Aline Bei: paz

Cat.134-Trasmundo-1955

‘Trasmundo’ (1955), de Remedios Varo

 

alguém decidiu viajar, acho que foi meu pai.

pra ilha bela,

a menina não conhece

o mar

minha mãe tem medo

de mar

mas a menina não.

 

então fomos

 

arrumamos as malas um dia antes

parecia que tinha um rio na minha barriga

preciso ir no banheiro, mãe.

fui

algumas vezes

e pensei que

peixes estavam saindo de mim.

se sentir bem é estar com o corpo sem incomodo em nenhum órgão,

minha barriga não parava quieta,

acho que estou doente avisei minha mãe. ela colocou a mão na minha testa.

tá fresquinha, ela disse fechando

a mala

não mãe, põe a mão na minha barriga aqui.

 

-você só está ansiosa, filha, amanhã passa.

 

acreditei e no outro dia

acordei melhor.

 

entramos no carro com as malas

meu pai ao volante

minha mãe com a mão na nuca dele.

fiquei olhando a estrada

pela janela

parecia que as árvores eram Uma

que se esticava infinitamente tentando descobrir pra onde

eu ia.

pro mar –  contei

quando eu cansava olhava o céu. diferente das árvores esse

era lento,

e não parecia se importar com o lugar pra onde eu estava indo. pro mar, sussurrei

e de repente tivemos que

sair do carro

pra pegar uma

balsa, o que é balsa?

 

-é um barco sem curva.

-e o carro?

-vai junto.

 

fiquei aliviada.

meu pai

me colocou sentada no capô.

 

-este

é o Mar. – ele disse.

 

fiquei olhando o tamanho

parecia com as fotos

só que

molhado

e me deixava sem peixes na barriga enquanto que olhar o mar na foto

me deixava com peixes.

 

-posso nadar?

-não pelo amor de deus. – minha mãe disse.

 

ela tinha se afogado um dia

mas não morreu. ou morreu

porque aquela mãe sem medo d `água nunca mais apareceu na rua, aliás na época ela ainda não era mãe, apenas uma

menina

com nada na barriga

o melhor era o vento.

 

-esse cheiro,

é do mar?

 

queria usar aquele perfume

passaria todo dia antes de ir pra escola, as crianças me amariam bem mais.

abri os braços

pro mar que o vento trazia

minha mãe tirou uma foto,

sorri.

 

quando chegamos na pousada era 6 da tarde,

eu querendo muito

nadar.

 

-leva ela na piscina.

-quero no mar.

-hoje ficou tarde.

-o mar tem hora?

não esquece a boia – minha mãe disse pro meu pai

 

ele colocou

a boia no meu braço

 

-não tira. –avisou se afastando

me senti sozinha naquele espaço

azul.

 

a porta do nosso quarto ficou aberta, a luz acesa.

a piscina estava boa mas tinha no prédio

e a minha atenção toda hora voltava pra porta aberta.

as vezes

eu conseguia escutar

o que minha mãe dizia, a menina fica tão presa no apartamento, que bom que ela tá se divertindo.

me senti especial quando ela disse isso, também acima de qualquer mal que pudesse existir no mundo,

eu estava com os meus pais em uma ilha

e amanhã eu nadaria no mar.

então meu pai

voltou, naquele tempo ele não apressava nossos assuntos, hoje em dia no telefone é tudo tão rápido, agora mesmo eu fui contar uma coisa pra ele

e meu pai desligou

o telefone tão

rápido, sinto que ele foge de mim. mas naquele tempo não,

naquele tempo ele tinha o corpo sem pressa

vestia sempre uma camiseta branca, a minha mãe também.

 

-vamos filha? tomar banho pra jantar. (ele se preocupava com as minhas horas de comida)

-entra aqui, pai.

-já tomei banho, amor. amanhã a gente nada junto, prometo.

 

então eu subi as escadinhas da piscina pra chegar logo amanhã, meu pai me embrulhou na toalha

ela tinha um cheiro diferente

das toalhas lá de casa.

 

entramos no quarto,

na parede um quadro de barco e âncora

dava pra sentir o cheiro da tinta se eu chegasse bem perto

 

-sai daí que é sujo.

 

tomei banho, meu cabelo curto molhado

minha mãe me penteou de frente pro espelho

eu me sentia bonita toda vez que ela me dava banho.

então saímos

do quarto

pra jantar no restaurante da pousada

o chão era um taco de madeira escura

parecia um barco.

 

-o que significa pousada? – perguntei pra minha mãe que estava linda

de brinco.

 

-é um lugar onde as pessoas ficam poucos dias, um lugar onde os hóspedes  são como borboletas.

 

no restaurante tomei um suco

de laranja meu

preferido. na tv estava passando um show.

 

por que ele tá de óculos escuros? – perguntei.

-ele é cego. – meu pai disse

-ele não tem olho?

-tem, mas não enxerga.

 

que grave, logo mais ele deve

morrer.

no dia seguinte bem cedo

fomos à praia.

era do lado da pousada

mas na praia o chão

era mole, eu pisava naquilo e meu pé sumia.

 

-vamos? – meu pai disse me estendendo a mão

 

fiquei com medo mas não olhei pra minha mãe

foquei no meu pai brilhando ao sol

e na minha boia de braço

e nas crianças que estavam na água e pareciam felizes.

meu pai me pegou no colo.

feito saia o mar foi vestindo

a parte debaixo

dele e

meus pés, minha barriga,

era frio, depois

passava,

era enorme o cheiro também

fechei os olhos

cantando por

dentro

jogia iso mamad.

 

aline bei

Leia os textos anteriores da escritora Aline Bei 

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