Santiago Santos: Das formas de gestar um livro

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Senta aí, Roberval, puxa a cadeira. Que bom que você apareceu, eu tava ficando preocupado. Desculpa atrapalhar os planos com a família. É, eu sei, você comentou, aniversário da sobrinha. Mas agorinha você volta pra lá. Deixa eu só te contar essa coisa que tá trancando a garganta aqui e tá liberado. Quer um copo?

Então, o negócio é o seguinte. Escrevi um livro. É, outro. Mas nesse você é o protagonista. O personagem é você, tem a sua aparência, mora na mesma casa, tem a mesma vida, a mesma família, fez as mesmas coisas da vida. Só não tem o seu nome. Claro que eu não tô brincando. O livro vai ser publicado semana que vem. Não tem mais o que a gente fazer. Já saiu da gráfica, tão distribuindo. Porque me deu na telha, cara. Eu precisava tirar aquilo da cabeça, exorcizar aquela porra toda. Sabe o lance de “essa é uma obra de ficção, qualquer semelhança com eventos e pessoas reais é mera coincidência”? Tá lá. Mas achei que cê devia saber.

Ele faz. Faz exatamente o que a gente fez. Eu? Eu sou um personagem também. Sou o narrador. É. Sou eu quem guia o leitor até aquele terreno onde a gente enterrou o corpo. Sim, acho que dá pra descobrir onde é pela descrição. Não tô louco. Não quero ir preso. Aliás, se isso acontecer, porra, aconteceu. A gente não é inocente. Não dava pra segurar. Precisava tirar aquilo do peito. Eu sei, caralho. Eu sei que podia falar com alguém, fazer terapia, mas eu precisava jogar isso num livro.

Agora você tá ciente. Pro caso de alguém te abordar, te ligar, te importunar. Mas acho que isso não vai acontecer. Aqui, toma uma cópia dele. Pode pegar. Pra você tirar qualquer dúvida. Semana que vem ele tá nas lojas. Não tem como. Os principais jornais tão com cópias já, tem gente lendo pra fazer resenha. Não dá mais. Contrato assinado, não tenho poder nenhum. Tá feito.

Eu sei disso, Roberval. Eu pesei tudo isso que você tá falando. Era isso ou a morte, velho. Foi mais forte. Você é como um irmão pra mim. Sei que a gente não vai se rever depois disso, a não ser por acidente. Desculpa, sei que isso é fodido. Mas é ficção, todo mundo vai entender que é ficção. Não faz isso, não precisa apelar, tô tentando explicar numa boa. Calma. Calma.

Tá bom. Beleza. Brigado por ter vindo.

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O excerto acima foi só um aperitivo da linguagem que tô investigando, André. Por enquanto é a abertura do romance, talvez caia, vamos ver. O livro de Justo (o amigo) é lançado na sequência e nada acontece, vende pouco, repercute pouco, logo é esquecido. A narrativa é retomada anos mais tarde, quando a polícia identifica, naquele mesmo terreno citado no romance, o corpo desfigurado de Justo sobre o esqueleto do seu pai (que os dois mataram anos atrás, a trama principal do romance de Justo). Os fãs fazem a conta mais rápido que a polícia e começam a importunar Roberval, reconhecido como o protagonista. Roberval foge e descobre, pelos jornais, que é o principal suspeito. Agora, foragido, precisa arranjar provas para se inocentar e descobrir o que de fato aconteceu com o amigo, que não via desde aquele dia no bar. Ainda não sei exatamente o final, mas isso não me impediu de escrever quinze livros antes. Quero muito lançar com vocês, mas sei que esse vai numa linha muito diferente do resto da minha obra. Me avise se tiver interesse. Daqui a algumas semanas posso te passar algo mais sólido, a história tá fluindo. Mas preciso fechar isso o quanto antes pra pegar um adiantamento, tô com o aluguel atrasado e Maria tá ameaçando o divórcio de novo. Por favor, me responda assim que puder.

Um abraço,

santiago santos

Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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