‘Anaïs Nin – À flor da pele’ conta a trajetória da escritora de literatura erótica feminina em sua busca pela liberdade e emancipação

Em um recorte temporal que vai de 1931 a 1937, dos Estados Unidos à França, o espetáculo abarca os duplos da tempestuosa mulher que se dividia entre esposa, amante e psicanalista, e lutava para se estabelecer como escritora.

 

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Foto: Joseph Karadeniz

No dia 19 de junho, segunda-feira, às 20h, estreia a peça Anaïs Nin – À flor da pele na Oficina Cultural Oswald de Andrade. O monólogo é encenado por Flávia Couto, que se inspirou nos diários íntimos e correspondências secretas da autora de “A Casa do Incesto” para retratar sua luta pela liberdade artística, sexual e emocional em meados da década de 1930. Em um cenário que remete ao “quarto de palavras” da autora, o público ouve as confissões e mergulha nas aventuras que se passam ora na provinciana Louveciennes (cidade a 30 quilômetros de Paris), ora na capital francesa ameaçada pela Segunda Guerra Mundial, ora na agitada e libertina Nova Iorque.

A relação incestuosa com o pai Joaquín Nin (músico e compositor cubano), a tediosa vida burguesa ao lado de seu marido Hugh Guiler e as aventuras amorosas com o escritor Henry Miller são alguns dos assuntos abordados. Fragmentado em episódios que se passam entre 1931 e 1937, o espetáculo também conta a relação interpessoal de Anaïs com o discípulo de Freud, Otto Rank, e sua experiência com a psicanálise que, segunda ela mesma, permitiu o nascimento do seu verdadeiro eu.

Por se sentir à sombra de homens que passaram por sua vida, Anaïs estabelece seu compromisso com a escrita e a ela dedica sua vida. “O diário me salva da loucura. Ele me mantém viva. E eu quero consagrar à escrita toda energia que me impulsiona para relações humanas insatisfatórias, porque a arte me preenche. Na arte eu encontro o absoluto. Eu gostaria de confiar inteiramente em seres vivos, mas chega sempre um momento em que os seres vivos estão preocupados, de mau humor, ocupados, desatentos e então o interesse se desfaz, o que jamais se produz com o diário. “

Em outro momento, afirma:  “Eu desafio o Homem. Um após o outro eu procurei um guia, um pai, um mestre, um homem. Eu tenho um marido, um protetor, amantes, um pai, camaradas, mas me falta ainda alguma coisa. Deve ser Deus. Mas eu detesto um Deus abstrato. Eu quero um Deus de carne e osso, encarnado e forte, com dois braços e um sexo. E sem defeitos”.

No palco, o corpo ganha a mesmo peso que a voz. Dirigida por Aline Borsari, a encenação contrasta texto e gestos inspirados no flamenco em um espetáculo que mescla a potência energética do sapateado da dança espanhola a momentos mais suaves da trama. A trilha sonora assinada por Juliano Abramovay acompanha a dramaturgia (do texto e do corpo), levando a diferentes espacialidades que compõem o enredo: a “sinfonia de celofane” da Broadway é contraposta com o jazz que nasce entre os negros do Harlem; a música de orquestra que simboliza o pai compositor se choca com o Flamenco, manifestação artística nascida de exilados, imigrantes e párias da sociedade, do qual emerge Maja, o eu lírico espanhol da autora. Ao longo do espetáculo, o público é transportado dos Estados Unidos a Paris, da vida livre ao cenário de guerra que se aproxima.

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Foto: Joseph Karadeniz

 

O processo criativo

Foi em 2011, quando estudava teatro físico em Paris, que Flávia Couto teve o primeiro contato com a obra de Anaïs Nin. Desde então, a atriz se debruçou sobre seus diários íntimos e cartas secretas, colecionando os fragmentos que iriam compor a primeira versão da dramaturgia da peça, em 2015. “Foi um resgate da minha força como mulher”, conta a atriz, que se admirou com a coragem da escritora em peitar a sociedade e não se delimitar em papeis.

O convite a Aline Bolsari (integrante do Théâtre du Soleil, França) para dirigir o espetáculo foi feito no mesmo ano. Além dela, outros artistas participaram do processo criativo da peça, como: Antônio Januzelli, que orientou a pesquisa de texto em conjunto com o sapateado; os atores Silvia Susy e Daniel Alberti, que colaboraram com sugestões; e Miguel Alonso, com o treinamento em flamenco.

Anaïs Nin – À flor da pele foi criada a partir de residência artística em Paris com a diretora e com o compositor Juliano Abramovay, em janeiro e fevereiro de 2017. O processo foi concluído com um ensaio aberto ao público no Théâtre Le Regard du Cygne, dia 11 de fevereiro de 2017.

Mais sobre Anaïs Nin                

Filha de compositor cubano e de cantora com ascendência cubana, francesa e dinamarquesa, Anaïs Nin nasceu na França, mas se mudou com a mãe para Nova Iorque logo que seus pais se separaram. A ausência do pai foi um dos principais motivos que a levaram, ainda adolescente, a escrever. Além de escritora, também foi analista. “A psicanálise fez eu descobrir meu verdadeiro eu”, afirma em seu diário, complementando que não havia se tornado uma verdadeira mulher e conquistado sua liberdade antes dessa atividade.

Ficou famosa pela publicação de seus diários íntimos, que narravam situações e temas polêmicos para a época, tais como as aventuras sexuais com amantes e o caso de incesto com seu pai. Polígama, foi amante de Henry Miller – que chegou a dizer que sua escrita “não era literatura” –, e só permitiu que seus diários fossem publicados na sua integralidade após a morte de seu marido Hugh Guiler, que considerava “um anjo”. Foi oficialmente bígama, ao se casar em 1955 com Rupert Pole, sendo ainda esposa de Hugh Guiler. Por ser uma mulher livre e persistir firme na defesa pelo seu estilo pessoal de escrita e espaço como autora, foi considerada uma referência para movimentos emancipatórios femininos.

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Foto: Joseph Karadeniz

Ficha técnica
Texto original: Diários íntimos de Anaïs Nin
Adaptação teatral, interpretação e figurino: Flávia Couto
Direção e cenário: Aline Borsari
Trilha Sonora: Juliano Abramovay
Preparação em Flamenco: Miguel Alonso.
Laboratório Dramático do Ator: Antônio Januzelli
Iluminação, músico e operação de luz: João Jorge
Figurino saia de flamenco: Aire Flamenco y Pasión
Produção: Flávia Couto e Maya Produções
Fotos: Joseph Karadeniz e José Rubens Moldero
Vídeos: Alexis Delabastita

Serviço
Anaïs Nin – À flor da pele
De 19 de junho a 12 de julho – segundas, terças e quartas, às 20h
Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro
Telefone: 3222-2662
Entrada gratuita, com retirada de ingressos uma hora antes.
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 60 minutos
Capacidade: 30 lugares.

Assessoria de Imprensa
Amaré Cultural
Isadora Bertolini – 9 9107 5651
Jéssica Stuque – 9 8582 0746
amarecultural@gmail.com

 

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Foto: Joseph Karadeniz

 

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