Edmar Neves: ‘Naufragar Jamais’ – o livro performático de Pedro Alberto Ribeiro

(Quase) Toda Sexta-Feira – Por Edmar Neves

Das performances nos saraus, slam’s de poesias e possibilidades que as mídias digitais fornecem, surgem novas maneiras de se conceber a estrutura do livro e fazer circular a produção literária

Capa Naufragar Jamais

Tive conhecimento do livro Naufragar Jamais (11 Editora, 2017) do Poeta em Queda, vulgo Pedro Alberto Ribeiro, antes mesmo dele ter seu primeiro esboço. Lembro claramente que minha primeira reação, quando o Pedro Alberto me contou sobre os planos para o seu segundo livro, foi de dizer: “Esse vai ser um ‘livro performático’ e eu nunca ouvi falar de algo assim antes.”

Naufragar Jamais tem suas páginas soltas, permitindo que o leitor interaja com a obra, podendo escolher a ordem de leitura dos poemas, ou lê-los de maneira independente. Há também ilustrações do autor que acompanham os poemas, revelando uma gama a mais de novos sentidos para sua obra e que, assim como no caso dos poemas, estão em páginas soltas, viabilizando diferentes tipos de organização, ou ainda, dando a chance para que o leitor cole as ilustrações na parede, como mini pôsteres. Outra possibilidade que o formato de Naufragar Jamais dá é a de se colocar as páginas dos poemas e das ilustrações em um varal, tendo assim uma ‘exposição ambulante’ dentro do livro. Pedro Alberto diz que essas escolhas editoriais “incentivam o leitor a ler os livros dentro de casa, a pensar na potência que os objetos têm para intervir na vida dele, e também a pensar em cada um dos poemas como uma carta escrita diretamente para ele, e somente para ele.”

O conceito do livro Naufragar Jamais é reflexo do meio ambiente onde o Poeta em Queda habita: o sarau de poesia. Então vamos devagar para compreender melhor a influência do sarau na obra do autor. O sarau, espaço onde se socializa arte, cultura e política, surgiu há muito tempo atrás, para se ter noção, existem diversas crônicas, romances, músicas e cartas datando do século XIX, no caso brasileiro, que remetem a esses encontros onde artistas, como José de Alencar e Machado de Assis, e grandes figuras da elite da sociedade se juntavam para divulgar e discutir suas obras.

No começo do século XXI, as periferias se apropriaram do sarau, resiginificando-o e o transformando em rinhas de mc’s, slam de poesias, etc. Alocado em bares, praças, calçadas, becos e pontes o sarau agora se propõe a estar em qualquer lugar onde as pessoas conseguem ter acesso fácil para descobrirem que a arte é uma parte muito importante de suas vidas. Em verdade, pode-se dizer que, atualmente a poesia se mostra mais presente e forte nesses espaços de socialização política da arte, como os sarais da periferia, os slam’s de poesia, entre outros, do que nos catálogos das grandes editoras.

Graças ao seu engajamento poético e o contato com essas mobilizações artísticas atuais, Pedro Alberto organizou, em parceria com o cantor e compositor João Maresia, diversos saraus que ocorriam em praças das cidades de São Carlos e Sorocaba, durante 2013, conhecidos como Encontros Poéticos. E foi nesses Encontros Poéticos que o projeto/pseudônimo Poeta em Queda nasceu. “Hoje considero o nome mais como um projeto do que como um pseudônimo, pois outras pessoas acabam participando dos processos criativos das diferentes materialidades de poesia, como o músico Giovani Bogas, que atua em várias das apresentações ao vivo”, conta.

Entre suas influencias está Levi the Poet, um performer e poeta norte-americano, conhecido por registrar suas obras em CDs e vídeo clipes, ao invés do livro. Das inspirações brasileiras para as suas poesias temos o projeto Clube Atlético Passarinheiro, criado pelos poetas Luiza Romão (autora do prefácio de Naufragar Jamais), Ni Brisant e Victor Rodrigues, que, assim como Levi the Poet, também misturam elementos multimídia como a gravação de vídeo clipes e a declamação que se preocupa com componentes estéticos para compor a performance.

Foi sob todas essas influências que Naufragar Jamais emergiu como um livro performático, afinal as estruturas tradicionais do livro tanto em forma, quanto em conteúdo, já não dão conta das especificidades da literatura contemporânea, ou seja, o livro tradicional não consegue estabelecer um diálogo com o contexto em que a poesia de Pedro Alberto acontece e circula.

Um tema que permeia todos os poemas do livro é a melancolia. Esse tipo de tristeza seguida de aceitação, ou ainda, essa forma de sofrimento que não deixa a pessoa derrubada em cima da cama, mas que, ao contrário, permite que ela compreenda que a vida tem sim muitos problemas, mas que apesar desses problemas, é preciso ter forças para continuar. Como diz os versos que carregam o título do livro: “ao primeiro sinal da tempestade, / eu me abri como um guarda-chuva / virado de ponta cabeça: / eu fui feito para transbordar. / naufragar jamais.”

Chorar no Céu é o poema mais antigo do livro – lembro-me de ouvi-lo em performances entre 2014 e 2015, época em que Pedro Alberto lançava seu primeiro livro (Fogos, Mares e Marias, 2015, edição do autor) – fruto de uma belíssima homenagem a um amigo do autor que cometeu suicídio no final de sua adolescência. Os versos “querido céu, / hoje te vi chorar / e também fui dormir / chovendo”, ganharam visibilidade nos muros de diversas cidades, graças a projetos que divulgam poesias através da arte da rua, como o grafite, o lambe-lambe e o stencil.

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Poeta em Queda / Pedro Alberto Ribeiro

Esse poema também nos mostra como os versos do Poeta em Queda evoluem conforme são declamados em saraus. Os versos “hoje te vi nas marcas / que você deixou pelo asfalto / como uma espécie de último presente / para as pessoas que moram nas ruas, / as mulheres de quem roubam / os corpo e as vidas (…)”, foram adicionados ao poema após o autor ser convidado para declamar em um sarau com um tema mais político, tendo a intenção de expandir as questões abordadas por Chorar no Céu.

O poema Marchar Fúnebre revela um caráter político do livro e foi escrito logo após uma crise criativa do autor. “Eu vejo esse poema como uma tentativa de lidar com outras angústias de caráter pessoal e político, encarando a realidade de que apenas escrever coisas tristes não mudam o rumo político do país”, diz Pedro Alberto. Os versos “marchas fúnebres / não impedem autoridades / de marchar” nos mostra esse ímpeto de entender que não podemos deixar a tristeza nos impedir de observar e criticar as opressões de nossa sociedade. Porém o autor arremata dizendo que “não significa que os poemas emotivos tenham que deixar de existir – seria uma contradição pra mim – mas entender que talvez a poesia tenha um lugar na vida das pessoas que não seja exatamente o mesmo que a militância tem. Entender isso pode potencializar tanto a força dos poemas como a força da militância.”

Pássaros Imersos em Aquário possui uma história bem interessante. Esse foi um dos últimos a entrar no livro e foi escrito após Pedro Alberto fazer uma visita ao Centro de Ressocialização Feminino de Araraquara, graças a um projeto chamado Incitações Poéticas. As mulheres do Centro de Ressocialização gostaram da apresentação e ao final pediram para o autor escrever um poema sobre elas. Convite aceito, surge um dos meus versos favoritos: “sirenes anunciam a hora de dormir, / e ela já nem sabe se hoje foi ontem / ou depois de amanhã: / na dúvida / reza todo dia e / todo dia, humana, / renega espinhos / para dar vazão / à flor.”, esses versos mostram que mesmo com toda a angustia do cárcere, com todo o desespero de uma vida repleta de desgraças e privações, ainda há espaço para a esperança.

E essa representação da força, mesmo expondo a fragilidade, essa vontade de viver, apesar de todas as dificuldades, essa luta para não naufragar, mesmo dentro da tempestade, que tornam os poemas do livro Naufragar Jamais tão sutis e impactantes ao mesmo tempo, demonstrando que não estamos sozinhos em nossas tristezas, pois sempre há alguém que já passou por coisas iguais ou piores que nós e que conseguem transformar as suas experiências as experiências de outros em poesias.

Se em períodos anteriores a inovação na literatura era mexer apenas nas estruturas e conteúdos do texto, Naufragar Jamais de Pedro Alberto vem nos mostrar a tendência contemporânea de que o próprio livro está se desestruturando e ganhando novos formatos, pois ele, enquanto objeto físico e estético se tornou um fator limitador para a criatividade e, em alguns casos, deixou de ser o meio mais interessante para os escritores que desejam inovar e explorar todo o potencial que a palavra permite.

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