Santiago Santos: A balada do óleo de soja

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Já tá saindo aí, Márcia?

Já, já, seu Robson. Um minutinho.

Na gordura as minúsculas coxinhas e bolinhas de queijo e quibes e pastéis vão ganhando cor, consistência. O cheiro é sufocante, dane-se a touca e o avental. É coisa que sempre penetra nas grutas da pele.

Todo dia compro um cigarro, um só, na distribuidora perto de casa, e deixo pra fumar entre o encerramento dos pedidos do dia, pertinho das 6, e a limpeza da cozinha. Seu Robson não gosta, mas não pode fazer nada, guardo a pausa da tarde pra isso. Ele diz que a patroa não gosta que a gente fume ou fique de bobeira na rua de uniforme, então espero dar essa hora pra tirar e saio pro calçadão. O Júnio, da loja de brinquedos vizinha, me empresta o isqueiro.

E aí, Júnio, tranquilo?

Opa, Márcia, hoje passou voando, ein.

Só se for procê, fio. Tava contando os minutos.

Nessa hora o sol já tá escalando os ombros das lojas, barrado pelos prédinhos do outro lado, no caso do nosso lado, então junto com a quentura do fogo vem a quentura da parede dos fundos assando. Seu Robson reclama que a gente reclama demais, que daqui a pouco vamos querer ar-condicionado pra trabalhar, e puta que pariu, seria o mínimo. Mas a patroa não vai gastar, já disse inclusive que se as vendas ficarem assim ela não renova o contrato pro próximo ano, que o povo do calçadão não quer saber de salgadinho, só de açaí, que devia ter aberto a loja na Joaquim Murtinho ou na Barão de Melgaço, que dão pra rua onde passa carro, não aqui nesse esconderijo.

O Marcelinho e o Gustavo, que trabalham comigo na cozinha, e já trabalharam em tudo que é lanchonete aqui do centro antes, falam que nunca ouviram patrão falar que o negócio tá bom. Tá sempre ruim, sempre perigando fechar, sempre tendo que mandar funcionário embora, mas sempre rola carro novo na garagem e viagem no final do ano. Mania de brasileiro de falar que a vida tá sempre uma bosta.

Quando volto pro serviço os dois já tão terminando de varrer, então encho o balde com água e produto, pego pano e rodo. Eles partem pra louça. Hoje não é dia de trocar a gordura, então vai rápido. Seu Robson termina de fechar as contas do caixa e coloca tudo num envelope com a data em cima e enfia no cofre, pra patroa pegar na manhã seguinte. Quando terminamos, ele chama o Gustavo. Diz que a patroa pediu pra agradecer o serviço mas infelizmente vai ter que dispensar ele. Eu e Marcelinho ficamos ouvindo lá da cozinha o Gustavo dar um jeito de responder sem armar choro ou birra, que a gente sabe que tá com filho pequeno e vai ser dureza se não achar outra coisa.

Depois que o Gustavo sai, Marcelinho pergunta pro seu Robson se tá procurando outro funcionário, ele tem um primo caçando emprego. Seu Robson diz que nós dois vamos ter que dar conta do serviço, não vai ter como contratar mais um por agora. Tamos fudidos, se com três já tava difícil. Marcelinho dá tchau, sai apressado pro ponto com a mochila nas costas.

Vou no banheiro pra lavar as partes e depois me debruço em cima da mesa empoeirada do depósito e seu Robson vem atrás e cola as coxas peludas dele nas minhas. Quando enfim termina de estrebuchar e apertar minha bunda, diz que vamos ter que parar com isso, que a esposa andou reclamando que ele não tá mais dando no couro em casa. Coloca os cinquentinha na minha mão.

Você que sabe, seu Robson.

E você anda com essa coisa de fumar, fica impregnado no cabelo o cheiro, odeio isso.

Quando chego em casa, Ronaldo tá largado no sofá, vendo a novela, só de bermuda. Os brinquedos da Soninha tão espalhados pela sala.

Trouxe dinheiro hoje, Márcia?

Trouxe mas é do mercado. Tá vazia a geladeira.

Que que tu quer? Eu compro ali na venda.

Na venda não, Ronaldo, é o triplo do preço. E vai comprar cerveja que eu sei.

Cala a boca, mulher. Qualquer coisa tu pega outro vale amanhã.

Depois que o desgraçado sai, vou no quarto da Soninha. Ela tá brincando com as bonecas.

Oi, filha. Vem aqui dar um abraço na mãe.

Oi, mãe!

Ela me abraça e conta do dia na escola. Tento controlar o choro, que vem involuntário assim, de vez em quando. Ela percebe. Diz que quer me mostrar uma coisa.

Vai até a parede, pega um giz de cera, desenha uma porta com a maçaneta. Abre, entra. Vou atrás. É uma praia cheia de cadeiras na areia e gente com prancha debaixo do braço, um moleque andando com um braseirinho lotado de queijo coalho, carrinhos de sorvete, tendas de milho cozido e água de coco.

Tá vendo, mãe? É praqui que eu venho quando tô triste. Você pode vir pra cá quando quiser também.

É lindo mesmo, filha. Vai brincar, vai, a mãe fica aqui te esperando.

Sento na areia. Soninha fica no raso, brincando de pular os restinhos das ondas. Fico imaginando se dá pra chegar a nado naquelas ilhas do horizonte. É minha primeira vez, nunca vi o mar. Nunca nadei na água salgada. Nunca fiquei com o biquíni cheio de areia, como dizem na novela. Mas tenho certeza que a praia tem um cheiro gostoso, salino, refrescante. Não esse cheiro de fritura.

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Parceria Flash Fiction
Arte da vitrine por Jean Fhilippe

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