram, acima de tudo, como deveria ser tratada com mais seriedade a relação entre política e estética.

Acostumada a intercalar a produção escrita de filosofia, ficção e ensaios, Márcia Tiburi acha “mais fácil” responder a esta entrevista por e-mail: “Falar é mais tenso!”. Não é o que parece às plateias de suas palestras, cursos e entrevistas ao vivo. A professora (como prefere ser apresentada desde que a categoria começou a ser vítima de ataques como os da “escola sem partido”) não é apenas carismática, mas também otimista. Apesar de seus temas. Talvez, por causa de seu imenso interesse por eles, e das lentes que utiliza para analisá-los fora do senso comum onde estão afundados:

“Não lastimo tanto o meu tempo”, diz Márcia na entrevista, na qual nenhuma pergunta ficou sem resposta. “O ser humano, mesmo em sua pior forma ético-política, não me estarrece mais. Temos que enfrentar isso tudo sem idealizações e, ao mesmo tempo, com espírito de utopia.”

Por Marta Barcellos

Trecho

O termo ridículo é usado tanto para falar de algo insignificante, daquilo que não faria diferença, quanto para dar sinal de uma cena escandalosa. Neste livro, quer-se compreender seu potencial intimamente ligado, em nosso tempo, ao que podemos denominar o momento publicitário da política, que muito tem contribuído para a aniquilação de sua própria ideia como algo positivo. O problema é que política não é algo que se destrói, mas algo que se transforma, e, nesse caso, podemos dizer que o ridículo político é a sua deturpação. O que vem a ser política na era da racionalidade publicitária é a nossa questão. O ridículo político é um efeito da deturpação da política na era do espetáculo; é a deturpação do direito a aparecer, bem como do direito à expressão, do direito de representar e de ser representado. Ridículo político seria, portanto, a forma visível da crise do político enquanto o poder o utiliza justamente para acobertar essa crise.

Marcia Tiburi estudou artes e filosofia. É autora de ensaios filosóficos, entre eles Filosofia em comum, Filosofia prática e Como conversar com um fascista, além dos romances Magnólia, Era meu esse rosto e Uma fuga perfeita é sem volta, todos publicados pelo Grupo Editorial Record.

Leia uma entrevista com a autora, parceria Livre Opinião – Ideias em Debate e Grupo Editorial Record

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Marcia Tiburi (Foto: Simone Marinho)

Minha experiência de leitura de “Ridículo político” foi curiosa: parecia que o livro tinha sido todo escrito ontem à noite, tão forte a sensação de que se referia aos acontecimentos mais recentes do Brasil e do mundo. É como se o leitor estivesse vendo o ridículo e escrevendo o livro junto com o escritor. A que você atribui essa atualidade? O noticiário diário tem reforçado a sua teoria do ridículo político?

De fato, o livro foi escrito sob uma constante sensação de urgência, ainda que eu tenha demorado pelo menos uns dois anos em sua pesquisa e elaboração. O conceito de ridículo político apareceu para dar conta da perplexidade que se tornou comum entre nós. Percebi uma perplexidade generalizada entre as pessoas, uma perplexidade que, ao mesmo tempo, as deixa meio paralisadas. Ficamos estupefatos, boquiabertos mesmo, diante de certas cenas porque não conseguimos entender como elas se tornaram possíveis entre nós. Essas cenas envolvem personagens que fazem parte da vida da política institucional, governantes, mas também cidadãos. Assim, o conceito de ridículo político tenta entender a política em seu sentido genérico, como campo dos relacionamentos sociais e institucionais, como um problema dos cidadãos comuns, mas também em seu sentido mais estrito, como trabalho de governantes que ocupam cargos e por meio deles criam um espaço de exposição, um “aparecer” que precisa ser pensado melhor.

Houve um ridículo em especial que a estimulou a investigar a relação entre estética e política?

Por exemplo, a cena de 17 de abril (de 2016) em que os deputados federais votaram pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Independentemente de ideologias ou interesses políticos, toda a população brasileira, até os cidadãos menos politizados, experimentou uma sensação esquisita, uma vontade de rir que era impossibilitada por um tipo de vergonha que analiso no livro, a vergonha alheia. Essa vergonha é um sentimento estranho, desagradável, diante de coisas ridículas, aquelas das quais queremos rir sem que isso aconteça livremente, como em uma gargalhada que se dá quando a piada é boa. O ridículo tem algo de piada de mau gosto. A política em seu sentido tradicional se tornou um campo repleto de cenas que causam esse tipo de constrangimento. Imaginamos que ninguém quer ser ridículo, que cair no ridículo é algo apavorante e, portanto, indesejável. Mas o fenômeno estranho que analisei no livro é justamente a capitalização alcançada por certos personagens que caem no ridículo e, quanto mais se afundam nele, mais famosos e votados se tornam. É uma mutação na cultura política que merece análise, que aconteceu com (Silvio) Berlusconi, com (Donald) Trump, com (João) Dória, com (Jair) Bolsonaro, e, antes, com Tiririca (político e humorista). Chamei esse fenômeno de berlusconização da política. O que está em jogo aí é justamente o impacto da imagem vergonhosa na construção do poder.

A imagem, como você lembra no livro, sempre nos parece algo “natural”, e não forjado. Por que subestimamos a questão estética? É mais fácil manipular por meio do ridículo?

Uma das características da nossa cultura política é a ignorância. Há um discurso da ignorância que se tornou uma espécie de tendência dominante. As pessoas não se ocupam em compreender política e falam prepotentemente sobre o que não entendem. Elas naturalizaram a sua opinião sobre política. Quem começa a se aprofundar, a estudar e pesquisar, necessariamente vai chegar à relação entre política e estética, que nos permite pensar o tópico da construção e da manipulação da imagem. Na faculdade de filosofia, a disciplina da estética trata do campo da percepção, da sensação, do gosto, do julgamento, do corpo, da imagem, de tudo aquilo que não se refere a puros argumentos discursivos ligados a um tipo de racionalidade linear e verbal. As pessoas são em geral capturadas em seus afetos esteticamente, ou seja, inconscientemente, por meio de sensações, de impressões, de imagens que falam demais sem explicar muita coisa. As imagens são o melhor caminho para produzir esses efeitos porque nossa relação com elas é imediata. Uma imagem tem força de lei. Anos atrás, publiquei um livro chamado “Olho de vidro” (também pela Record), em que abordei a questão da imagem televisiva enquanto imagem que manipula o desejo, o olhar, o corpo e, desse modo, também o pensamento dos telespectadores. Manipulação é um termo que se tornou coloquial, mas ele significa algo bem sério, uma verdadeira programação do pensar, do sentir e do agir. Neste livro, agora, estou abordando o uso da imagem na construção da política, tendo em vista a manipulação do que “não se leva a sério”, daquilo que parece piada, mas infelizmente não é.

Seu livro afirma que, quando as pessoas se referem à política com termos como “nojo”, que também significa luto, elas têm a ilusão de que a repulsa minimizará o seu sofrimento diante da perda – que é a perda da própria política, algo que amamos e acabamos por odiar. Se estamos falando de um conflito inconsciente (que aflora de “um modo bruto, muitas vezes ressentido, dogmático ou irrefletido”), precisamos então de uma espécie de “terapia coletiva”?

Não é errado dizer que estamos vivendo a política como uma espécie de delírio, e que as pessoas precisam de ajuda política. Mas essa ajuda é aquela que o entendimento presta à prática. Ou seja, precisamos entender melhor do que estamos falando, e que sentimentos, emoções e afetos estão realmente em jogo. As pessoas estão lançadas na mais bruta ignorância sobre os jogos de poder que envolvem a sociedade, a economia, a política e as relações em geral. O ridículo cresce como capital, ou seja, em importância, no campo em que a inteligência desaparece. O ridículo é aquilo que ninguém quer ver e deixa a todos confusos. Abri o livro falando da ironia por causa disso, porque as pessoas pararam de compreender a ironia, que é um tipo de humor sutil, que necessita de muita inteligência. O “falar merda” (expressão de H. Frankfurt que uso no livro) se tornou um regra. Mas o que está por trás disso? As pessoas falam mal da política como quem fala de um amor não correspondido. As pessoas preferem odiar, porque odiando se sentem mais potentes do que se ficarem chorando e enfrentando o trabalho do luto necessário ao momento. Todo o ódio que vemos hoje em relação à política, a partidos, tem a ver com um tremendo ressentimento de quem se sente abandonado, de quem não conquistou o que queria por meio da política, seja como cidadão, seja como militante. Aquilo que todos querem, que é o reconhecimento, foi deturpado em nossa época. Um político fascista ainda ganha em fama; tudo o que ele quer é aparecer, porque aparecer tornou-se o capital. Seguindo essa linha, não é diferente o que acontece com cidadãos que perdem o senso de cidadania (um nome novo para o senso político) e ajudam a rebaixar a política a assistencialismo, esperando dos políticos, transformados em heróis ou bandidos, algo que eles próprios não dão em termos de política. Veja bem, o que estou dizendo é que cidadania e política são noções equivalentes. Enquanto isso, os governantes (do legislativo e do executivo, bem como do judiciário, do corporativo e do midiático, todos com poderes que devem ser levados em conta na ordem da governamentalidade atual) usam a política, que seria o trabalho pela ordem pública, para fins privados. Como mudar isso? Mudando a cultura política, envolvendo mais as pessoas nos processos democráticos, devolvendo a cidadania, que é direito de cada um. Como se faz isso? Tomando a política nas mãos do povo, tirando-a das mãos dos poderes antipolíticos: a televisão e outras corporações.

Você relaciona a questão da formação do gosto à funcionalidade do ridículo na política. Como a naturalização do brega, do cafona (e do ridículo), serve ao projeto político neoliberal?

Toda política tem sua estética, toda estética tem sua política. E toda política e toda estética relacionam-se a uma economia. Não podemos apagar o neoliberalismo como programa ideológico político-econômico que está em cena nesse momento. Ele é uma fase do capitalismo que defendeu a conhecida estética burguesa caracterizada pela beleza, pela brancura e pela moral ascética do gosto voltado à forma mercadoria e à indústria cultural. Isso deve ficar claro quando percebemos a economia política dos preconceitos em ação. Todo preconceito tem um lastro estético, relacionado ao padrão do gosto sempre ditado pela classe dominante, que pode ser aquilo que chamei de elite brega. Ela serve ao neoliberalismo como padronização da vida pela desigualdade econômica e política, que é também uma desigualdade estética produzida para implantar valores na ordem simbólica e imaginária. Tudo isso se constrói por meio de narrativas.

Para entender a política temos que ver que cenas estão em jogo na grande narrativa neoliberal, que precisa do terror, do horror, do medo, do vodu, do zumbi, dos vampiros para se implantar com sucesso. São imagens que explicam a presença de valores ideológicos. Isso quer dizer que a política é como um teatro, precisamos ver quem está encenando o quê. Precisamos também ver quem são os donos dos meios de produção desse teatro, certamente os meios de comunicação que produzem informação como mercadorias. Quem manda no que aparece e no que desaparece é a nossa questão. Há uma ordem das imagens. Precisamos ver como governantes são criados pelos meios de comunicação de massa, e como podem ser destituídos por eles a partir de uma ordem das imagens. Hoje, além de tudo, ainda que a televisão e a mídia chamada hegemônica tenham muito poder, elas perdem poder para outras iniciativas e, por isso mesmo, tendem a jogar mais duro na produção manipulada da imagem. Produzir imagens é produzir imaginário. Há, por exemplo, um nexo entre o conservadorismo político e a musicalidade da indústria cultural. Os fenômenos estéticos são fenômenos de superfície e tendem a nos tornar cegos para aquilo que nos afeta. A política vodu se implanta aí, e leva almas, corpos e mentes para onde quiser.

O presidente americano Donald Trump tem se destacado como o grande bufão da política. O fenômeno Trump seria possível sem o apelo ao ridículo? Quem não teme fazer papel de ridículo tem mais chances hoje na política?

Trump é um dos personagens que inspiram a introdução do conceito de ridículo político como capital político no debate atual. Bem como, antes dele, a figura de Berlusconi. No Brasil, vários personagens são exemplares do que chamei no livro de Ridículo Político nacional. Não mencionei todos, mas apenas alguns bem exemplares, porque meu objetivo não é usar o conceito de ridículo como um signo que poderia ser confundido com acusação ou xingamento. O que eu queria era compreender essa mutação publicitária da política na era do espetáculo. Hoje temos que pensar em política tendo em vista as condições concretas em que ela é possível, ou seja, precisamos estar atentos para o tipo de política que se faz no contexto da indústria cultural, da sociedade do espetáculo.

A popularização dos memes serve para revelar, com ironia, o ridículo político ou acaba por reforçar o seu poder?

Os memes são produção estética digital que merece atenção. São produtos iconológicos que mostram, como em fragmentos, a mentalidade de nossa época. Assim como com as grandes obras, esse tipo de produção microfísica não deve ser negligenciada, pois é expressão da criatividade de uma época. Memes são imagens fragmentárias que nos permitem visualizar mentalidades, mas também, como toda imagem, ajudam a construir sensibilidades. Ao mesmo tempo, são como pequenos espelhos, que também têm o poder de orientar as formas de pensar e sentir. Nesse caso, de fato, quando são críticos ou conservadores, eles fazem toda a diferença. O que chamo de ridículo político é um conteúdo que pode ser escancarado nos memes ou simplesmente fortalecido neles. Assim como o machismo e o racismo foram fortalecidos ao longo da história da pintura, a forma fundamental em uma época.

Existe uma solidão em detectar um ridículo não percebido pelos outros. Esta é uma solidão a mais para um escritor, e também para o crítico, cuja tarefa é naturalmente solitária? Como você lida com esses sentimentos?

Sou professora de filosofia e há bastante tempo me dedico a escrever. Por isso mesmo, sou apreciadora de certa solidão, aquela que me permite me concentrar para pesquisar, estudar e, a partir disso, escrever. No entanto, a aula e o texto publicado nos tiram da solidão e nos colocam em diálogo com o mundo. Pessoalmente falando, gosto tanto dessa solidão quanto do encontro entre os quais escolhi organizar a minha vida. Por defender o diálogo, não me espanto com outras visões de mundo, com as linguagens que discordam da minha. Vejo o mundo com lentes: a adorniana, crítica; a wittigenteiniana, com as quais observo os “jogo de linguagem”; a foucaultiana, com a qual analiso as formações discursivas; a feminista, com a qual desconstruo o quanto posso o capitalismo, a raça e o gênero. Não lastimo tanto o meu tempo. O ser humano, mesmo em sua pior forma ético-política, não me estarrece mais. Temos que enfrentar isso tudo sem idealizações e, ao mesmo tempo, com espírito de utopia.

Além do conceito de ridículo político, são cunhadas no livro outras categorias, a partir da análise da relação entre política e estética no cotidiano. Você introduz expressões como esteticamente correto, político vodu, madamismo, vida ornamental, ventriloquismo. Suas referências também são variadas, vão dos cânones literários e filosóficos até os quadrinhos, o cinema, a música pop. É tarefa da filosofia promover uma aproximação com o leitor leigo, com o senso comum? Por quê? Como a academia reage a essa liberdade crítica?

A questão do método, da metodologia e da epistemologia é fundamental na lógica proposicional filosófica. Os procedimentos filosóficos que vivem de triagem hierárquica de temas correm o risco de cair no fundamentalismo acadêmico. Penso que todo e qualquer tema pode e deve ser pesquisado, já que filosofia é invenção de conceitos, e não mera pesquisa na história das ideias. Os conceitos, por sua vez, estão dados na vida e não apenas nos livros: cabe ao filósofo ler o livro do mundo e não apenas os livros das bibliotecas. Eu me esforço por conhecer os dois. A questão do “esteticamente correto”, por exemplo, não está em nenhum livro, mas a criei a partir de um filme citado no livro. Creio que possa ser um conceito importante no contexto da relação entre estética e política, e entre estética e ética. Para mim, fazer filosofia não é seguir um padrão legal ou de fundo teológico em relação a conteúdos e formas dadas em livros apenas. Por isso, posso pesquisar em outros documentos da cultura que vão de filmes a mensagens escrita em muros. Estou sempre operando a partir de uma política da citação, da escrita, do discurso, e procurando alertar para o diálogo como procedimento e para a “dialogicidade”, para o convívio das diferenças discursivas, como um dado da vida. É importante, para mim, não citar apenas filósofos do cânone tradicional eurocêntrico, mas também mulheres, negros, latino-americanos, artistas, extra-acadêmicos e eventos da vida, em busca de um pensamento livre que possa dar conta do meu tempo.

A riqueza de um pensamento ou de um conceito pode estar naquilo considerado o lixo cultural de uma época, por isso também me ocupo com os temas rejeitados, com as fontes rejeitadas. Na tentativa de fazer uma filosofia da cultura brasileira, não posso abandonar os fenômenos concretos da vida cotidiana – inclusive o que se coloca como discurso no mundo da vida e no mundo da mídia. O próprio conceito de cotidiano não é trabalhado com a devida intensidade em termos de filosofia. Mas isso não quer dizer que não devemos trabalhar em sua teorização crítica e criar o campo do pensamento vivo, relacionado ao existir concreto – grandes filósofos como Aristóteles, Kant e Nietzsche, Sartre e Beauvoir fizeram isso. Alguém pode citar algo mais cotidiano do que a linguagem? Ou seja, há distinções muito falsas que precisamos desmontar. Tento trabalhar no campo das coisas que nos afetam e que não são pensadas reflexivamente ou criticamente justamente para pensar até as últimas consequências. Talvez eu viva reescrevendo uma “Minima moralia”, como fez Adorno (sobre quem fiz mestrado e doutorado há muito tempo), mas dentro dos sinais da minha época, aqueles que minha sensibilidade me permite ver.

Como “Ridículo político” se insere dentro da sua obra ensaística? E como esta obra ensaística e filosófica dialoga com a sua produção ficcional? Haverá ridículos políticos no seu próximo romance, por exemplo?

“Ridículo político” tem relação com “Como conversar com um fascista”, esse título irônico que teve muitos leitores até agora. Trata-se da mesma tentativa de colocar em questão um problema político que nos atinge a todos. Gosto especialmente da sua pergunta porque, de fato, meus ensaios têm, cada vez mais, dialogado com a minha produção ficcional. Em “Uma fuga perfeita é sem volta” (Record), meu personagem Klaus se confronta com um mundo de preconceitos estruturais desde a infância até a vida adulta. Ele mesmo é vítima de uma ordem sexual, de gênero, social e política, que não deixa espaço para a singularidade. Além disso, ele é vítima de um mundo em que a incomunicabilidade é estranhamente partilhada por todos. A questão do ridículo aparece nesse livro também. A vergonha de si é um sentimento que caracteriza Klaus, ao mesmo tempo em que ele sente muita vergonha alheia. Eu diria até que escrevi “Uma fuga…” com a intenção de elaborar a questão da vergonha. Por isso, ambientei Klaus em Berlim e fiz com que ele vivesse esses restos de autoritarismo em uma sociedade que tem que se haver com seu passado fascista e nazista, uma herança simbólica de algum modo existente no Brasil. Do mesmo modo, Klaus se relaciona com a vergonha imensa da sua bastardia e da ditadura militar que ele deixou pra trás. Em meu próximo romance, o feminismo entrará em cena, com peso. Ele é também tema do ensaio que estou preparando para o próximo ano.

Apesar de tudo, você não é pessimista em sua investigação, que aponta ousadias estéticas como a do pichador de rua e de uma artista como Valesca Popozuda (com o seu “fake autêntico”) como uma espécie de caminho. O livro, ao propor uma reflexão que ajuda a “revelar” a nudez do rei (como no conto de Hans Christian Andersen), é também uma resposta/proposta, política e estética?

O livro é uma crítica da moral burguesa e da estética burguesa (o cafona, o madamismo, o ipanemismo e todos os seus derivados) que, unidas, afetam intensamente a política na esfera social ou institucional. Podemos dizer que outras formas de estética são outras formas de política, e outras políticas implicam outras estéticas. Escrevi pensando não apenas em uma exegese da sociedade, em interpretar ou mostrar como as coisas funcionam: eu queria desconstruir, para poder apontar para novos caminhos. O conceito de ridículo político, portanto, nos obriga a pensar no que não é ridículo. Ou seja, ele nos leva a pensar nas novas vanguardas que são completamente diferentes do que conhecemos até aqui. E nos faz pensar que, se nossa sensibilidade não está preparada para a estética do nosso tempo, também não estará preparada para a política.

Você acredita numa politização da arte, e também da literatura, como resposta à estetização da política (que passa pelo filtro dos publicitários e se insere na era do espetáculo)? Por quê?

Trabalhei com a hipótese de que, se não politizarmos a arte, acabaremos por sucumbir de vez à estetização da política, solta em nossa sociedade do espetáculo, esta que cultua a imagem como deus, como capital. Esta mesma que tem no ridículo político, mascarado de esteticamente correto, a sua forma atual. Ao mesmo tempo, a politização da arte não deve ser confundida com seu aparelhamento estético. A libertação estética é política, e vice-versa. Todos os preconceitos têm um dado estético: o racismo, a xenofobia, o preconceito de classe, sexual, de gênero e qualquer um que venhamos a citar têm uma forma estética. Isso é o que podemos superar pela consciência dessa relação. Esse é o esforço do meu livro.

Entrevista por Marta Barcellos

 

RIDÍCULO POLÍTICO
Marcia Tiburi
Páginas: 238
Preço: R$ 39,90
Editora: Record/Grupo Editorial Record

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