Carcaça de alma urubu não come. Por Tenório Cavalcanti

Light Red Over Black 1957 by Mark Rothko 1903-1970

‘Light Red Over Black’ (1957), Mark Rothko

 

uma duas três quatro cinco horas, tu joga o podão pra lá, o sol candeeira secando inda mais teus calejos, tu sai da cana respirando fundo, limpa o rosto com as costas da mão e vê sangue lágrimas tuas pelos poros, olha ao redor tonto e parte a caminhar trôpego até o alpendre da casa central, uma garrafa de cachaça, última dose, ao pé da coluna, o vício te chama, gole chama, desce quente e seca que nem teus olhos, bebe aquele sobejo morno, não, é de água que tu precisa, água fria, e tem? aquele resto na garrafa de plástico, a cachorra lambeu mais cedo e já tá de arruinar os rins. aí tu segue à estrada esperar caminhão que leva gente, ele demora ou não vem, tu na agonia de querer ir pra casa sai batendo calcanhar na poeira, até que estaca numa bodega, pede água ao senhor desconhecido do balcão, ele nunca esteve ali, quem é esse? cadê joão pai do cortador amigo teu? ele te dá água, cara feia, da torneira tira e bota num copo sujo de pinga, tu bebe engasgando, limpa o que escorreu na camisa e pede cachaça, ele bota no mesmo copo, agora sim gole redentor, uma duas três mais outras, gasta o apurado quase todo do dia com essa zunza, pra lá de meia-garrafa se vai no vapor das tuas dores, tu se afasta do balcão pra sentar contemplar a paisagem-vertigem seca-com-verde dos canaviais cena de todo dia, e talvez tomar mais uma, talvez levantar ir pra casa, há quem te espere, é quando um filho da puta do lado de lá vem de graça e te chama de negro safado sujo, grita grosso, manda tu ir beber do lado de fora teu cheiro ninguém aguenta, ninguém tem de aguentar, aí tu levanta da cadeira descolando as costas do suor, cegueira sangue e nervo, puxa a faca da cintura e como raio traz o afoito prum abraço, tome uma duas três quatro, tome cinco e outras, o carcará cai mole, olhos incrédulos sangue quente desfalecido, tu limpa a faca na camisa dele perfurada, olha ao redor, o dono da bodega cadê? tu bebe a cerveja do homem rasgado caído e passa por cima ostentando o mesmo silêncio com o qual executou o feito e vai pra casa comer e dormir, o dia seguinte o corte começa bem cedo. uma duas três quatro da manhã, tu desperta ligeiro como quem dá um bote na vida, joga água fria na cara, passa a navalha na barba do queixo escorre sangue, limpa no caco de espelho pregado na parede, caminha até à cozinha, devora pão com carne seca de ontem, bebe água do pote, volta pro quarto veste as tralhas da lida, macacão gorro botas podão faca embainhada, na gaveta recolhe documentos pra quê? enfia no bolso da casaca, beija os meninos na testa faz duas três recomendações à mulher, abraça ela sem arrocho, chuta o bucho da cachorra, que dorme ao pé da porta e segue à estrada. quatro cinco horas, o caminhão mal encosta e tu sobe trotando comendo poeira fiapo de casca, quinze dezesseis homens ocupam o chão da carroceria pernas estiradas, não se olham, não se cumprimentam, segue viagem canavial adentro, buraqueira, motorista pisando baixo como quem carrega gado, tu sustentado os ferros apertando os rasgos de ferrugem sangrando nos calos que seguram o cabo do podão. o caminhão estanca na beira do canavial, tu desce em cima dos farfalhos e entra na cana sem olhar pra trás, um dois três quatro cinco seis golpes, feixos abaixo, o suor lava tuas costas o peito queima como sussurro do diabo. não demora e um carro encosta à beira do canavial tomando tudo de poeira, três quatro homens de preto com armas na mão descem latindo alto teu nome, um toma teu podão outro a faca outro te impõe algemas te joga no carro sem nada explicar sob o olhar surpreso dos colegas de corte, tu já desconfia pra onde te levarão. uma duas três quatro lapadas no lombo, o fardado te chama de maldito preto sem vergonha bandido assassino, te bate com porrete, tu urra como bicho, mais uma duas três quatro de baixo pra cima bate nas tuas canelas como o podão bate na cana, cinco seis, o carrasco também urra pra tu confessar a morte do homem, é pra tu dizer que matou que está arrependido que está ali pra morrer pelo sangue do outro que não vai negar, a morte é teu castigo, tem que apanhar até amolecer o corpo amordaçar tua coragem, tu nada diz só grita pede a deus pro soldado ter piedade, ali não existe piedade, ele vai te matar e não demora, o cacete agora já fofa tuas costelas amolece tua boca, o homem soca teu estômago até que tu desmaia no chão lavado de sangue, ele passa por cima do teu corpo e antes de te trancar chuta tua cabeça cospe nas tuas costas encaroçadas de hematomas. quatro cinco seis o sol invade aquela pocilga engradada, teu sangue está seco teu corpo retorcido furado rasgado inchado, tu acorda, se arrasta pro canto da parede tenta abrir os olhos, só um olho alcança luz, é quando tu vê pão no chão roído de rato, invadido de formigas pretas que picaram teu corpo enquanto dormia, tu precisa de água pra descer com as migalhas, é comer ou morrer de fome-ódio, tu tenta gritar, a voz sai como engulho de sangue grossa seca falha, tenta aprumar-se sentado e sente a dor das costelas quebradas o barulho dos ossos trincados, percebe uma caneca no canto da parede perto do buraco de necessidades, arrasta-se pedindo a jesus piedade, e o milagre está lá, são dois dedos de água morna do mesmo sol que lhe secou o sangue da cara. seis sete oito horas, tu ainda deitado com o sono de quem dorme no inferno inquieto raivoso e triste por tua mulher pelos meninos pela cachorra que te espera uivando na beira da estrada, não há o que fazer, só esperar te jogarem numa vala ou mais surra até a morte, te enterrarem sem nome num buraco de cinco seis sete palmos do chão, mais coça daquelas e não há como resistir, tu não é de ferro, duro só teu ódio, a morte vence tudo não adianta lutar, o fim pode chegar da próxima vez que a grade for aberta. cai o sol, as cigarras anunciam o fim da tarde, o fim do mundo de todos os dias de verão, ouve-se gritos de outros presos gemendo outras dores, o homem que te surrou entra na cela agora sem farda sem nada nas mãos, tu se vê morto, ele fala pra tu levantar sem demora te leva pra uma sala nos fundos manda tu assinar um papel, com o dedo sujo de sangue tu deixa tua marca, o homem abre a porta da frente enfia teus documentos nas tuas calças sujas mijadas imundas te empurra com solavanco, manda tu pegar o caminho de volta prometendo ser breve como a tua esperança.

Tenório Cavalcanti

Livre Opinião – Ideias em Debate
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