Santiago Santos: Da permanência da terra

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O primeiro serviço de Rúbio para a construtora Mariny foi avaliar o terreno aos pés de um antigo edifício de nove andares no centro de São Paulo, na região da Sé. Vários incidentes confluíram para jogar seu preço lá embaixo, nos estertores da tabela imobiliária, incluindo arranca-rabos entre moradores que tornaram rotineira a visita da polícia, desabamentos no último andar, locatários que caíram das sacadas, uma colisão fatal nas pilastras do estacionamento, vazamentos que encanador algum conseguia consertar; mas sem dúvida a joia da coroa foi a pane elétrica que incendiou o prédio e torrou doze moradores, resultando em processos contra uma empresa à beira da falência que a essa altura já se consideraria feliz em pagar para retirar seu nome da escritura.

Rúbio nem bem adentrou o prédio e sentenciou ao responsável pela reforma: derruba.

Não havia como quantificar com precisão as necessidades de dado terreno; que, por exemplo, para apaziguar um assassinato são necessárias tantas sessões de meditação ou tantas crianças brincando e gargalhando durante tantos meses ou anos. Mas é possível avaliar e estimar e reavaliar até o processo ser concluído. Não se tratava de Feng Shui, mediunidade, um sentido extra aflorado; mas se tratava também disso. Rúbio possuía uma única certeza: a gravidade abarca mais que o mundo físico. Ela achata contra o solo o que quer que transcorra sobre a superfície. Tudo é abocanhado pela terra.

A maior parte das cidades foram erigidas em torno de antigas vilas e comunidades rurais. Foram nesses locais que se debruçaram por períodos esquecidos as mais diversas encenações de amor ou guerra, cristalizadas em heranças cobertas por asfalto e cimento e estuque, por tijolos e armações de metal e vidros. É sobretudo no centro velho das cidades que mais se encontram terrenos rancorosos como o do prédio da Sé.

Na avaliação inicial de Rúbio, ele custaria à empresa três anos de atividade intensa. Acharam melhor garantir cinco; a margem de erro era larga. O modus operandi da Mariny conquistou a administração pública. A empresa demolia as estruturas sobre o terreno adquirido e construía um parque, oferecendo várias atividades gratuitas para a comunidade. Pelo tempo que ficasse aberto, a prefeitura isentava a cobrança de impostos e mantinha a isenção por um número igual de anos depois que o parque fosse fechado e a construção idealizada levada a cabo. Isso não atrapalhava a imagem de uma iniciativa privada responsável, preocupada com o bem-estar público, e o ganho era duplo: ao fim do período, o terreno estaria purificado.

O novo parque na Sé oferecia uma área de equipamentos para as crianças, bancos de madeira sob as árvores transplantadas, centro de exercícios, aulas diárias de ioga, meditação e Tai Chi Chuan, oficinas de literatura e desenho nos finais de semana, apresentações eventuais da orquestra estadual e bandas escolares na concha acústica. A empresa provia segurança 24 horas, iluminação dedicada e bebedouros. Não poupavam dinheiro. Talvez por isso os braços e pernas quebrados no centro de exercícios, os desmaios súbitos e um ou outro indício de possessão infantil confundido com ingestão exagerada de açúcar fossem relegados pelo público à esfera dos acidentes inevitáveis da vida.

Em quatro anos a nova frequência energética sufocou a antiga. No fim do quinto ano, a Mariny transferiu o que podia dos equipamentos para um novo terreno na Consolação e iniciou a construção de um prédio de 17 andares. A intenção inicial era um edifício de salas comerciais para locação, mas a avaliação final de Rúbio foi tão boa que o conselho resolveu instalar ali sua nova sede administrativa. A essa altura ele já havia prestado consultoria no mundo todo, sendo procurado por outras empresas e governos. Mas detinha uma relação especial com a construtora Mariny, que o havia descoberto. Na cobertura do prédio da Sé ficava um escritório exclusivamente seu, que visitava muito pouco, ainda que o considerasse uma espécie de casa.

Não parece exagero dizer que quando faleceu ali aos 85 anos, sentado em sua poltrona de frente para a grande vidraça que dava vista para as dezenas de prédios da Mariny que haviam crescido no entorno daquele primeiro, Rúbio tenha sentido com certa satisfação a pressão da gravidade roubar-lhe as dimensões do corpo e arrastá-lo até o cerne terroso.

 

santiago santos

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