Marcelo Flecha: O indelével efeito da invisibilidade

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Depois dos mil quilômetros de estrada, e da alegria singular com que o Grupo Pavilhão da Magnólia nos recebeu, já se passaram seis dias e chegamos à metade da nossa ocupação do Centro Cultural BNB de Fortaleza, concluindo a oficina de dramaturgia, três apresentações de Velhos caem do céu como canivetes e seus respectivos debates, a exposição do figurino que o Chico Coimbra fez para a performance Literatura Viva e o lançamento do meu livro.

Nosso projeto de ocupação dialoga diretamente com a atual conjuntura cultural brasileira, no que tange a dificuldades, desafios, superações, e a urgente necessidade de desenvolver estratégias de gestão e sustentabilidade. Prova disso foi o nosso deslocamento por via terrestre – de carro e reboque –; a assimilação progressiva da aridez do espaço de apresentação, pouco propício para espetáculos de teatro; o ajuste no orçamento, procurando realizar o maior número de atividades no menor espaço de tempo; e a extensão da jornada para outras paragens, tema da postagem de domingo que vem.

O momento é de observância, prontidão e diálogo. E é no diálogo que percebemos o escárnio com que os poderes públicos estadual e municipal tratam os grupos de teatro de pesquisa do Maranhão e de São Luís – não vou falar do poder público federal porque, além de não mais existir, venho reiterando esse desmonte constantemente nas postagens anteriores. Em diálogo com os queridos amigos do Pavilhão, fiquei estupefato com o número de instrumentos de políticas públicas estaduais e municipais que contemplam os grupos de teatro do estado: editais de ocupação de espaços, de manutenção de grupos, de pesquisa continuada; são tantos e tão variados que não conseguiria quantificar nem qualificar, pois me foi impossível reter em uma conversa a diversidade de opções e ofertas que protegem o pensamento teatral e sua difusão no estado do Ceará. O curioso é que a classe continua a reivindicar e exige uma atenção permanente, certos de que o que está posto ainda não é o suficiente para garantir uma política pública cultural de qualidade para o teatro de grupo.

Fiquei assombrado. Levando em consideração que a Pequena Companhia de Teatro, nos seus 11 anos de trajetória, nunca recebeu do governo estadual ou municipal um único aceno, seja ele por qualquer instrumento de democratização de políticas culturais que não sejam as famigeradas leis de incentivo – que bem sabemos são um equívoco, e vêm sendo questionadas em todo o país há mais de duas décadas – me fez enxergar o óbvio: o quanto estamos distantes de um mínimo de dignidade. Lembrado que falo de dentro de um grupo que já circulou por 67 cidades de 25 estados, participou dos principais projetos de circulação do país, montou 4 espetáculos, ganhou 4 prêmios Myriam Muniz de Teatro e tem sede própria viável com os mais diversos projetos de formação e difusão; o que dirá um grupo jovem que pretende se firmar no seu fazer? Por essa década passaram prefeitos e governadores de todos os tipos e a receita sempre foi a mesma, ignorar, como já falei aqui.

É lamentável. Confesso a vocês que preferia não ter tido a conversa com o pessoal do Pavilhão. Preferia continuar achando que os outros estados estão tão lascados quanto nós, no que se refere a garantir um mínimo de dignidade para um setor que é responsável por auxiliar a manter viva a dignidade humana.

Isso reforça o nosso atual e árduo caminho: aguçar a visão estratégia, refletir sobre sustentabilidade, alargar o diálogo com o país, estabelecer parcerias, reivindicar o óbvio; pois sabemos, há mais de uma década, que no que ser refere a políticas públicas municipais e estaduais, estamos sós.

Claro que não poderia deixar de fazer aqui o mea-culpa: se o estado do Ceará e Fortaleza têm esse olhar para o teatro de grupo foi por uma permanente vigilância da classe artística local, por lutas reivindicatórias constantes, por um poder de enfrentamento respeitável, por uma disposição para o confronto, por uma consciência de união entre os diferentes quando necessário, por uma classe que entende que se não for na bruta, o respeito para com a arte não acontece.

Nesse sentido, pouco fiz. Sempre acreditei que se estabelecêssemos um trabalho sério, honesto, comprometido, bastaria para que o poder público percebesse que a nossa invisibilidade corrobora significativamente para a formação de cidadania, e, por consequência, para o próprio governo, mesmo que a nosso intensão seja apenas contribuir para o desenvolvimento do nosso estado. Doce ilusão. A história prova que o caminho das conquistas são o confronto e a reivindicação.

A única vantagem é que nada muda. Como nunca tivemos políticas públicas culturais, tudo continua como sempre foi, e como era quando decidi que viveria de teatro, nem que fosse na marra, quase trinta anos atrás, independentemente do político da vez. Só faço teatro porque não entendo o mundo.

Marcelo Flecha

 

Livre Opinião – Ideias em Debate
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