Aline Bei: Primeiro Rio

 

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Bowl of Goldfish, de 1912. Arte de Frederick Childe Hassam

ela levantou o vestido

abaixou a calcinha e

sentou no vaso.

 

o xixi escorreu

 

mais denso do que de costume.

ela se secou e

no papel o sangue

que dia é hoje? ela pensou

olhou no celular.

pegou um pacote de absorvente na gaveta,

abriu e grudou

aquele barco anatômico na calcinha.

por que será que nas propagandas de absorvente o líquido que eles despejam pra mostrar que o produto aguenta

é azul?

um líquido vermelho ficaria muito forte para as pessoas que estão assistindo?

o que uma mulher vê saindo do próprio corpo

ela não pode ver também na tv?

e pensar que antigamente, a mãe da greta que conta, as mulheres usavam paninhos. depois lavavam no tanque, as mais endinheiradas jogavam fora,

o lixeiro pegando

podia pensar que alguém se machucou. engraçado

sangrar sem doer, a mulher.

dói a cólica

mas dói diferente da dor das coisas que sangram.

na cólica parece que tem uma

mão por dentro revirando tudo, mas não é dor de corte,

a anatomia da mulher já tem um corte

dividindo a carne da buceta como um sanduiche. a cor do sangue menstrual também é diferente, amarronzada, mas não dói

nada dói

e a greta ergueu

a calcinha. lavou as mãos. se encarou no espelho por alguns instantes. a primeira vez que menstruou ela tinha 11 anos

e estava com um rabo de cavalo igual a Britney Spears

que ela tinha visto na MTV.

ela queria ser a Britney

mas ser a

Britney

era tão diferente de ser ela mesma. então a greta colocava pó no rosto

pó de arroz da mãe

ela pegava escondido e passava

pra treinar as coreografias, a menina ficava parecendo um fantasma.

nesse dia

pulando e dançando na saleta perto dos quartos, ela

sentiu um algo descendo de uma vez só

 

Ploft.

 

correu pro banheiro, o melhor lugar do mundo pra tentar entender o nosso corpo quando coisas inesperadas acontecem com ele e

abaixou a calça

já manchada de sangue, seu rosto esquentou.

a vida inteira

a mãe dela tinha dito que

quando ficar mocinha você vai ver só o que é ser mulher

e aquilo

de ser mulher

parecia difícil

e confuso

será que agora eu não vou poder mais dançar Britney? e vou ter que fazer coisas como a minha mãe faz o dia todo varrendo

lavando

servindo as

pessoas da família?

 

Mãe. – ela gritou.

 

a porta do banheiro estava fechada

a casa um sobrado

a mãe trabalhando na lavanderia não ouviu.

 

-Mãe,

ela gritou de novo

 

abrindo a porta

saindo do banheiro, andando pelos corredores com a calça arriada

os olhos molhados, o medo

do desconhecido, ali a mãe ouviu.

largou os lençóis no tanque e correu pra ver.

 

que foi filha?

meu deus greta, levanta essa calça

olha os moços lá embaixo a janela tá aberta.

 

e de fato os homens

que trabalhavam no jardim

estavam olhando

praquela bunda de

11 anos

que já tinha jeito de bunda adulta

inclusive lembrava muito

uma bunda adulta

eles

não puderam deixar de notar.

a mãe subiu as escadas, a menina não subia as calças,

estava em desespero

no carpete uma poça

aquela mancha nunca mais saiu porque secou.

a mãe foi tirando

o chinelo

ao mesmo tempo levantando a calça da filha

e dando umas

na menina

que aquilo era uma pouca vergonha. os homens trabalhando no jardim continuaram de olho

até o fim do que sobrou pra ver, até a mãe levar a filha pro banheiro de novo.

a greta chorava

copiosamente, assustada com seu dia de caça.

no banheiro a mãe trancou a porta, os olhos vivos.

ligou o chuveiro

mandou a menina tirar a roupa. depois do banho ela ensinou a greta a colocar o absorvente na calcinha,

 

– tem que grudar bem as abas pra não vazar. assim, tá vendo? como um barco.

 

naquele dia mais tarde

a mãe levou a menina no

carrefour. disse:

 

-nós precisamos comprar algumas coisas pra você.

 

a greta ali

adulta no espelho

não lembrava de tudo que elas compraram naquele dia.

mas lembrava de um roupão

e da mãe dizendo

 

-agora que você menstruou não pode mais ficar pelada na frente do papai.

 

por que? ela quis perguntar, mas sentiu que

tinha a ver

com os moços do jardim.

no seu primeiro banho de mulher, a greta vestiu o roupão como se o tecido daquilo fosse de seda. com ele

ela se sentiu uma pessoa importante

pensou que não era tão ruim assim ser mocinha, acho que foi aí

que os peitos da greta começaram a crescer. e toda vez que ela menstruava eles inchavam de um jeito, pareciam duas mangas

despontando.

 

alinebei

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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