Em entrevista, Nei Lopes conversa sobre seu novo livro ‘Nas águas desta baía há muito tempo’

“Com a licença dos Ancestrais, dos Guerreiros abridores de caminhos — marítimos, inclusive — e de todos os orixás, voduns, inquices e encantados das águas.”

 

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CAPA: Vista da Baía e de parte da cidade, desde a Fortaleza da Laje, o Pão de Açúcar até o Outeiro da Glória / Fundação Biblioteca Nacional

 

Novo livro de contos de Nei Lopes, Nas águas desta baía há muito tempo, pela Record, é uma viagem por um Rio antigo e encantado, em cujas ruas, morros e praias circulam personagens como Valonguinho, o negro que virou santo.

O lançamento será no feriado de 7 de setembro, com roda de samba, na Livraria Folha Seca, no Centro do Rio, a partir das 14h.

TRECHO

— Dou a investigação por concluída, sua messalina de ébano! E para mostrar como a nossa polícia não é o que dizem, dou-te o prazo de 24 horas para que tu e todo o teu bando de urubus arrumem os panos de bunda, as tralhas, os cacumbus, e sumam desta baía maravilhosa! Que está empestada com a tua presença nojenta, corrupta, nefasta!  Vão pros cafundós do diabo, pros quintos dos infernos! (…)  Se não fizerem isso até amanhã, na hora agá, aquele navio lá, está vendo? É a fragata Defensora… Ele vai bombardear e arrasar e incendiar isso tudo aqui. E não vai sobrar nada nem ninguém pra contar a história.

O moço nem bem tinha entrado na lancha quando soou o disparo inconfundível da pistola prateada da minha comadre Maria-Angu. Foi no ouvido esquerdo, o do lado do coração; uma bala de prata. Como se fosse pra apagar, com nobreza, tudo aquilo que seus ouvidos tinham acabado de escutar.

NEI LOPES nasceu em maio de 1942, no subúrbio de Irajá, filho e neto de cariocas, o que deixaria marca evidente não só em sua ficção como nas letras da vasta obra como compositor de música popular. Aos 20 anos, ingressou na Faculdade Nacional de Direito. A partir de 1981, quase dez anos depois de ter trocado a carreira de advogado pela de compositor de música popular, publicou seu primeiro ensaio: O samba, na realidade… Depois vieram outros sobre questões da negritude, até que, em 1987, publicou sua primeira obra de ficção: Casos crioulos.

Após bem-sucedidas incursões pela poesia, lançou Dicionário BantoEnciclopédia da Diáspora AfricanaKitábuDicionário da Antiguidade Africana (Civilização Brasileira) e 20 contos e uns trocados (Editora Record). Em 2005 recebeu do governo federal a comenda da Ordem de Mérito Cultural. Em 2006 foi incluído no rol dos “100 brasileiros geniais”, em votação da revista O Globo. Recebeu em 2013 a medalha da Ordem de Rio Branco. Em 2016 ganhou o Prêmio Shell de Teatro pelas canções do musical Bilac vê estrelas, de Heloísa Seixas e Júlia Romeu, e o Prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo, por suas contribuições na literatura. Ainda em 2016, recebe o Prêmio Jabuti nas categorias Melhor Livro de Não Ficção e Livro do Ano com Dicionário da História Social do Samba (Civilização Brasileira), em coautoria com Luiz Antonio Simas.

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Nei Lopes (Foto de Hudson Pontes)

 

Leia abaixo uma entrevista com o autor realizada pela escritora Ana Maria Gonçalves. Parceria Grupo Editorial Record e Livre Opinião – Ideias em Debate

 

ANA MARIA GONÇALVES: Sinto que há nos seus contos uma grande contextualização, tanto geográfica quanto historiograficamente. O que vem primeiro, e como isto acontece: a vontade de contar a história de determinado lugar, e você cria uma situação para isto; ou vem primeiro uma história que você queira contar, e a partir dela escolhe uma “locação” adequada? Qual é o grau de interferência entre um e outro método?

NEI LOPES: O que tem acontecido mais é a vontade de contar a história e eu escolher o lugar onde ela vai se desenvolver. Mas no caso deste “contos da Guanabara”, tudo começou pela constatação enorme de ilhas e ilhotas existentes na nossa Baía. No meu trajeto, da periferia onde moro até a capital, isso um dia me ocorreu. E a ideia começou a tomar forma numa viagem de barca a Paquetá. Aí, busquei na memória e nos livros as referências: Lima Barreto na Ilha do Governador e estudando em Niterói; o maestro Anacleto de Medeiros em Paquetá; o episódio de João Cândido… Mas cravei, mesmo, a seta no alvo quando li detalhes sobre a Revolta da Armada, no fim do século 19. Aí, resolvi fazer desse evento histórico, a âncora (sem trocadilho) do conjunto de contos que escrevi.

Vários personagens pulam de um conto para outro, dando-nos a sensação de continuidade. Certa vez ouvi um crítico dizendo que escritores sempre escrevem a mesma história, começando em seu primeiro livro e terminando com o último, por mais que pareçam que os temas são diferentes. Você concorda com isto? Se não concorda, o que muda de um livro para outro? Se concorda, qual é a história que você vem contando desde sua primeira obra, e qual a importância que este livro tem dentro dela?

A  grande história que eu venho contando é a da exclusão do povo negro. Isso é o que perpassa toda a minha obra. E acho que venho conseguindo fazer isso sem lamúria, com picardia, com molho, com “suingue”. Afinal de contas, eu sou sambista; e isso para mim é fundamental. Tanto que já escrevi uma coletânea (“Vinte contos e uns trocados”, Record), toda passada no universo do samba, focando nas tragédias do cotidiano; e não deixou de ser um livro bem humorado.

Do conto Valonguinho, que você dedica a Luiz Antônio Simas e Zeca Ligiéro, retiro a seguinte frase: “- Como? Então a República vai condecorar um símio?”. Há vários heróis e heroínas negros/as espalhados/as pelo livro. Qual a importância de falar destas pessoas?

Ainda bem menino, eu já me sensibilizava com a invisibilidade do nosso povo; e com a ótica negativa com que eram mostrados os que apareciam um pouquinho. Eram “Blecaute”; ”Escurinho”; Gasolina”; “Jamelão”… Aí, comecei a colecionar recortes com figuras de negros proeminentes, que raramente eram brasileiros. Guardava dentro de uma caixa de papelão. Daí, meio século depois, a caixinha se transformava, simbolicamente, na Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana (Selo Negro, 2004)  e no Dicionário Literário Afro-brasileiro (Pallas), onde repertorio autores e personagens afro-descendentes. Tudo para mostrar que nós, de todo modo, existimos.

Há pelo menos dois contos (por favor, corrija-me se deixei passar algum), que fazem referência a Lima Barreto e seus problemas com o alcoolismo e loucura. Qual a importância de Lima Barreto no seu trabalho? Como manter a sanidade e a sobriedade com tantos anos de negligência para, como um país, tomarmos providências para remediar os males da escravidão e, consequentemente, do racismo?

Lima Barreto é e sempre será uma grande referência. Agora, sobre como remediar os males da escravidão, eu acho que o primeiro passo é mostrá-la como o grande crime contra a Humanidade que ela efetivamente representou; e o quanto  o chamado “mundo ocidental”  lucrou com ela. Eu escrevo livros sobre isso. Agora mesmo estou inteiramente dedicado ao segundo volume da História da África, em parceria com o professor José Rivair Macedo, da UFRGS. E, nesse volume, que enfoca o período que vai do século XVI ao XIX, isso tudo que eu disse acima fica muito claro.

Você descreve bem os cafofos, os cortiços, os botecos, os bares, as quebradas por onde andam seus personagens. Por onde andou Nei Lopes? De onde você vem e do que não conseguiu (ou não quis) ainda se livrar, e que vaza através da sua literatura?

A minha origem proletária, suburbana, mas profundamente carioca, é indelével na minha literatura. Soma-se a ele a minha vivência no mundo do samba, dos 20 anos de idade até ainda pouco.

O conto Lumiére du Feu termina com as belas frases: “Para que não se deixasse viva nenhuma fantasia. E não restasse nenhuma memória”. Quais são as fantasias e as memórias que devem ser aniquiladas ou preservadas, para que nos realizemos como nação?

A sociedade brasileira se nutre de muitas fantasias e mitologias. A “mestiçagem” brasileira é uma dela. E o “heroísmo” dos “pais da Pátria” também. E o conto foi inspirado numa figura real, conhecida como “Luz del Fuego”, que vivia nua, numa das ilhas da Baía de Guanabara, cercada de cobras, até que foi brutalmente assassinada. Tremenda metáfora, não?

O conto “Fuga e contraponto”, entre outros e entre outras coisas, fala dos males da tuberculose. Recentemente li em uma matéria, que citava o Rafael Braga, que o que mais mata nas nossas prisões, ainda hoje, é a tuberculose. Sabendo que as prisões continuam sendo lotadas com pretos e pobres, o assunto é bastante atual. O que mais, nos seus contos, que mesmo tratando do passado, são problemas atuais?

Quase tudo é atual, pois muito pouco mudou na nossa vida real da Revolta da Armada até hoje.

Qual a influência do músico Nei Lopes na produção do escritor, do historiador, do pesquisador? Já que você está completando 75 anos em 2017, com uma carreira sólida nessas áreas todas, poderia comentar um pouco do que você vem produzindo e o que mais vem por aí de novidade?

Até maio do ano que vem, tenho uma antologia das letras das minhas canções (sambas, etc), gravadas e inéditas, intitulada “Academia de Letras”, pois homenageia os Acadêmicos do Salgueiro, minha escola. Tenho o já citado segundo volume da “História da África” (o primeiro foi publicado este ano, pela Autêntica Editora); tenho um CD  intitulado “Rio, à toa – A alma hilariante do Rio”; uma reedição do livro “Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos”, de 2000; dependendo de patrocínio. Estou entregando à Record, que vai publicar ano que vem,  o romance “O preto que falava iídiche” (a saga de um sambista da Praça Onze que, na década de 30, vai parar na Etiópia dos falachas, judeus negros). E estou revisando outro, Agora serve o coração”, também histórico, passado na Baixada Fluminense, chegando à atualidade dos candomblés, milícias, narcotraficantes e neopentecostais. Mas o bom mesmo vai ser, em novembro,  receber o título de doutor honoris causa que a UFRGS vai me conceder, pelo conjunto da minha obra.

★★★★★★

NAS ÁGUAS DESTA BAÍA HÁ MUITO TEMPO
Nei Lopes
Páginas: 272
Preço: R$ 42,90
Editora: Record / Grupo Editorial Record

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