Marcelo Flecha: O espectador manda em você?

 

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O que faremos? Sempre acreditei que um dos principais objetivos do teatro fosse provocar o espectador, exigir dele uma postura independente, dialética; convocá-lo a saltar para instâncias tortuosas; convidá-lo a saborear um dilema; instigá-lo a se posicionar sobre um balizamento retrógrado; apresentar-lhe um novo paradoxo; tirá-lo da zona de conforto – essa zona tão protegida pela TV que defronta o sofá da sala e se encarrega de adormecer os sentidos para a fatal noite de sono.

O discurso mais recente de interlocução, de necessidade de comunicação, de partidas mais abertas com o público, pode camuflar um destino de simplismos e nivelamentos que não necessariamente argumentam uma narrativa mais efetiva para o teatro na sua contemporaneidade. Imagino se não deveríamos ter cuidado ao colocar a necessidade de conversação a qualquer preço.

Fazemos teatro. Não fazemos televisão, dança, cinema, literatura, artes visuais, música. Fazemos teatro, com a qualidade sígnica, mítica e metafórica que ele oferece para a relação necessariamente provocativa que dele se espera, conforme tangenciei aqui. Outras linguagens não podem intervir, aconselhar, ou preconizar uma forma melhor de diálogo entre o espectador e o teatro, pois, esse diálogo difere em conceito, condimento e contexto das dialéticas que se estabelecem (ou não) entre o espectador e as outras linguagens artísticas, ou entre os diversos instrumentos de entretenimento contemporâneo.

O que me preocupa é o vale tudo na busca desse espectador, quando a obra deixa de ser autônoma, e passa a ser refém de uma demanda quantitativa, com o argumento de não estar fazendo um teatro para poucos. Vale tudo? Se a morte é fundamental para a narrativa em questão, devemos transformá-la em um desmaio, pelo simples fato da ideia ser mais simpática ao espectador? A novela já faz isso; o teatro pode mais.

Certa vez, conversando com um amigo que não via há muito tempo, recuperou uma frase que, segundo ele, eu tinha dito uma década atrás, e que só agora ele conseguira compreender efetivamente. A frase versava sobre a relação entre teatro e público, e parece ser que dizia que não devíamos abrir concessões. A frase não me surpreendeu, nem me foi estranha a ideia de ser de minha autoria, pois sempre pensei assim. O diálogo não se constrói com concessões. Uma tese precisa ser contestada por uma antítese, para que dela surja a síntese desejada. A tese não precisa apenas abrir mão de si pela necessidade de dialogar com o outro, se deste outro não vem a argumentação necessária que provoque a reflexão sobre a tese em questão. O teatro não precisa facilitar o discurso para aumentar a relação com o público. O dogma do teatro depender do público é perigoso. Se em uma relação um depende mais do outro, a autonomia desse um é insustentável. Antropologicamente falando, o espectador depende do teatro tanto quanto o teatro depende do espectador, não se iluda.

Sim. O espectador também depende do teatro, mesmo aquele que nunca viu uma única peça sequer. Ele pode não fazer a menor ideia do que o teatro seja, mas esse cidadão depende do teatro, mesmo sem saber. Assim como o teatro depende dele. Igualmente. Equilibradamente. Equitativamente. Então, para mim, o fato do teatro depender do espectador nunca se apresentou como uma ameaça; nunca foi uma sentença que me levasse a cogitar concessões; nunca se assentou como um fantasma que exigisse uma resposta artística à altura das suas expectativas; essa sentença nunca me oprimiu, pois, sempre soube que esse espectador dependia tanto do teatro quanto eu dele. Uma relação só pode ser saudável se preservada a independência das partes. É nisso que acredito e, por acreditar nisso, é sobre esse fundamento que trabalho.

É notório que tudo o que tenho falado nas postagens pregressas, e tudo o que venha a se falar nas do porvir, estão relacionadas com a nossa nova montagem em curso, e que conversa com um dos escritores mais emblemáticos da literatura mundial, Jorge Luís Borges. Logo, as sentenças absolutas formuladas aqui são o blefe de um criador submergido em dúvidas, inseguranças, desconfianças, agonias, revezes, agruras, vacilações, perguntas.

O que faremos? Estamos dispostos a simplificar o complexo? A enfeitar o feio?  A adoçar o amargo? A camuflar as injustiças? A mudar o rumo? A soprar o ardor? A acalmar a tempestade? A remediar a dor? Estamos dispostos a facilitar a vida do espectador, e torná-la amena ao ponto de não sentir diferença entre uma ida ao teatro e uma xícara de chá na frente da TV? Eu não.

MARCELO FLECHA

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