Luiza Romão lança ‘Sangria’ no Sesc Pinheiros

A anatomia é reinventada e o corpo se torna suporte de uma denúncia histórica

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Luiza Romão (Foto de Sérgio Silva)

Em Sangria (Selo do Burro), a poeta Luiza Romão, busca revisitar a história do Brasil sob a ótica de um útero. Para isso, o livro é dividido em 28 poemas/28 dias, como um ciclo menstrual. Alternando entre experiências pessoais e episódios históricos, a poeta costura uma narrativa labiríntica, a fim de decifrar a identidade brasileira.

A história é conduzida pelo ponto de vista do corpo feminino. Os ciclos econômicos (borracha, café, ouro) se misturam com os ciclos biológicos e as fases do útero (ovulação, menstruação, concepção); o “país do futuro” se sintetiza numa gestação impossível (sempre interrompida por golpes de Estado ou “pílulas do dia seguinte”); a figura do patriarca é contraposta com as “mães solteiras” e as mulheres “para lida, para farra, para fotografias oficiais”. Com linguajar urbano, os poemas carregam fortes marcas de oralidade.

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A edição é bilíngue (português e espanhol) e o prefácio foi escrito pela estudiosa Heloisa Buarque de Hollanda. O livro tem um formato quadrado (20x20cm) e abre para cima, retomando a forma de um calendário. Além disso, cada poema é acompanhado por uma fotografia em preto, branco e vermelho. Como procedimento, o fotógrafo Sérgio Silva registrou partes do corpo de Luiza: seios, pernas, mãos, punhos, pescoço, boca, olhos, umbigo. Cada uma das 28 fotos foi impressa em tamanho 30×30 e costurada à mão pela artista. Materiais metálicos (correntes, talheres, fechaduras, pregos, espelhos) e barbante vermelho criam uma nova tessitura para as imagens em preto e branco. A anatomia é reinventada e o corpo se torna suporte de uma denúncia histórica.

DIA 1

DIA 1 (Foto de Sérgio Silva)

 

PREFÁCIO

Por: HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA

Luiza Romão avisa logo de início: não purifiquem o meu sangue, não quero que limpem minhas veias. Minha sangria, eu mesma produzo.

Bem, estamos diante de uma poeta que quer atuar no limite. Melhor, no limite máximo. Da política, da linguagem, da performance subjetiva. Voltarei a esses pontos mais à frente.

Agora, quero falar sobre minha primeira sensação diante de Luiza e de sua poesia. Sinto Luiza como uma expressão absolutamente contemporânea da história e da cultura indignada e comprometida com a política estética desta segunda década do século XXI.

Luiza escreve e intervém hoje, sobre hoje. Atua com força e também com disfarçada delicadeza.

São várias as formas como este trabalho pode ser lido e sentido. Escolho o de uma estética militante, inovadora e radical. Em jogo, estão o corpo, a história e seus intérpretes e a falta de ar, num dos mais complexos momentos políticos do país. No fundo, um agitado jogo de sombras que projetam formas de colonização violentas e opressoras, perpetuando-se num eterno fluxo e refluxo.

O ritmo deste trabalho se cumpre a partir da lógica de um calendário que descreve, com diferentes intensidades narrativas, os 28 dias do ciclo menstrual que conduzem o óvulo a suas fases decisivas para a reprodução da vida: a gravidez ou a menstruação. É mais ou menos este o caminho de Sangria, que desliza em direção a um final incerto, que tanto poderá ser de construção ou de perda.

Foi assim que atravessei os poemas de Sangria.

A hipótese do projeto é perigosa. Difícil. Pode não dar certo.

Nas palavras da autora, “com este trabalho, procuro  desvendar como a colonização, seus mecanismos exploratórios, repressões e golpes de estado, construíram sentidos do feminino, absolutamente silenciados e apagados”.

O caminho eleito foi o de ativar um processo de tecer contínuo (à moda das mulheres bordadeiras e tecelãs), entre o ciclo menstrual, ou seja, o organismo feminino a partir de sua potência reprodutiva e a revisita a episódios opressores da história brasileira. São 28 poemas/dias, revelações, ritos de passagem, insights políticos/históricos, dores, sangue. Sangria.

Já que sublinhei a forte presença do ethos político do período pós junho de 2013 correndo nas veias dessa poesia, alguns procedimentos se destacam. Inicialmente, chamo atenção para o trabalho artístico que utiliza prioritariamente o organismo/corpo da mulher, locus, por excelência, da manifestação e criação  dessa nova geração feminista.

Esse mesmo corpo feminino, milenarmente construído e controlado por uma perspectiva e sensibilidade masculinas, que agora volta, vigoroso, como plataforma mais adequada para a expressão e o enfrentamento feministas.

                (…)

Sangria não é apenas mais um livro de poemas, Sangria é um projeto literário sobre a História do Brasil vista pelas entranhas de uma feminista contemporânea.

Digo projeto, porque o grito que Sangria faz ecoar não se realiza apenas na páginas impressas deste livro escrito por uma atriz-poeta-performer. Qualquer verso aqui revela o desejo de saltar da página, pede som, pede movimento, pede imagem, pede, sobretudo, ação. Assim como a linguagem, a edição do livro também trouxe demandas de expansão. Temos intervenções, costuras, fotos e uma webnovela.

A poesia em diálogo com a performance e o livro em diálogo com outras mídias é um dos aspectos do que observei como o trabalho em Sangria no limite das linguagens e das categorias. Uma poesia que tira sua força estética de cruzamentos possíveis: a passagem destemida do lírico para a oralidade áspera, do cíclico para o mosaico, da palavra para o movimento, da palavra para a imagem. Contemporâneo. Inadiável.

Enfim, em Sangria, a nova poesia feminista se revela como um de seus melhores momentos.

DIA 10

DIA 10 (Foto de Sérgio Silva)

 

LEIA UM POEMA DE SANGRIA

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SÉRIE DE VIDEOPERFORMANCE

É impossível desvincular a poesia de Luiza Romão da oralidade. Vinda de uma tradição de spoken word, sua escrita se completa na fala, no encontro com o público e com a cena. A fim de manter os ritmos, variações melódicas e intensidades vocais, sua obra navega constantemente entre publicações físicas (livros e antologias) e vídeo-poemas.

Em Sangria, essa pesquisa se radicalizou através da produção de uma série inédita de 28 vídeos-performances: todos os poemas do livro foram gravados em estúdio, e, posteriormente, um duo de baixo acústico (Vânia Ornelas) e percussão (Juba Carvalho) os musicou.

Além disso, o projeto convidou 28 mulheres de diferentes áreas artísticas (grafite, pintura, xilogravura, circo, dança, tecido acrobático, teatro de bonecos, bordado, teatro, intervenção urbana, linguagem de sinais, música) para participar: cada uma das artistas escolheu um dos textos e propôs uma performance. Durantes meses, essas intervenções foram criadas e filmadas, tendo como balizador estético a fricção entre campos do saber.

Dessa forma, Sangria se torna mais do que um livro de poemas ou uma iniciativa individual. É um trabalho coletivo e inédito, com mais de 50 mulheres envolvidas. Sem sombra de dúvidas, tal abrangência e multiplicidade ainda não foram vistos na cena de literatura contemporânea.

 

OCUPAÇÃO SANGRIA NO SESC PINHEIROS 

 

DIA 11/10: LANÇAMENTO DO LIVRO, EXIBIÇÃO DOS VIDEOPOEMAS E SHOW-LÍRICO

– 19h: exibição da websérie Sangria

– 20h: show-lírico com Luiza Romão (participação especial: Luz Ribeiro e Alice Ruiz)

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DIA 07/10 A 28/10: OFICINA DE VIDEOPOEMA

Sábados, das 14h às 17h (com Luiza Romão e Sérgio Silva)

SESC Pinheiros (Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – São Paulo/SP

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FICHA TÉCNICA 

DIREÇÃO:  Luiza Romão

TEXTO E SPOKEN WORD: Luiza Romão

PERFORMANCES: Carmem Lazari, Carolina Teixeira (Itzá), Érika Grizendi, Erika Mota, Fernanda Brandão, Hélio Toste, Inayara Samuel, Isadora Títto, Juba Carvalho, Júlia Barnabé, Lais Oliveira, Lilith Passos, Lua Lucas, , Mana Maia, Maria Eduarda Machado, Mayra Coelho, Mel Coelho, Klarah Lobato, Nathália Bonilha, Nathalia Fonseca Freitas, Nara Zocher, Paloma Franca Amorim, Palomaris Mathias, Raquel Parras, Renata Armelin, Renata Prado, Shanawaara, Nara Zocher, Silvana Martins Costa, Tatilene Santos, Thais Leitte, Vânia Ornelas, Viviane Almeida

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL: Abatiatã Samuel Silva, Alcione Donate, Amanda Fantine, Andrea Souza, Camila Cohen, Ingrid Estevez, Julio Cesar, Livia Meirelles, Mirella Façanha, Natalie Regina, Rebeca Konopkinas

DIREÇÃO DE VIDEO: Sérgio Silva

CÂMERAS: Joyce Prado, Mel Coelho, Milena Correia, Renata Armelin, Yve Louise, Gsé Silva, Sérgio Silva

IMAGEM AÉREA: Rogério Pixote

EDIÇÃO DE VÍDEO: Milena Correia e Paula Rocha (Rústica Produções)

ANIMAÇÃO E LEGENDA: Raíssa Santana

FOTOGRAFIAS: Arianne Vitale, Sérgio Silva, Mamana Foto Coletivo, arquivo pessoal

DIREÇÃO MUSICAL: Tomás Bastos

MUSICISTAS: Vânia Ornelas (baixo) e Juba Carvalho (percursão)

CAPTAÇÃO DE SOM: Mana Maia e Remi Chatain

MIXAGEM: Remi Chatain

LOCUÇÃO: Daniel Minchoni

ESTÚDIO: Coletivo Digital e Sim Escola de Música

FIGURINO (LUIZA): Cláudia Schapira

CARACTERIZAÇÃO (LUIZA): Maria Fernanda Torrezani

ASSISTENTE DE CARACTERIZAÇÃO (LUIZA): Emily Paula

PUBLICAÇÃO E EDITORAÇÃO: Selo do Burro (Daniel Minchoni)

TRADUÇÃO (ESPANHOL): Martina Altalef

REVISÃO (PORTUGUÊS): Fernanda Pereira

REVISÃO (ESPANHOL): Juliana Mariel Diaz

DESIGNERS: Walmick Campos e Daniel Minchoni

ASSISTÊNCIA LOCAL: Augusto Cerqueira, Bloco do Beco, Caio Ninutti, Danielle Braga, Dona Cida, Dona Socorro, Emerson, Jenyffer Nascimento, Luana Gregory, Osmar Fusion, Pedro Droca, Thiago Esperandio, Túlio Fernandes, Zito Rodrigues

APOIO: (logos) Coletivo Digital, Selo do Burro

PRODUÇÃO: Mariana Novais (Ventania Cultural)

IDEALIZAÇÃO E REALIZAÇÃO: Luiza Romão e Sérgio Silva (Guaxinim Produções)

 

Livre Opinião – Ideias em Debate
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