Aline Bei: esquecemos do disco

 

‘Stepping Out’, por Roy Lichtenstein

 

quando perguntei o preço do cd ele disse 15 de um jeito enroscado como se

não quisesse dizer.

tínhamos nos conhecido há meia hora

e o natural seria cobrar, claro, como se cobra um remédio na farmácia

ou um livro quando o autor não está.

15,  ele disse, mas alguma coisa em nós

já estava estabelecida

um rio de intimidade que, não nego,

me incomodou pela rapidez com que nasceu. como podíamos ficar tão a vontades um com o outro sendo que tínhamos acabado de nos conhecer?

ele puxou o violão, começou a cantar.

meu amigo disse:

 

-ele é um caetano, um lenine.

 

a voz dele me levou pro colo

da minha mãe.

enchi a xícara de café. derrubei

um pouco no balcão.

desculpa, tem um pano?

Ninguém me respondeu.

antes desse cara aparecer

eu estava conversando com o meu amigo sobre moto, a moto que ele tinha

e que estava no conserto,

quando detrás do sofá surgiu esse homem

feito um bicho.

 

– ele mora comigo – meu amigo disse. – é gringo,  não entende 1 palavra em português.

 

 

e o cara me olhando

como se fosse de outro

planeta

com um quê de ingenuidade típica dos bebês.

eu sabia

que aquilo era uma cena

e mandei os dois pararem com isso.

eles sustentaram a história

por mais um tempo

até que sozinha a brincadeira se

desmanchou.

então o cara pegou o violão e começou a cantar, foi quando eu ouvi

a voz que me levou pro colo

foi aí que eu perguntei

o preço do disco

você tem aqui?

 

-tenho.

vou cantar outra música pra você

antes de pegar. (percebi que ele estava querendo

ganhar tempo

para que criássemos ainda mais

intimidade

que transformaria esse Nós em um lugar seguro pra ele me dar o disco ao invés de vender, sem desvalorizar a arte dele,

mas sim como uma troca

tão justa quanto o dinheiro, um disco por um momento de escuta reflexiva como eu estava fazendo ali)

 

 

o telefone do meu amigo tocou.

 

a minha moto ficou pronta. – ele disse animado, desligando.  – vou dar um pulo lá na oficina, tudo bem se vocês ficarem um pouco sozinhos?

 

claro – eu disse – vai lá.

 

meu amigo foi e na sala nasceu um silêncio sem peso.

então o sujeito começou a me contar

da sua vida nômade

ele que já tinha morado até na china.

 

– imaginando? que você estava na china?

 

-não, eu fui mesmo pra lá. um voo longo o mais longo do mundo tão

longo que

me acostumei a voar.

quando saí do avião, andando pelo aeroporto,

estranhei usar os pés.

 

ele falava lentamente

de uma maneira que dava pra

degustar cada sílaba.

 

-é o ácido que te deixa assim?

Não-  ele disse rindo da

impossibilidade de ser o ácido.

– desculpe, eu não entendo nada de drogas.

– tudo bem.

 

fiquei fazendo

carinho no gato que estava ali

no sofá.

 

-é seu?- perguntei.

-ele não é de ninguém. está aqui, apenas.

como eu e você.

 

o gato cedeu ao meu toque

e eu comentei

exatamente disso,

 

olha como são os bichos, a gente os toca e eles se abrem, aproveitam o momento.

quando acaba

não nos cobram nada. já uma pessoa

quando a tocamos

ela cria uma ligação conosco

e coisas começam a serem cobradas a partir disso

como atender o telefone

e estabelecer um relacionamento

pode ser de amizade ou de amor, mas há cobrança, o ser humano precisa dar nome aos bois.

agora com bicho a liberdade é total

nem existe a palavra liberdade. a partir do momento que precisamos da palavra é sinal de que a coisa em si ainda não é forte o suficiente pra pulsar sozinha.

 

ele balançou a cabeça concordando.

continuei.

 

sabe que

às vezes eu duvido do meu toque? não sei se meu carinho é bom. acho que é porque eu não tive carinho na infância e também minha mãe nunca me deixou tocá-la, entre nós duas era sempre algo pra fazer

nunca um não fazer nada e se tocar, apenas, e isso me fez falta. agora eu não acredito mais

no meu toque.

 

-vem cá. –  ele disse esticando o braço. – faz um teste em mim.

 

sentei mais perto

e comecei passear os dedos

nele e também no gato

nos 2 ao mesmo tempo

como faria um maestro.

aquilo

durou alguns minutos.

quando parei ele abriu os olhos

o gato seguiu dormindo.

 

-preciso ir agora. – eu disse levantando.

 

senti que ele quis me dizer não vá

mas se lembrou

da minha fala sobre tocar uma pessoa e o compromisso que vem logo depois disso, especialmente quando o toque é bom.

se segurou. me levou até a porta.

 

-tchau.

até. – eu disse

 

e desci as escadas.

meu celular

começou a tocar na bolsa

me senti uma caixinha de música ambulante

não virei pra trás.

na rua,

quando eu olhei o telefone pra ver quem estava me ligando

era aquele maldito número

que me liga direto

e quando eu atendo

a pessoa simplesmente não responde.

 

então por que você me liga? – um dia eu perguntei

sem saber se aquilo era um ser humano

ou uma máquina

e por um segundo pensei que tinha escutado algo no inaudível como Porque com você eu converso pela respiração, mas

duvido,

acho que

não ouvi nada mesmo.

 

alinebei

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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