Aline Bei: insônia

 

the-boat-studio-1876

‘The Boat Studio’ (1876), de Claude Monet

ela caminha. quando me vê

estica até o máximo o tempo de não me cumprimentar antes que vire má educação.

então me cumprimenta

com o hálito quente

 

a tati não te chamou pro casamento?

 

-não – respondo calma. – ficamos mais próximas agora

e ela disse que era pequeno, o lugar, pra poucas pessoas.

 

-é,

eram pra poucas.

 

e ela me fala

mais duas ou três coisas

que não prendem a minha atenção

ao invés fico imaginando

a pele dela de manhã bem cedo

com o sono acumulado ao redor da boca.

outra vez que cruzamos, ela estava com o neto e não me viu, naquele dia

eu a senti um pouco mais real.  agora comigo é sempre essa máscara

sempre esses dois

degraus acima.

então ela diz tchau

e se afasta

deixando um rastro

invisível.

semana passada eu estava correndo na rua e

trombamos novamente, nossas casas são próximas (no peito uma vontade

de mudar

de bairro

pra nunca mais

vê-la

é pra tanto?) e ela me perguntou se eu estava correndo ali pra paquerar.

 

não – eu disse

depois contei pra ela

que comecei a lutar boxe.

 

– é mesmo? você?

 

sim, respondi, e mostrei meu jab

depois outro

no ar

no meio

da rua.

 

ela riu de um jeito que me fez parar.

disse:

 

– tudo isso?

 

e olhou para as minhas roupas.

lembrei de uma amiga que tive

com essa mesma energia

tudo ficava guardado no como essa amiga me olhava

também nos monólogos, eu a ouvindo sem vontade de responder

tampouco queria que ela parasse de falar

era penoso demais

o silêncio entre nós.

demorei anos

pra sair dessa amizade

na época eu não tinha certeza do que eu sentia

às vezes pensava que era um sonho

a opressão, que eu estava

exagerando

e à noite quando eu fechava o olho

era o rosto da minha amiga que eu via. é difícil

existir alguém que de verdade nos queira

bem, as pessoas não se gostam

se suportam. as pessoas se machucam

e é sutil, parece um vento gelado

na nuca

parece um jogo

de olhar pra trás pensando que viu algo

era um gato?

 

 

(a rua vazia)

 

 

então você volta devagar

a cabeça

mas aquela sensação de alguém nas costas não passa.

houve um tempo que

eu até tive

uma amiga que se importava comigo.

mas agora

ela não está se sentindo bem, está triste e quer

morrer, eu adoraria que a nossas conversas fossem como antes pra eu dizer pra ela Pare, a vida é uma pizza

a gente vai de um pedaço pro outro, são

fases, eu ia dizer

no jantar que combinamos

mas em cima da hora ela me avisou

que estava com

 

cólica (eu acho

 

que era Mentira.

 

eu acho que o esforço pra me ver

seria muito grande

ela prefere constantemente estar sozinha).

 

o hálito das pessoas que vem falar comigo

é parecido. se aproximam

penso que elas querem uma conversa amena

oi, tudo bem?

eu digo tudo

e imagino

que teremos ali

alguns minutos prazerosos de contato.

de repente elas me pedem

um dinheiro

ou querem o número

daquele cara que estava conversando comigo ontem,

o Jorge?

de repente elas perguntam

por que eu me visto daquela maneira

ou pior, apenas olham

sempre parecido

esse olhar.

então eu me sinto

tão distante daquele corpo falando comigo, é como se nascesse um deserto entre nós

e eu vejo

lá no fundo

alguém minúsculo

me acenando não sei

nem se

é Humano, mas quando eu coloco a cabeça no travesseiro

fica na fronha o rosto

dessas pessoas, eu

esmago tentando

 

dormir.

 

alinebei

 

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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