Marcelo Flecha: Cresça e desapareça

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Vamos desaparecer. Mas, do que – ou de quem – depende a sobrevivência da nossa imagem durante essa pequena réstia de tempo que antecede o esquecimento definitivo da nossa existência após a morte? De uma árvore? De um filho? De um livro?

Ideias como as do desaparecimento, das imprecisões da história, da memória e suas flutuações ficcionais, perpassam toda a narrativa da nova montagem que a Pequena Companhia de Teatro prepara para 2018, e com ela emergem as angústias do cronista que, não tendo pouco o que fazer, ainda se compromete com uma prática que adiciona o pior tempero possível ao assunto: a instável e efêmera escrita em suportes virtuais.

Por quanto tempo nossos entes queridos lembrarão das nossas façanhas até que o esquecimento vença essa resistência empedernida que o afeto impõe aos pobres familiares ou amigos que ficam?

De alguma maneira, nossa vida é balizada pelas marcas que vamos deixando no decorrer da passagem; uma tosca anedota sempre lembrada, um feito familiar ímpar, uma batalha caseira vencida, um gol importante na várzea; pequenas pedras que formam no inconsciente coletivo do nosso entorno a imagem do que somos para os outros – único ponto de vista possível de sobrevida, pois o que somos mesmo morre conosco no exato segundo em que o surrado coração para.

Pensar que não nos preocupa o funesto desaparecimento definitivo é uma pretensão que por si só já demonstra a intensão de se perpetuar, pelo menos na própria ideia da não preocupação com o assunto, e nesse caso, é a presunção da sentença que auxiliará o marginal – no sentido de estar à margem do pensamento comum – na prorrogação do apagamento absoluto.

Queremos sim marcar nossa passagem, de alguma maneira, pela contagem regressiva que chamamos vida. Queremos ser lembrados, pelo menos um pouquinho, pois dessas pequenas lembranças depende a nossa existência. Uma personagem do novo espetáculo diz: sem a memória de alguém sobre mim eu não tenho história. Nossa existência depende dos outros. Da tenacidade dos outros em manter a nossa memória viva, até que não seja mais possível resistir, e o esquecimento seja fato.

O entendimento da finitude incondicional é a sombra que acompanha o homem, e motor de muito do que vamos construindo durante a nossa trajetória, na tentativa de fazer pequenas marcas nos que demonstram que a nossa vida tem alguma serventia. Parentes, amigos, colegas, responsáveis por nos presentificar após a morte em frases como “fulana adorava reclamar”, “beltrano era um chorão”, “você lembra de cicrana?”. Não. Chegará um momento em que ninguém mais lembrará de cicrana, por mais generosa que seja a intenção daqueles que resistiram abnegadamente ao seu esquecimento; as gerações se encarregarão de apagar cada fragmento da sua memória, todas as suas lembranças, e a sua vida terá desaparecido definitivamente.

Na postagem anterior a esta perguntava sobre as concessões que devemos ou não fazer para o espectador. Um tema tão espinhoso como esse não seria nossa primeira opção se resolvêssemos ouvir o clamor da contemporaneidade por amenidades, fugacidades, virtualidades e afins. Mas, entendemos que os corrigidos quinze segundos de fama dizem muito do desespero que vivemos ao tentar abraçar nossa vida como única e peculiarmente significante, pois a velocidade da informação, o excesso de imagens, a vertiginosa jornada, exigem muito mais esforço para se provar uma existência; parafraseando um caro e resignado amigo, a árvore, o livro e o filho não são mais sinônimos de concretude.

História, memória, esquecimento, matéria-prima delicada. Dizer do que não sabemos é sempre ameaçador. Abordar assuntos que nos fragilizam é sempre dolorido, tendo em vista que todos nós, membros da Pequena Companhia de Teatro, estamos próximos dos cinquenta anos. Talvez, ao buscar contribuir de alguma forma para essa reflexão, estejamos encontrando uma maneira de tentar prolongar a lembrança da existência da Pequena Companhia de Teatro no Maranhão, pois, sabemos que daqui a algumas décadas ninguém se lembrará de nós, e estaremos mergulhados no labirinto das infinitas existências que povoaram o mundo sem deixar rastro.

Labirinto como o do exercício dramatúrgico ao que venho me propondo na empreitada do novo espetáculo, e que hoje exercito aqui ao escrever estas tortuosas linhas. Espero estar deixando o rastro de coesão e coerência necessários para que se encontre a saída.

MARCELO FLECHA

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