Santiago Santos: A busca onírica de Alberto Carter

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A primeira e única vez em que conversou com os sacerdotes Nasht e Kaman-Thah na caverna da flama, Alberto sentia uma coceira incansável nos dedos da mão direita. Contrariando suas recomendações, desceu os setecentos degraus até o Portão do Sono Profundo e adentrou as Terras do Sonhar.

Quando pisou entre os ramos retorcidos das árvores da Floresta Encantada, a mão latejava em carne viva. Os zoogs, seres pequenos e peludos com grandes olhos brilhantes, que não recusam um pedaço de carne humana quando ela se apresenta assim sem esforço, respeitaram a sua presença e deixaram que percorresse incólume suas trilhas iluminadas por fungos fosforescentes, dali até a grande rocha musguenta de tempos imemoriais que evitavam a todo custo e além. Em um dos círculos de pedra onde os zoogs costumavam celebrar e fazer sacrifícios, prestou respeito aos seus anciões, e afirmaram que ele só continuava vivo porque tinha o mesmo cheiro do seu antepassado, o cheiro do único humano respeitado na trégua entre os zoogs e os gatos de Ulthar depois da guerra. Ele aceitou um pouco do vinho de árvore da lua que ofereceram a contragosto e seguiu viagem.

Depois da floresta e da ponte de pedra que cruzava o rio Skai, Ulthar se erguia com suas ruas de paralelepípedos nas guinadas e curvas das montanhas, escondidas por casas de teto pontiagudo e chaminés entre edificações robustas de estuque depois dos pomares dispersos e das fazendas cercadas. Alberto viu as silhuetas dos prédios das universidades, encrustados como coroas numa sequência de picos à sua direita. Seguiu para o centro, num baixio onde o cheiro de temperos era cada vez mais forte e as ruas cada vez mais cheias de gente e de gatos, de todas as cores e tamanhos. Seu tataravô havia frisado muitas vezes que matar um felino em Ulthar era punível com a morte, e tratá-los bem era mais que uma cortesia; era formar alianças. Alberto sentiu a vontade que qualquer sonhador sente em sua primeira visita, a de partir dali para alcançar as cidades reluzentes escondidas depois dos oceanos, as terras de Lomar, Mnar, Leng e os jardins de Yin, de ver com os próprios olhos as ruínas amaldiçoadas de Sarnath ou de conhecer o rei Kuranes na majestosa Celephaïs. Mas sabia que sua incursão deveria ser breve.

Sentiu o toque direto nos ossos quando foi coçar a mão, o sangue pingando do cotovelo ao erguê-la para observar o estrago. Conversando com os feirantes e lojistas das praças, conseguiu o endereço de sua tataravó. Ela agora morava aos pés da Universidade Feminina de Ulthar, como o tataravô supunha, criando um pequeno rebanho de vacas e suprindo a instituição com leite fresco e queijo. Quando atravessou a porteira bamba e se dirigiu para o casebre, de onde saía um fio de fumaça pela chaminé, já havia perdido os ossos da mão. A mulher reconheceu o tataraneto assim que abriu a porta, mesmo sem nunca tê-lo visto. A aparência dela era a mesma das fotos, percebeu Alberto, os cabelos castanhos ainda intocados pelo branco. Ela o abraçou e perguntou o que havia acontecido com sua mão. Ele ignorou a pergunta e disse o que tinha vindo ali para dizer.

A tataravó ouviu o pedido, mas balançou a cabeça. Já não possuía mais a chave, e não a daria mesmo que ainda a tivesse. Disse que o seu tataravô, ainda que amado por muitos nas Terras do Sonhar, seguia odiado por aqueles que importavam: os deuses, desgostosos no castelo sobre Kadath, e ela não podia arriscar a fúria divina e a vida de tantos pelo capricho de um, que ansiava por pisar naquelas terras uma vez mais antes que a morte o levasse. Alberto disse que o velho estava desesperado. Tirou as botas e mostrou os pés chamuscados. Afinal ela entendeu e disse que viajaria pessoalmente para confrontá-lo. Selaram dois cavalos e partiram. Os zoogs lhes concederam passagem em troca dos animais, quando alcançassem o Portão. Subiram os setecentos degraus, atravessaram a caverna da flama e por fim venceram os últimos setenta degraus até o mundo acordado.

Ela abriu os olhos na poltrona de um quarto, onde o tataraneto dormia profundamente na maca enquanto o velho manipulava um fogareiro sob seus pés, a pele torrada, o cheiro insuportável. Todo o antebraço direito de Alberto tinha sumido, restando o cotoco enegrecido. Sentiu asco vendo a figura decrépita do antigo marido se virar, um olho fosco e sem vida, e a chamar pelo nome. Ele disse que sabia ser aquele o único método de trazê-la ali, e tinha urgência. Ela tentou se erguer e levantar as mãos mas estava paralisada. Ele a beijou, tirou o colar que adornava o seu pescoço, de onde pendia o rubi que havia escavado do monte Ngranek em seu caminho para Kadath tantas eras atrás, e enfiou a adaga entre suas costelas, até o cabo.

A dor pulsava e se alastrava quando ela viu, de pé no canto do quarto, os olhos como duas galáxias reluzentes, a silhueta do caos rastejante em sua forma humana, que havia visto uma única vez na juventude e que povoava seus pesadelos desde então. Seu antigo amor entregou o colar a Nyarlathotep e então pegou em suas mãos e juntos andaram alguns passos até sumirem. O banido Randolph Carter voltava às Terras do Sonhar, o que implicaria na destruição de Ulthar e de tudo que ela amava, e não havia nada que pudesse fazer exceto aguardar o gelo da morte e observar o legado moribundo da sua paixão estendido na maca.


Este drop é uma homenagem ao mestre do terror cósmico, H. P. Lovecraft, com foco no ciclo de histórias ambientadas nas Terras do Sonhar, e à reimaginação desse universo pela lente inventiva de Kij Johnson (The Dream-Quest of Unknown Kadath e The Dream-Quest of Vellitt Boe, mais especificamente).

santiago santos

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