Santiago Santos: Do dia em que a menina bonita morreu

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O velho bufa enquanto carrega o saco nos ombros. Ele bufa tanto que tem que parar algumas vezes no caminho pra só respirar, o peito balançando um monte. Ele escolhe um lugar debaixo da árvore, uma árvore de copa gorda que não sei qual é, nunca sei os nomes das árvores.

Ele volta pro prédio e pega a pá que tá encostada na parede, é ali que a gente sempre deixa a pá porque sabemos que vamos ter que usar cedo ou tarde. O velho tá triste porque quem morreu agora foi a menina bonita. Ele gostava muito da menina bonita. Não desse jeito que as pessoas costumam pensar. Ele gostava dela porque ela se cuidava e cuidava dos outros. Ela cortava o cabelo com uma tesourinha de unha que achou num dos banheiros. Ela lia pras crianças, quando ainda tinha outras crianças. E ela gostava de cantar, o velho sempre pedia pra ela cantar. Muitas vezes ela cantava fazendo carinho no meu cabelo, enrolando os dedos nos cachos, e eu gostava e dormia e sonhava com a minha mãe. Eu não lembro do rosto da minha mãe e sempre achava que era o rosto da menina bonita.

O velho tá triste. Muito triste mesmo. É difícil ver ele triste assim. Ele tá sempre bravo. Mas isso é outra coisa. Ele tá bravo porque não entende o que aconteceu, e não entende por que as pessoas são tão assim filhas da puta e fazem umas coisas tão absurdas. Aliás, ele diz que não entende, mas acho que entende, é por isso ele que fica bravo.

Quando eu cheguei, a menina bonita ainda não tinha chegado. As pessoas foram chegando aos poucos. E primeiro elas ficavam na recepção do prédio, e o velho conversava com elas durante vários dias, e só depois que confiava nelas deixava entrarem pra parte boa, a parte onde tinha comida, que a gente plantava tomate e a gente esquentava a água da chuva e guardava numas garrafas de plástico. Ele disse que eu fui o único em quem ele confiou no momento em que me viu. Eu cheguei e já fui direto pra parte boa.

O velho diz que sempre morou aqui, que o lugar é dele. Mas eu sei que não é verdade. Sei que uns cientistas moravam nesse prédio, porque já vi fotos deles nas gavetas, e vi umas pastas com os nomes estranhos deles nas estantes. Não sei o que o velho fez pra mandar eles embora. Ou se foram embora sozinhos mesmo e ele tá contando a verdade. Mas não sei mais. Ele nem sempre me conta a verdade porque quer me proteger das coisas. Já falei que não sou criança mas não adianta.

O velho termina de cavar o buraco e joga o saco lá dentro. Ele pede pra eu buscar o livro que ela sempre lia lá no quarto, e eu vou pegar, e ele pede também pra trazer o gordo, que é um homem que fica sempre chorando num canto da cozinha, mas ele cuida da plantação como ninguém, então a gente não enche o saco dele, e eu chamo ele com o livro embaixo do braço e a gente vai andando lá pra fora, e quando saímos o velho já tá com uma garrafa na mão, rum que ele achou e tava guardando. Ele pede pra eu buscar o Toninho também, que é um passarinho que quebrou uma das asinhas e nunca colou direito e ele nunca mais voou, imagina como é triste prum passarinho não voar. E nos reunimos ali antes dele jogar a terra de volta no buraco. E ele lê um pedaço da história.

É uma das histórias de um ursinho muito sapeca chamado Pooh, que adora comer mel. Eu tenho muita curiosidade de comer mel, o velho me disse que mel é uma coisa bem doce e gosmenta, e se eu tiver sorte um dia a gente ainda vai encontrar mel. E ele lê, ele é o único que consegue ler, e dá pra ouvir o choro na voz dele embora eu não veja nenhuma lágrima.

Ele passa a garrafa pro gordo, que dá um gole e me passa. Eu tomo um gole, dá vontade de cuspir e vomitar porque queima tudo mas o velho me olha e eu não faço nada disso. Jogo um pouquinho na minha mão e o Toninho dá uma bicada mas uma bicada só.

O velho fala pro gordo que ele vai ter que cuidar das coisas por aqui sozinho, ele e o Toninho, e que ele vai ter que chorar menos e trabalhar mais, e que se tudo der certo a gente vai voltar logo, que ele vai comigo pra longe buscar alguma coisa, mas ele não fala que coisa é essa, e diz que o gordo não pode deixar ninguém entrar, ninguém mesmo, nem se a pessoa chorar, nem se for uma mulher grávida, nem se for um velhinho ou um neném, ninguém, que ele não tem discernimento pra saber quem pode entrar ali, e se a pessoa entra e é ruim vai matar ele e trancar tudo e nós dois que tamos de fora vamos morrer também e ele não quer isso, quer? O gordo balança a cabeça.

Arrumamos as nossas coisas numa mala, que na verdade vai bem mais cheia das garrafas de água, e ele diz que a gente vai de carro, uma caminhonete velha que ele vai ligar de vez em quando pra dar umas aceleradas. Diz que o tanque tá na metade. E que a gente vai rodar até onde der e sifonar gasolina de outros carros. Eu não sei o que é sifonar mas deve ser emprestar. E eu digo que tudo bem, que se é o que ele quer a gente vai fazer. Ele diz que é o que ele quer sim.

Na estrada ele assovia uma música, uma música que a menina bonita sempre cantava. Tá vendo como o velho mente? Ele sempre me disse que não sabia assoviar.

santiago santos

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