Aline Bei: tinha caído a ligação

 

Le lion amoureux (Fables de La Fontaine) (1929) – Marc Chagal

o que eu amo é a palavra – eu disse por telefone

para um amigo que

há tempos não conversávamos

e explicando pra ele sobre o porquê de não fazer mais Teatro

fui entendendo também em mim. ter um interlocutor

às vezes proporciona essas

reflexões que

sozinhos ainda não tínhamos tido, só pensado

bem de longe

no fundo de si mesmo e

de repente quando alguém pergunta Como você tá?

então a coisa

se Solta

ganha vida

nem parece que é a gente que está falando aquilo.

as peças que eu lia – contei pra ele – me davam muito prazer

eu amava olhar praquelas letras

grifar as minhas falas

ter frases pra mim que como atriz eu colecionava

pro personagem ter estofo

e então falar

a frase no palco

como se fosse eu que tivesse pensado aquilo

o texto era meu por algumas horas, depois

do mundo de novo,

e isso me dava uma alegria tão grande, eu tinha 18 anos. também amava segurar aqueles textos, levar eles pra casa

toda orgulhosa, me sentindo

finalmente importante, eu carregava Brecht, Beckett, Tennessee Williams

e lia aquelas peças maravilhosas a madrugada inteira.

entrar em contato com uma obra prima

sentir a sua força

perceber de repente que no mundo existem coisas tão belas e eu

não sabia,

seguia vivendo a minha vida como se só existisse o que eu já conhecia, o bule, a tv, o jeito da minha mãe,

mas quando eu li

édipo rei, por exemplo, que foi a minha primeira peça,  

aí eu entendi que

meu deus do céu, o mundo é enorme. Pessoas extraordinárias passaram por aqui

e deixaram coisas pra gente

desfrutar, aprender

a gente precisa ir atrás dessas coisas

incansavelmente.

e quando eu li Fernando pessoa pela primeira vez? claro, eu já tinha lido ele no colégio, já tinha achado diferente

um poeta dramaturgo

e aqueles personagens

escrevendo à sua maneira mas tudo saído da cabeça de uma pessoa só

e a obra convivendo entre si

como se fosse uma grande peça

com não sei quantos atos

claro, ali eu já tinha achado o Fernando um gênio. mas anos depois

eu entendi melhor

quando o diretor da escola de teatro pediu pra cada aluno da nossa sala trazer um poema decorado pra semana que vem e fazer uma cena.

advinha de quem eu fui atrás?

Dele,

era o poeta que eu lembrava ser o melhor

e eu não lembrava de muitos mais

tinha saído da escola há dois anos

e na minha casa nunca teve livro além dos meus, foi o teatro que começou a me fazer ler.

então eu fui atrás

do melhor poeta que eu conhecia

e mesmo hoje conhecendo outros, o Fernando continua entre os melhores. comprei um livro dele na banca

dessas edições pocket, sabe?

e li,

os poemas eram todos excelentes, aquele em linha reta um mantra

eram todos

excelentes

e cabiam na minha boca de uma forma impressionante

nem eu saberia dizer tão bem sobre mim.

mas tinha 1

teve 1 que

acabou comigo

e ainda acaba, era o tabacaria.

eu também tinha lido esse na escola, acho que até caiu no vestibular, mas não daquele jeito com tudo entrando me vestindo os órgãos cada dedo cada vírgula no seu lugar perfeito pra me matar de beleza, de compreensão, de

magnitude, de

profundidade, o que é isso? o que é

esse poema? Tabacaria não é um poema é uma língua

tudo o que um ser humano precisa saber de mais fundamental está lá

naquelas páginas. decorei o texto em dois dias

e fiz a cena.

ficou ótima, me lembro, não por mim, eu

era péssima.

foi boa porque meu amor finalmente escorreu

meu  corpo descobriu ali o que eu queria fazer pro resto da vida: brincar com palavras

fazer elas virarem

histórias, sons, frases que

confortem alguém que acabou de perder algo

ou que acabou de perceber que nunca teve nada. frases que perturbem

de um jeito que faz a pessoa agir

ou chorar

ou entender qualquer coisa que ela pense que entendeu, mesmo que no segundo seguinte a sensação de entendimento passe,

era isso que eu queria fazer pra sempre.

enquanto eu dizia o

tabacaria

os alunos me olhavam de verdade como nunca tinham feito, o diretor também

e eu senti

uma certeza profunda, naquela hora pensei que era sobre ser atriz

mas agora

anos depois

aqui

falando com você

percebo que não, não era o teatro. era a

Palavra.

é engraçado, né? com essas profissões todas que existem nas faculdades, quando somos jovens ficamos confusos. e às vezes

a nossa profissão não é uma ação

é 1 coisa.

a gente precisa de Tempo pra entender isso, pra entender quem somos,

às vezes parece que a seta está fortíssima apontando para um lado

e só o tempo

pode mostrar que não,

você não acha?

meus pais mesmo

eles falavam direto pra mim

que o meu caminho não era o teatro

mas eu

não ouvia

eu tinha certeza que era

e claro, tudo isso foi muito importante, viver o teatro foi

essencial pra mim.

( silêncio )

eu nunca tinha contado isso pra ninguém,

sabia?

 

 

 

alô?

 

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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