Festival Literário de Extrema: Impressões sobre um evento feito para corações fortes. Por Alex Tomé

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O escritor Caio Fernando Abreu (Foto de Juvenal Pereira – 17/02/1987)

Ano a ano o Festival Literário de Extrema se consolida no importante mapa de festivais deste porte realizados no Brasil. Em sua quarta edição, o FLEX deu um novo salto em termos estéticos e políticos ao trazer o tema “Silêncio, solidão e outras tragédias” e eleger como homenageado o escritor Caio Fernando Abreu, além de contar com importantes nomes da literatura brasileira contemporânea como Carola Saavedra, Ramon Nunes Mello e J P Cuenca, entre outros. Realizado entre os dias 18 e 20 de agosto, o evento primou pela diversidade, reflexão e relevância ao dialogar de peito aberto com questões urgentes e atuais. Outro acerto notável do evento foi incumbir o escritor e crítico literário José Castello como mediador das mesas; discreto e arguto, Castello aproximou os autores do público provocando uma sensação generalizada de leve sensação de fome – literária – ao final de cada mesa.

Caio ‘escrevia para ser amado’

Paula Dib

A mesa de abertura prestou reverência a Caio F. reunindo a jornalista Paula Dip, amiga íntima do escritor e autora de livro e filme sobre sua obra, e Guilherme de Almeida Prado que adaptou o romance “Onde Andará Dulce Veiga?” para o cinema. O clima fraterno de reencontro trouxe à tona aspectos profundos da obra de Caio. Dip destacou três momentos determinantes na trajetória do escritor: a descoberta do vírus HIV, momento de transfiguração em que o autor passou a amar mais a vida, seu encontro com a escritora Hilda Hilst que o ajudou a encontrar sua voz lírica e sua viagem a Londres. Segundo ela, Caio “escrevia para ser amado”. Guilherme de Almeida Prado afirmou que Caio “foi o escritor da toda uma geração” realizando uma obra extremamente identificada com seu momento. Também muito próximo ao homenageado o cineasta relatou detalhes do processo criativo da parceria “a gente discutia o roteiro e ele não escrevia. Caio simplesmente se esquecia. O projeto só foi finalizado vinte anos depois”. Para ele Caio tinha uma capacidade única de rir de si mesmo; Guilherme citou frases emblemáticas do autor que denotam sua verve irônica seja sobre seu ofício “fazer jornalismo é como costurar pra fora” seja sobre a influência de Clarice Lispector “Ainda bem que ela morreu. Estava muito repetitiva”. Ele ainda ressaltou a coragem intelectual de Caio que não tinha medo do que escrevia e, portanto, não escondia seus textos.

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Paula Dip

Os dois rememoram passagens do escritor relatando as diferentes relações que Caio estabelecia com diferentes pessoas, demonstrando um artista que oscilava entre o otimismo e o pessimismo. José Castelo destacou quatro temas na obra de Caio: morte, solidão, amor e espanto. Dip validou os temas afirmando que a obra de Caio perpassa por “um deslocamento de certezas”; Guilherme sublinhou ainda sua “escrita aberta” que exige uma participação efetiva do leitor. A mesa, uma das mais divertidas da FLEX, terminou com uma discussão afetuosa acerca do tratamento final de Caio contra a AIDS. O autor confessou a amigos que “se sobrevivesse aquele ano poderia escapar da morte”.

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Guilherme de Almeida Prado, José Castello e Paula Dib

Caio ‘foi o escritor da toda uma geração’

Guilherme de Almeida Prado 

 

PROMESSAS E LEMBRANÇAS

A segunda mesa do evento intitulada “Promessas e lembranças”, contou com a participação dos escritores Ricardo Lísias e Ronaldo Wrobel. O autor de “Traduzindo Hannah” explanou sobre as variadas formas que o passado se espraia em sua escrita. Ele também refletiu sobre a elaboração de memórias simuladas dentro da literatura que acaba por embaralhar os limites entre ficção e realidade “criei um passado que se tornou verdadeiro”. Para ele cabe ao escritor redimir ou transformar o passado. Questionado sobre seu processo criativo o autor afirmou que escrever a primeira versão de um livro é a atividade menos prazerosa, destacando a reescrita como o esplendor do artista.

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Os escritores Ronaldo Wrobel e Ricardo Lísias, com mediação de José Castello

Em uma das aparições mais esperadas do evento em razão de polêmicas recentes, o autor Ricardo Lisias afirmou que a literatura é um gênero artístico que se afasta de algo (a realidade) pela manipulação da linguagem, não obstante o uso desse procedimento explícito “as pessoas se apegam excessivamente ao real. Não acredito em realidade. A ficção faz parte da realidade”. Lisias defendeu a literatura como forma de intervenção. Segundo ele “o mau leitor não é aquele que não pode ir à escola; este é um fenômeno que atinge vários níveis da sociedade, inclusive a mais letrada. É tudo uma grande perplexidade. As pessoas não dão chance para a arte e querem, a todo custo, que ela seja realidade”. Para Lisias o autor deve perder o controle do que se diz sobre sua obra. Sobre seu mais recente lançamento “Diário da Cadeia” afirmou que “a intenção era ridicularizar, criar um texto satírico”. Perguntado sobre os processos judiciais que sofreu ao longo de sua trajetória Lísias rebateu: “O dia em que um artista for condenado por sua liberdade de expressão é hora de deixar o país”.

As pessoas se apegam excessivamente ao real. Não acredito em realidade. A ficção faz parte da realidade

Ricardo Lísias

Abordando o tema “Rompendo o silêncio” os escritores e cineastas J P Cuenca e José Roberto Torero falaram sobre seus respectivos processos criativos. Torero vaticinou: “O escritor é aquele que não desiste, aquele que rompe o silêncio”, já Cuenca afirmou que “o silêncio está sempre no horizonte mais próximo”. “Silêncio para mim é viajar”, complementou. Os autores também discutiram o silêncio em tempos de internet ao afirmarem se tratar de um imenso desafio geracional ser produtivo após o surgimento da internet.

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Os escritores e cineastas J P Cuenca e José Roberto Torero, com mediação de José Castello

Para encerrar o primeiro dia do festival foi exibido o filme “Para sempre teu Caio F.” com a participação do poeta Ramon Nunes de Mello que defendeu o poder transfigurador da poesia e a liberdade da criação na arte e na vida. O poeta falou também sobre sua relação com o vírus HIV causando comoção junto ao público. Ao final Ramon apresentou uma tocante performance de seus poemas repetindo o mantra poético-político “A linguagem é o verdadeiro vírus”.

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O poeta Ramon Nunes de Mello

 

SEGUNDO DIA

O povo indígena é um povo do agora

Daniel Munduruku

Em uma das mesas mais comoventes do FLEX o escritor Daniel Munduruku exortou aos presentes que reparassem com mais fraternidade aos seus ancestrais “o povo indígena é um povo do agora”. Também professor, Daniel disse que escreve para crianças “a criança pensa circularmente como nós indígenas. O adulto pensa linearmente. É preciso martelar muito para desmontar”. Falando sobre educação Daniel propôs uma nova perspectiva no sistema educacional brasileiro “Aprendi com meu povo que educar é fazer sonhar. A sociedade pensa em sonho como algo do futuro. Aquilo que almeja, aquilo que deseja. Inventaram uma palavra pra isso: cronograma. Não vêem sonho como algo do passado. Nós não oferecemos para nossas crianças presentes. Oferecemos futuros”. Concluiu que “uma criança já é tudo que precisa ser. Não precisa ser nada quando crescer”. Concluiu sua participação o autor discorreu sobre o processo histórico no Brasil “Falta entender nossa própria história. Não vivemos nossa própria história. O espelho reflete o rosto e o que está atrás de nós. O brasileiro vê o indígena e o sentimento que ele cria é de rejeição. Nesse olhar do passado ele não se pertence, não se sente parte. Ele se sente branco e europeu”.

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O escritor Daniel Munduruku

Há uma diferença entre solidão imposta e a outra que você buscou. O mundo é feito pra nunca se estar sozinho. Dormir no porão e suportar a assombração do que é importante dizer

Carola Saavedra

Outra mesa que causou alvoroço no Festival foi o encontro entre Paulo Scott e Carola Saavedra, dois dos mais importantes escritores contemporâneos. Tratando do tema “Rompendo a solidão” Carola Saavedra disse que “há uma diferença entre solidão imposta e a outra que você buscou. O mundo é feito pra nunca se estar sozinho. Dormir no porão e suporta a assombração do que é importante dizer”. Para ela “são encontros de momentos solitários que criam um diálogo”. Já o gaúcho Paulo Scott fez fortes críticas às redes sociais “Um poeta não pode ser aprisionado por nada e estamos aprisionados pelo faceboook”. Scott que está às voltas com o processo criativo de um novo livro concluiu “É um momento de mistério escrever uma grande obra. O escritor se move em um mistério tão grande que não se sabe onde está. Cada livro sai de uma escuridão nova”. Recusando fórmulas fáceis e enveredando por debates espinhosos e profundos sobre a literatura contemporânea o Festival Literário de Extrema à cargo do valente Marcelo Spomberg e assessoria de imprensa de Marwio Câmera veio, definitivamente, pra ficar.

É um momento de mistério escrever uma grande obra. O escritor se move em um mistério tão grande que não se sabe onde está. Cada livro sai de uma escuridão nova

Paulo Scott

Festival Literário de Extrema

Paulo Scott e Carola Saavedra, com mediação de José Castello

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alex tomé

 

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