Izilda Bichara lança o livro ‘Desculpa o atraso’ nesta quinta-feira em São Paulo

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Capa feita por Bruno Brum, a partir da arte de Juliana Cordaro

Nesta quinta-feira (26), às 19h00, no Zeffiro – Restaurante e Rotisseria, será realizado o lançamento do novo livro da escritora Izilda Bichara, Desculpa o atraso, pela editora @link.

São 18 contos reunidos escolhidos com a curadoria do escritor Nelson de Oliveira, que também faz a apresentação do livro:

Quando uma porta se fecha uma janela se abre. Ou um alçapão. Geralmente um alçapão. Para o fosso dos crocodilos. Analogia bastante útil, porque esta coletânea de contos é feita de camadas que são, na verdade, portas que se fecham e alçapões que se abrem para o fosso dos crocodilos.

Outra analogia: esta coletânea também me parece um jogo dramático de profunda sensibilidade, marcado sempre pelos muitos tipos de opressão e dominação. As peças defensivas e ofensivas são as pessoas cotidianas, o tabuleiro tridimensional é a metrópole, e a partida inicia-se diariamente em vários lugares, espalhando vitórias e derrotas. (Os crocodilos adoram jogar, mas gostam mais ainda de trapacear.)

Cuidadosamente trabalhadas durante anos, as ficções breves de Izilda Bichara esmiúçam nossos principais conflitos íntimos, familiares e sociais. O conjunto é variado, revelando em doses equilibradas os aspectos mais característicos da vida em sociedade: tristeza e doçura, violência e bondade, egoísmo e empatia, realidade e nonsense, e muito do que habita o intervalo turbulento entre esses extremos.

O título Desculpa o atraso já antecipa o degrau que separa social e emocionalmente os personagens desenhados pela autora, que jamais se relacionam de igual pra igual. Alguém sempre está um degrau acima ou abaixo, e essa diferença é o potente motor da sátira, do rancor, da tragédia ou do absurdo.

Autora

Izilda Bichara – Nasceu em São Paulo e é formada em Letras e em Direito pela USP. Foi professora de Língua Portuguesa e Procuradora do Município de São Paulo, cargo do qual se aposentou em 2007 para se dedicar exclusivamente à literatura.

Em 2012, lançou a novela Térreo (Casa Impressora de Almeria), republicada em versão digital em 2014 (e-galáxia). Também integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, desde sua fundação em 2012, e participou das coletâneas de contos Achados e PerdidosSerendpt e Sub e dos fanzines 50 anos daquele 64 e Fancine, publicadas pelo Coletivo. Em 2015 foi finalista do Prêmio Off Flip com o conto Macarrão e Vinho.

Leia um conto do livro

Desculpa o atraso

Foi isso, dona Lídia. A água não dava venço. Era aquela aguaceira que em menos de dois minuto encheu tudo. Colchão, guarda-roupa, geladeira. A gatinha ficou miando em cima da cama alagada e eu tive de entrar com água quase até o joelho pra colocar ela em cima da mesa comigo e a menina. O marido? Ninguém sabe, ninguém viu. Chegou mais de onze da noite, quando a chuva tinha parado e o estrago já tava decretado. Disse que, quando desceu do ônibus, entrou no boteco do seu Ramalho pra fugir do toró e ficou conversando com o Tunico e o Luisão. Então, se esqueceu da vida. A vida é que se esqueceu da gente, eu disse. Ele perguntou, e a menina? A vizinha levou pra dormir na cama alta da beliche com os moleque dela. E nós? Vamo dormir onde? Você, eu não sei, mas eu, eu lá posso dormir com toda essa imundície? Vou limpar o que dá, secar o que dá, que amanhã não posso perder dia de trabalho. Pois ele saiu sem dizer palavra e me deixou com o rodo na mão. Trabalhei a noite inteira. Enchi três saco de coisa perdida. Os caderno da menina, tadinha, tudo com letra caprichada, os brinquedos fino que ganhou da minha outra patroa. Tudo perdido. Mais roupa, sapato, mantimento e até as radiografia da dor nas costa que o médico do posto pediu pra levar na consulta  no fim do ano. Quando o dia amanheceu, meu corpo tava moído de canseira. Já tava na hora de sair, mas, não sei por quê, sentei um pouco e o sono me pegou. Desculpa o atraso, dona Lídia. Eu não queria deixar a senhora na mão. Sei que dia de quinta a senhora gosta de tomar seu café às nove e meia em ponto porque tem massagem. Mas juro que hoje saio uma hora mais tarde e amanhã chego uma hora mais cedo pra compensar. Ou, se a senhora não concordar, dá pra não me descontar tudo de uma vez? É que vou ter de pagar a prestação do colchão que preciso comprar. Sem colchão, a menina fica na vizinha e o marido por aí. E eu não posso perder mais nada. A senhora prefere melão ou mamão papaia?

Lançamento do livro Desculpa o atraso
de Izilda Bichara
Editora @Link

Data: 26 de outubro
Local: Zeffiro Restaurante e Rotisseria (Rua Frei Caneca, 669 – Consolação)
Horário: 19h00

Livre Opinião – Ideias em Debate
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